
Mais de 1.200 artistas, de 40 países, uniram-se numa carta aberta para exigir o boicote da Eurovisão até que Israel seja excluída.
Entre os nomes signatários estão icónicos como Brian Eno, Sigur Rós, Massive Attack e Peter Gabriel e ainda as vencedoras da Eurovisão Emmelie de Forest e Charlie McGettigan. Em Portugal, a lista conta com artistas como Cláudia Pascoal, Iolanda, Jorge Palma, The Legendary Tigerman e bandas como Linda Martini.
O apelo, coordenado pela iniciativa No Music For Genocide é um chamamento à ação coletiva, à recusa de um palco que, há três anos consecutivos, celebra Israel enquanto mais de 73 mil pessoas são mortas em Gaza, destas, 21 mil eram menores, e um terço da população a enfrentar fome.
O que motiva este apelo? A resposta está na contradição entre os valores proclamados pela Eurovisão — inclusão, diversidade e paz — e a realidade política que ignora. A carta sublinha que, enquanto a Rússia foi banida em 2022 por invadir a Ucrânia, Israel mantém-se no festival apesar de acusações de genocídio, cerco humanitário e limpeza étnica na Cisjordânia. A União Europeia de Radiodifusão (EBU), que se apresenta como neutra, recusa afastar Israel, alegando “salvaguardas“, uma justificação que artistas consideram hipócrita e insustentável.
Pinkwashing e perseguição: a Eurovisão como ferramenta de propaganda
A presença de Israel no festival não é inocente. Tel Aviv é apresentada internacionalmente como um “paraíso LGBTQ+ no Médio Oriente“, mas a realidade é mais complexa e violenta. Israel usa a visibilidade queer como ferramenta de propaganda (pinkwashing), enquanto persegue e chantageia pessoas palestinianas queer. Relatórios documentam casos como o de Mohammed e o seu parceiro, detidos por cinco horas, espancados durante duas e ameaçados de prisão caso não colaborassem com as forças israelitas. A estratégia é desmantelar redes de solidariedade queer palestiniana e justificar a hierarquia de vidas que privilegia israelitas.
Organizações como a Al Qaws denunciam esta prática de vigilância, chantagem e violência estatal, que transforma a intimidade em arma de controlo social. “Não se trata de segurança, é uma forma de controlo“, afirmou um ex-agente israelita. Para pessoas queer palestinianas, o medo é constante: colaborar é ser acusado de traição; recusar é enfrentar perseguição física. A ironia não podia ser mais óbvia: um Estado que se vende como progressista usa a opressão como ferramenta de guerra.
Gaza: o pano de fundo que a Eurovisão recusa ver
O contexto humanitário é incontornável. Desde outubro de 2023, mais de 73 mil pessoas morreram em Gaza, das quais 68% são mulheres, crianças e idosas. A Eurovisão, que se diz apolítica, não pode ignorar este cenário: é cúmplice de um genocídio quando dá palco a um Estado responsável por crimes de guerra.
Artistas questionam: como é que qualquer participante ou fã pode, em boa consciência, celebrar um festival onde Israel é aplaudido enquanto Gaza arde? A carta recorda que, em 2022, a EBU baniu a Rússia por “colocar a competição em descrédito reputacional“. Por que razão, questionam, 29 meses de genocídio em Gaza não justificam a mesma medida?
As saídas que mudam o mapa eurovisivo
A pressão tem tido efeitos. Em dezembro de 2025, Espanha, Irlanda, Países Baixos e Eslovénia anunciaram a sua saída da Eurovisão 2026, citando a manutenção de Israel como incompatível com os seus valores. A RTVE (Espanha, um dos big five) justificou a decisão com a “violação de valores universais como a humanidade“, enquanto a RTÉ (Irlanda) apontou a “crise humanitária em Gaza” e o “assassinato de jornalistas“. A EBU, contudo, manteve a sua posição, ignorando o crescente isolamento de Israel.
A ausência destes países reforça a perceção de que a Eurovisão já não é um evento unificador, mas um palco de escolhas políticas contraditórias.
Portugal: entre o silêncio e a cumplicidade
Em contraste, Portugal mantém-se no festival. A RTP justificou a decisão com a “transparência das regras” e a “neutralidade do evento“, numa postura que ignora o contexto de genocídio. Salvador Sobral, vencedor da Eurovisão em 2017, já tinha alertado: “Desde que o genocídio é declarado, é óbvio que Israel não pode estar na Eurovisão a cantar canções de circo“.
Os milhares de artistas que assinaram este apelo não estão a atacar a cultura, estão, sim, a defendê-la: a cultura não é neutra e o silêncio é cúmplice.
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