
Nos tempos que correm, alguns assuntos estão em voga e tornaram-se um chavão e, de alguma forma, houve uma apropriação dos mesmos.
São eles a sexualidade e a neurodivergência… ambos aspetos sérios, profundos e que carecem de conhecimento sólido.
Assistir alguns vídeos ou ler alguns excertos nas redes sociais não me traz qualquer base científica considerável para ficar instruído, tampouco dialogar e discutir sobre.
Afinal o que abrange a sexualidade?
Vai muito além da orientação sexual, mas também inclui a identidade e expressão de género… entre outros vários subtemas do mesmo.
Vivemos numa sociedade e cultura hétero-cis-branco-normativa, regida pelo poder absolutamente machista e que impera no inconsciente coletivo.
Na nossa vida diária não questionamos ou refletimos sobre algumas normas que transitam entre nós.
Como exemplo: “Com que motivo crescemos racistas?” ou “Quem ordenou como devemos tratar as pessoas do género feminino?”
Sim, porque a rotina sufoca-nos em conjunto com os ecrãs… tornando-nos reféns da opinião infundada.
“Todos os jovens, independentemente da orientação sexual ou identidade, merecem um ambiente seguro e de apoio no qual possam atingir todo o seu potencial.” – Harvey Milk.
Criamos e idealizamos todo um (pré)conceito, quer seja sobre as pessoas homossexuais ou bissexuais… É importante ressaltar que, a orientação sexual independe da expressão de género ou do perfil da própria pessoa.
Igualmente se aplica à neurodiversidade.
Porém, o que é ser neurodivergente?

De acordo com a socióloga australiana, Judy Singer, neurodivergente refere pessoas cujos cérebros funcionam de forma diferente do padrão neurológico comum (neurotípico). O conceito é um grande guarda-chuva, que engloba funcionamentos como o Autismo, TDAH ou PHDA, Dislexia, entre outros.
“A verdadeira inclusão não é apenas aceitar os autistas, mas também valorizar suas contribuições e permitir que eles brilhem em sua plenitude.”– Temple Grandin.
O autismo é um desses sistemas que mais ganhou destaque e vãs discussões na mídia social.
A maioria de nós fala, opina e, muitas vezes se apropria sem sequer ter o conhecimento elementar.
A palavra autismo continua a ser muito temida e que arrepia centenas de pessoas diariamente.
O tabu e o estereótipo do menino que ficava sentado, sem qualquer interação e a girar os seus objetos é uma das clássicas imagens cinematográficas.
Felizmente, a ciência e os especialistas têm trabalhado arduamente para desmistificar esse rótulo que nos perseguiu (e persiste) durante inúmeros anos.
Inúmeras vidas foram institucionalizadas, abandonadas, marginalizadas e massacradas, apenas por serem diferentes do conceito comum de “normalidade”.
Muitas vidas foram perdidas, em meio ao sofrimento vividos a cada segundo…
E toda essa tragédia jamais pode ser recuperada.
No entanto, pode ser evitada e, podemos sim assumir a responsabilidade individual e coletiva, pois cada qual é exatamente como é.
Desde criança, ouço e deparo-me com opiniões e comentários, tais como: “És realmente muito estranho…”, “És uma florzinha de estufa…” ou ainda “Ele tem mesmo aspecto de quem não regula bem…”
Entre outras inúmeras observações e vivências que precisei lidar (e ainda lido), em sua maioria nem conseguia processar o que me estava a acontecer.
Apenas estava a tentar ser quem eu sou.
Por qual motivo emitir sons ou balançar as pernas, as mãos ou o corpo é tão incómodo? (entre outros movimentos e mecanismos)
Os especialistas afirmam que, as estereotipias ou stimming são expressões naturais do organismo na autorregulação. Exemplificando, o Sistema Nervoso Central a tentar processar e gerir uma sobrecarga sensorial (excesso de estímulos), sobrecarga emocional (tristeza e/ou frustração), sobrecarga social (interações longas ou inesperadas), entre outros.
Uma das referências atuais, em adultos autistas e TDAH (PHDA), o Dr. Lucas Fortaleza, psiquiatra, afirma que esses comportamentos são mecanismos vitais e não devem ser reprimidos.
É de ressaltar que, quando não enquadramos no perfil social aceitável, automaticamente estamos em maior risco de sofrer bullying. Toda a agressão física ou psicológica acontece de forma dissimulada…
“Ah, eu estava só a brincar contigo…” surge como uma das formas mais comuns.
Dessa forma, ofender ou diminuir a integridade de qualquer ser humano nunca é uma “brincadeira”.
Nenhum de nós tem o direito de colocar em risco a individualidade de cada ser vivo.
De acordo com a Declaração Universal dos Direitos Humanos:
“Artigo 1º
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.”
Ser autista e LGBTQIA+ nesta sociedade é exaustivo, pois estamos dentro de um expetável perfil estereotipado e predefinido pela sociedade.
Felizmente, encontrei na minha trajetória pessoas tão incríveis (além dos especialistas que me acompanham), que me apoiam, respeitam e demonstram o seu amor incondicionalmente.
Entre elas, deixo um agradecimento especial à minha melhor amiga… Bea, à Larissa e à Rubina, que são três pilares da minha vida e do meu suporte diário.
“O mundo precisa de todo o tipo de mentes.” – Temple Grandin.
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