Como reconhecemos uma personagem queer? Estudo revela que os estereótipos continuam presentes na ficção

Como reconhecemos uma personagem queer? Estudo revela que os estereótipos continuam presentes na ficção

Por que é que reconhecemos quase instantaneamente uma personagem como queer, mesmo antes de ela falar da sua identidade?

Nem sempre é a orientação sexual ou a identidade de género que o revelam. Muitas vezes são a forma como a personagem é construída, a maneira como fala, os papéis que desempenha ou as características que lhe são atribuídas.

Durante décadas, o cinema, a televisão e a literatura recorreram a códigos narrativos que ajudaram o público a identificar personagens queer. Um novo estudo sugere que esses códigos continuam presentes. Mas também mostra que a representação está finalmente a tornar-se mais complexa.

O resultado é um paradoxo: as personagens queer já escapam a muitos dos velhos estereótipos, mas a ideia de “queerness” continua associada a preconceitos profundamente enraizados.

O que nos ensinam as histórias que consumimos?

A equipa de investigação analisou cerca de 72 milhões de avaliações sobre duas mil personagens de filmes, séries e obras literárias. As pessoas participantes classificaram cada personagem através de dezenas de pares de características, permitindo identificar padrões de perceção sobre diferentes arquétipos narrativos.

Depois de identificar as personagens explicitamente queer, a equipa comparou-as com milhares de outras para perceber que características lhes eram mais frequentemente atribuídas.

A pergunta era simples: o que leva o público a reconhecer uma personagem como queer? A resposta revelou-se bastante mais complexa.

As personagens mudaram

Uma das primeiras conclusões é, ao mesmo tempo, uma das mais positivas. As personagens percecionadas como queer surgem frequentemente associadas aos arquétipos de Aventureira e Geek, enquanto as personagens percecionadas como heterossexuais aparecem mais vezes ligadas aos arquétipos de Heroína, Bruta e Loba Solitária.

À primeira vista, esta diferença poderia sugerir uma nova forma de estereótipo. Mas os dados contam uma história diferente.

Entre as personagens explicitamente queer, Heróina é o arquétipo individual mais frequente, seguido de Aventureira. Em vez de ocuparem um único papel narrativo, muitas combinam dois ou três arquétipos diferentes, tornando-se personagens mais ricas e menos previsíveis.

Por exemplo, Robin Buckley, de Stranger Things, combina características de Loba Solitária, Heroína e Aventureira. Em vez de responderem a uma fórmula única, estas personagens ocupam lugares muito diferentes dentro das respetivas histórias.

A representação, conclui a equipa, tornou-se mais diversa.

Mas o imaginário coletivo mudou menos

É quando a análise deixa as personagens e passa para as associações feitas pelo público que surge o paradoxo central do estudo. Apesar de as personagens queer serem hoje mais diversas, a própria ideia de “queerness” continua ligada a um conjunto de associações recorrentes.

Entre as características que aparecem mais próximas dessa perceção encontram-se conceitos como “abstrato“, “metafórico“, “teórico“, “enigmático” ou “andrógino“. Mas surgem também associações negativas, como “instável“, “mal escrito” ou “grosseiro“.

A análise encontrou ainda ligações a características como “antipatriótico“, “socialista” ou “traidor“, refletindo padrões culturais que a equipa relaciona com processos históricos de marginalização e construção da diferença.

Importa sublinhar que o estudo não conclui que as pessoas ou as personagens queer possuam estas características. O que revela é outra coisa: quando milhares de pessoas avaliam personagens de ficção, essas associações continuam a emergir de forma consistente.

Por outras palavras, os estereótipos parecem sobreviver menos nas personagens e mais na forma como aprendemos a reconhecê-las.

Há estereótipos que continuam particularmente resistentes

Jafar em Aladino da Disney.

A análise identificou também padrões específicos na representação de personagens masculinas queer.

Nestes casos, surgem com maior frequência aproximações aos arquétipos de Tolo e Diva, refletindo estereótipos antigos que apresentam homens queer como extravagantes, excessivos ou destinados ao alívio cómico.

Ao mesmo tempo, a própria equipa reconhece que os números não conseguem captar toda a riqueza das histórias.

Uma personagem pode recorrer deliberadamente a um estereótipo para o desconstruir. Pode começar por corresponder a uma imagem familiar do público e, ao longo da narrativa, ganhar profundidade, vulnerabilidade e complexidade. Os dados permitem identificar padrões. Não conseguem, por si só, distinguir quando um estereótipo está a ser reproduzido ou criticado.

Representação não é apenas uma questão de quantidade

Nas últimas décadas, a presença de personagens LGBTI+ nos media aumentou de forma significativa. O próprio estudo reúne dados da GLAAD que mostram um crescimento de cerca de 80% no número de personagens LGBTQ recorrentes na televisão entre 2015 e 2025.

Mas esta investigação sugere que a discussão sobre representação já não pode limitar-se a contar quantas personagens existem.

Também importa perceber como são escritas, que papéis ocupam e que ideias continuam a transmitir sobre as pessoas queer.

As personagens queer já não cabem num único molde. São heroínas, aventureiras, geeks, líderes, vilãs ou figuras secundárias, como qualquer outra personagem.

O problema é que continuamos, muitas vezes, a reconhecê-las através de filtros construídos por décadas de estereótipos. A representação mudou mais depressa do que o imaginário coletivo.


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