
O Comité Olímpico Internacional (COI) estará prestes a anunciar uma proibição total da participação de mulheres trans nas competições femininas dos Jogos Olímpicos — uma decisão que poderá ser oficializada já no próximo ano.
A medida surge após uma apresentação interna conduzida pela diretora médica do COI, Jane Thornton, que alegadamente apresentou dados preliminares apontando para vantagens físicas mantidas por mulheres trans e por atletas com diferenças no desenvolvimento sexual (DSD), mesmo após terapias hormonais.
Essas conclusões contradizem um estudo apoiado pelo próprio COI em 2024, que indicava que as mulheres trans poderiam, em várias modalidades, competir em desvantagem — nomeadamente em capacidades aeróbicas e força explosiva.
A presidente do COI, Kirsty Coventry, tem sido uma das principais defensoras de uma abordagem restritiva. Em março, afirmou: “Vamos proteger a categoria feminina e as atletas femininas. Vamos criar um grupo de trabalho para analisar a questão trans e, uma vez tomada a decisão, não voltaremos atrás.”
Embora o COI insista que “nenhuma decisão foi ainda tomada”, tudo indica que a organização se prepara para alinhar com políticas cada vez mais excludentes de federações como a World Athletics e a World Boxing, que já impuseram testes de verificação de sexo e baniram atletas com DSD.
Se confirmada, a decisão afetará diretamente atletas como a neozelandesa Laurel Hubbard [na imagem acima], a primeira mulher trans a competir nos Jogos Olímpicos, em Tóquio 2021. Hubbard ficou em último lugar na sua ronda e anunciou a reforma pouco depois, aos 43 anos — era, na altura, a quarta atleta mais velha da categoria.
Atenção desproporcional contra mulheres trans nas competições
A verdade é que as mulheres trans continuam a ser uma minoria ínfima no desporto de elite, precisamente por enfrentarem barreiras sociais, económicas e culturais profundas ao longo das suas vidas. Desde a infância, o acesso a treinos, bolsas, acompanhamento médico e segurança emocional é desigual. O mito da “invasão trans” nas competições femininas não tem qualquer base factual.
O regresso do sex testing, banido pelo COI em 1999, representa um retrocesso grave, reintroduzindo práticas amplamente criticadas pela comunidade científica e pelos direitos humanos. O geneticista Andrew Sinclair, responsável pela descoberta do gene SRY, alertou recentemente: “O sexo biológico é muito mais complexo. Usar o SRY para determinar o sexo é errado, porque o gene pode estar presente sem estar funcional. Não indica se existem testículos formados, se há produção [extra] de testosterona, nem se o corpo a consegue usar.”
Jogos Olímpicos de Los Angeles na mira das regulações
Esta viragem ocorre num contexto de pressão política crescente, especialmente com os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 no horizonte. Os Estados Unidos já aplicam um banimento total de mulheres trans em competições femininas, em linha com ordens executivas recentes.
O desporto olímpico parece assim caminhar para uma exclusão institucional das atletas trans e intersexo — um passo que ignora a diversidade humana e reabre feridas antigas. Para muitas pessoas defensoras dos direitos humanos, é também um sinal preocupante da politização da ciência e do retrocesso nos direitos das mulheres, cis ou trans, mais marginalizadas no desporto.
A eventual decisão do COI marca um ponto de rutura na história do desporto moderno. Em vez de procurar soluções inclusivas e baseadas em evidência científica robusta, o movimento olímpico parece ceder ao moralismo e à desinformação. Ao escolher o caminho da exclusão, o COI reforça preconceitos e legitima políticas discriminatórias que já colocaram em risco a carreira e a saúde de várias atletas. Num tempo em que se esperava que os Jogos Olímpicos simbolizassem união e diversidade, esta escolha poderá ficar na história como um dos seus momentos mais sombrios.
Situação olímpica em Portugal
O Comité Olímpico de Portugal ainda não se pronunciou sobre a questão. Tal como em muitos países europeus, não existem diretrizes nacionais claras sobre a inclusão de atletas trans e intersexo, ficando a decisão frequentemente nas mãos das federações internacionais. A ausência de políticas inclusivas reflete o impacto global das decisões do COI — e o modo como estas podem influenciar o desporto português num futuro próximo. Pelo menos até 2022, o Comité desconhecia a existência de uma única atleta trans em Portugal.
Segundo Ana Lúcia Santos, investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, é “impossível uma pessoa trans visionar uma carreira desportiva de forma profissional”, não só porque “as regras são cada vez mais restritivas”, mas também porque “o ambiente desportivo é normativo”. “Se agora há poucas atletas trans, a partir daqui não vamos ter nenhuma”, lamenta.
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