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Mais duas mulheres negras cis banidas dos Jogos Olímpicos devido aos níveis naturais de testosterona

Christine Mboma e Beatrice Masilingi juntam-se a nomes como o de Caster Semenya em nova decisão onde se juntam questões de género e raciais no desporto.

Duas velocistas de 18 anos da Namíbia, Christine Mboma e Beatrice Masilingiforam proibidas de correr nos 400 metros nos Jogos Olímpicos de Tóquio, porque, segundo a o Comité Olímpico, têm um “alto nível natural de testosterona”. Tornaram-se assim nas duas últimas mulheres de origem africana a serem banidas de eventos de atletismo porque não se encaixam nos padrões da Organização Mundial de Atletismo.

A organização limitou os níveis de testosterona para eventos femininos acima de 400 metros, mas abaixo de 1600 metros em 2019, uma regra que limitou a carreira da atleta sul-africana lésbica cis Caster Semenya.

A regra afetou todas as três medalhistas na prova de 800 metros nos Jogos Olímpicos de 2016: Semenya, Francine Niyonsaba, do Burundi, e Margaret Wambui, do Quénia. Todas as três atletas recusaram-se a tomar drogas para baixar os seus níveis naturais de testosterona e todas as mulheres proibidas até ao presente neste contexto são mulheres negras cis de origem africana.

A NNOC-CGA [Comité Olímpico da Namíbia] explicou que ambas as atletas competirão nas provas olímpicas de 100 e 200 metros.

Em 2018, a World Athletics, o órgão internacional que rege eventos de atletismo, instituiu uma regra para estabelecer limites de testosterona para atletas do sexo feminino, após as vitórias de Semenya. A regra entrou em vigor no ano seguinte.

Como ativistas trans nos dizem há algum tempo, o conceito de sexo binário, em que existem apenas dois sexos não sobrepostos, não é tão claro quanto é muitas vezes declarado“, escreveu Ruby Hamad, autora de White Tears/Brown Scars: How White Feminism Betrays Women of Color. “Os esforços para bloquear Semenya também demonstram como é fácil minar as mulheres, em particular as mulheres racializadas, mudando os requisitos para a entrada na chamada feminilidade.

As regras discriminam igualmente atletas intersexo. As pessoas intersexo nascem com qualquer número de características cromossómicas, gonadas, hormonais ou genitais que fazem com que os seus corpos manifestem fisicamente alguma combinação de características biológicas estereotipadas masculinas ou femininas. Alguém pode, portanto, ter características intersexo sem se identificar como intersexo, e há pessoas intersexo de todos os géneros. Não é sabido se alguma das mulheres alvo da proibição se identifica como intersexo.

Como já aqui foi escrito, os níveis de testosterona estão longe de ser os únicos factores para o sucesso desportivo. A alimentação, o descanso, a capacidade de transporte e metabolização do Oxigénio, a fisionomia (como o tamanho do coração, ou dos membros), o equipamento utilizado ou o plano de treinos são factores que influenciam grandemente a performance atlética. É importante que as entidades encontrem formas justas para a prática de um desporto competitivo, mas onde está a linha vermelha? No nível de testosterona? Na altura de uma atleta? Por exemplo, as atletas que dominam o salto em altura medem todas acima do 1,80m, muito acima da média numa mulher. Devem elas ser banidas acima de determinada altura? A fisionomia invulgar de Michael Phelps (torso longo, pernas curtas, mãos e pés compridos) pode também ser questionada perante o que é considerado normal? Mais, investigação descobriu que Phelps produz metade do ácido láctico dos seus concorrentes. Esses baixos níveis de ácido láctico significam que Phelps pode recuperar em menos tempo, o que pode ser especialmente útil ao passar por sessões de treino exigentes. Quem decide, portanto, que a partir de certo ponto não é justa a competição? E que outros factores poderão influenciar estas decisões?

Existe igualmente um detalhe que importa não descartar: os testes aos níveis de testosterona são propostos apenas quando há suspeitas de atletas que precisam ser testadas, ou seja, há o risco de este policiamento focar-se na aparência das atletas. Inserem-se as quatro campeãs num modelo daquilo que é esperado de uma mulher em termos de fisionomia, de força e até de beleza? Até que ponto não estão elas a ser penalizadas pelo seu aspecto pouco convencional aos olhos de um júri ocidentalizado?

Semanya desafiou a proibição a que foi sujeita em tribunal. Em maio de 2019, o Tribunal Arbitral do Desporto rejeitou o seu desafio. Em fevereiro de 2021, ela pediu recurso ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos, caso que ainda não foi decidido.

Semenya disse que tomou medicação para baixar os seus níveis de testosterona de 2010 a 2015. “A medicação causou uma infinidade de efeitos indesejados, como ganho de peso, febre, sensação constante de náusea e dor abdominal.” Ela disse que a batalha em curso para competir a “destruiu” “mental e fisicamente”.

Atualização 3 de agosto:

Em mais um caso em tudo similar aos mencionados acima, o antigo velocista polaco Marcin Urbas pediu que se investigue a “vantagem de testosterona” visível “a olho nu” de Christine Mboma, atleta da Namíbia, que compete nos 200 metros femininos nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Se ela não tivesse níveis de testosterona mais altos, seria normal. Apesar disso, ela apresenta-se nos Jogos Olímpicos contra mulheres. Deveria fazer um tratamento de redução de testosterona. Até então, não deveria ser permitido competir em tal ambiente“, rematou.

Mais um caso de misoginia, transfobia, interfobia e racismo sistémicos no desporto?


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