Como se regressa à pista de dança onde nasceu um mito pop? Madonna responde em Confessions II

Como se regressa à pista de dança onde nasceu um mito pop? Madonna responde em Confessions II

Mais de vinte anos depois de Confessions on a Dance Floor transformar as pistas de dança num manifesto de liberdade, Madonna regressa ao mesmo universo. Mas Confessions II não é uma sequela nostálgica nem um exercício de celebração da própria carreira. É um álbum sobre memória, perda, amor e sobrevivência, onde a pista de dança deixa de ser apenas um espaço de festa para se tornar um lugar de reconciliação.

Ao longo de 16 temas, Madonna revisita a cidade onde se reinventou, as pessoas que marcaram o seu percurso e as relações que lhe deixaram cicatrizes profundas. O resultado é um dos discos mais coesos e emocionalmente honestos da sua carreira, provando que, mais de quatro décadas depois da estreia, continua a encontrar novas formas de contar a sua história.

A pista de dança como lugar de transformação

Logo nos primeiros minutos, Madonna estabelece o tom do álbum. “As pessoas pensam que a música de dança é superficial. Estão todas erradas. A pista de dança não é apenas um lugar. É um limiar, um espaço ritual onde o movimento substitui a linguagem.”

Esta ideia percorre todo o disco. Em vez de apresentar a pista como fuga da realidade, Madonna transforma-a num espaço de identidade, comunidade e cura. Em I Feel So Free, Good for the Soul e One Step Away, uma brilhante sequência inicial que funciona quase como uma única composição, canta sobre a necessidade de desaparecer na multidão para se reencontrar. “Safety in numbers” (“há segurança nos números“), canta em tom sussurrado.

É uma ideia particularmente reveladora numa carreira construída sobre sucessivas reinvenções. Aqui, porém, essas transformações deixam de parecer estratégicas. Soam antes como mecanismos de sobrevivência. Afinal, como a própria explicou, a sua maior controvérsia foi sempre persistir.

Nova Iorque como casa e personagem

O momento mais exuberante do álbum chega com Danceteria, uma celebração do clube nova-iorquino onde Madonna começou verdadeiramente a construir a sua carreira.

A música recupera a energia caótica do início dos anos 1980, quando uma jovem recém-chegada do Michigan distribuía cassetes demo por DJs e sonhava conquistar um espaço na cena artística de Manhattan. Pelo caminho surgem referências a Mark Kamins, Debi Mazar, Maripol, Jean-Michel Basquiat, Keith Haring, Fab Five Freddie, Nile Rodgers, David Byrne, os B-52’s e até uma breve homenagem a Lou Reed.

Mais do que um desfile de nomes conhecidos, Danceteria consegue aqui, e ao contrário de Vogue, transmitir a sensação de descobrir uma comunidade pela primeira vez. A canção recria o entusiasmo de entrar num clube onde toda a gente parece mais livre, mais criativa e mais autêntica do que em qualquer outro lugar.

Quando Madonna canta que “toda a gente aqui é uma obra de arte”, resume uma filosofia que atravessa toda a sua carreira: a cultura dos clubes como espaço de experimentação, diversidade e autoexpressão.

Não é por acaso que escolhe começar por aqui. Para Madonna, os clubes foram lugares onde artistas, pessoas LGBTI+, comunidades racializadas e quem vivia à margem encontravam liberdade para existir antes de a encontrarem no resto do mundo. Confessions II presta também homenagem a esse legado coletivo.

O peso da perda

Como se regressa à pista de dança onde nasceu um mito pop? Madonna responde em Confessions II

Se a primeira metade do álbum celebra a liberdade da pista de dança, a segunda mergulha nas perdas que inevitavelmente chegam com o passar do tempo.

Em Fragile, uma das canções mais marcantes do disco, Madonna aborda a relação complexa com o irmão Christopher, falecido durante a criação do álbum. Em vez de alimentar ressentimentos antigos, escolhe uma abordagem surpreendentemente compassiva, reconhecendo a fragilidade que ambos partilharam.

Betrayal, construída sobre uma atmosfera de trip-hop elegante e inquietante, canaliza a dor e a raiva associadas à madrasta, escondendo emoções intensas sob uma produção fria e contida.

Um outro momento comovente chega em The Test, um dueto com a filha Lourdes “Lola” Leon. A canção recupera simbolicamente Little Star, tema incluído em Ray of Light, mas troca a idealização da maternidade por uma reflexão profundamente adulta. Madonna admite que nunca ponderou verdadeiramente o peso que a fama teria sobre a filha e pede desculpa por esse legado involuntário. A colaboração nasceu de um desafio lançado por Lourdes Leon, também ela cantora e compositora, para que mãe e filha voltassem finalmente a encontrar-se.

O regresso ao Lower East Side

Depois de uma hora de música de dança, Confessions II encerra com L.E.S. Girl, uma balada folk delicada e melancólica que contrasta com a exuberância eletrónica das faixas anteriores.

Aqui, Madonna sai da discoteca e regressa ao Lower East Side dos seus primeiros anos em Nova Iorque. Depois da noite na pista de dança, começa a nascer o dia. Recorda apartamentos precários, dificuldades para pagar a renda, roupas gastas e relações que ficaram pelo caminho. A cidade deixa de ser um palco glamoroso para revelar a dureza do quotidiano de quem tentava sobreviver enquanto perseguia um sonho.

Ao repetir “tudo se desvanece“, Madonna parece reconhecer a passagem inevitável do tempo e a perda de muitas pessoas amigas, familiares, colaboradoras e amantes ao longo das últimas décadas. Mas, mais do que uma declaração de derrota, é uma serena aceitação.

Um diálogo com toda a sua carreira

Como se regressa à pista de dança onde nasceu um mito pop? Madonna responde em Confessions II

Confessions II está repleto de referências subtis ao seu catálogo. Há ecos de Erotica, Justify My Love, Bedtime Story, Ray of Light e, naturalmente, do primeiro Confessions. No entanto, essas referências nunca funcionam como simples nostalgia.

Durante grande parte da carreira, Madonna recusou transformar o passado em nostalgia. Em Confessions II, pela primeira vez, revisita-o sem tentar corrigi-lo, reescrevê-lo ou fugir dele. Limita-se a compreendê-lo.

Também por isso a produção de Stuart Price merece destaque. O co-produtor reencontra a química que tornou Confessions on a Dance Floor um clássico, mas evita repetir fórmulas. A dupla compreende que o verdadeiro ADN de Confessions nunca foi um determinado género musical, mas a capacidade de transformar música de dança em narrativa emocional.

O resultado é um álbum moderno, elegante e profundamente orgânico, onde house, disco, electroclash, trip-hop e pop coexistem sem esforço.

A celebração depois da sobrevivência

Ao longo da carreira, Madonna utilizou a música de dança para falar de desejo, sexo, religião, poder, política e liberdade. Em Confessions II, usa-a para refletir sobre a passagem do tempo, o luto, a maternidade e a memória.

É provavelmente o álbum mais autorreflexivo da sua carreira e um dos mais pessoais de sempre. Mas, desta vez, Madonna parece menos preocupada em controlar a narrativa e mais interessada em compreendê-la.

No final, Confessions II recorda-nos aquilo que Madonna sempre soube melhor do que qualquer outra artista pop: dançar nunca foi apenas dançar. Sempre foi uma forma de resistir, de criar comunidade e de sobreviver.

Talvez seja por isso que este disco também me toca de forma tão pessoal. Foi numa festa de lançamento, numa discoteca de Lisboa, do primeiro Confessions que estive, pela primeira vez, frente a frente com aquele que hoje é o meu marido.

Talvez seja esse o verdadeiro poder da música de dança: nunca muda apenas uma noite. Às vezes, muda uma vida inteira.

Mais de quarenta anos depois de entrar pela primeira vez numa pista de dança em Nova Iorque, Madonna regressa à pista de dança onde nasceu o seu mito. E demonstra que, enquanto houver uma pista de dança, haverá sempre um caminho de regresso a si própria.

O novo álbum está disponível nas principais plataformas, incluindo Spotify:


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