
O Queer Lisboa começa a revelar a programação da sua 30.ª edição e fá-lo com dois nomes que ilustram bem o percurso do festival ao longo das últimas três décadas. De um lado, Pedro Almodóvar, uma das figuras mais influentes do cinema queer europeu. Do outro, Jane Schoenbrun, uma das realizadoras que mais tem renovado a linguagem do cinema queer contemporâneo.
Entre 18 e 26 de setembro, o Cinema São Jorge e a Cinemateca Portuguesa voltam a receber o festival, que assinala três décadas dedicadas à divulgação do cinema e da cultura queer em Portugal. Nesta primeira apresentação da programação foram anunciadas duas Sessões Especiais, ambas em estreia nacional, e seis títulos da secção Panorama.
Almodóvar regressa com “Amarga Navidad”
Um dos momentos mais aguardados será certamente Amarga Navidad (Natal Amargo), o novo filme de Pedro Almodóvar, apresentado este ano no Festival de Cannes.
Segundo o Queer Lisboa, o realizador espanhol inspira-se na sua própria vida e na sua obra para construir “um sedutor jogo de autoficção“, cruzando múltiplas personagens e histórias num registo visual que continua a ser uma das suas imagens de marca.
O filme surge numa fase particularmente interessante da carreira de Almodóvar. Depois de explorar formatos mais curtos com The Human Voice e Strange Way of Life, e de realizar a sua primeira longa-metragem em inglês, The Room Next Door, o cineasta regressa agora ao espanhol com uma obra profundamente autorreflexiva, que promete revisitar alguns dos temas que atravessam décadas da sua filmografia: a memória, o desejo, a perda e a criação artística.
A presença de Almodóvar nos 30 anos do Queer Lisboa reforça também a relação histórica entre o festival e um dos autores que mais contribuiu para normalizar protagonistas e narrativas queer no cinema europeu contemporâneo.
Jane Schoenbrun confirma-se como uma das vozes mais importantes do novo cinema queer

Se Almodóvar representa um legado consolidado, Teenage Sex and Death at Camp Miasma simboliza uma nova geração de cinema queer.
Jane Schoenbrun tornou-se uma das realizadoras mais discutidas dos últimos anos depois de We’re All Going to the World’s Fair e, sobretudo, I Saw the TV Glow, filme que transformou o horror psicológico e a cultura popular dos anos 1990 numa poderosa metáfora sobre identidade de género, dissociação e pertença.
Agora, a realizadora apresenta aquela que é descrita como a sua terceira longa-metragem e a sua “consagração absoluta“. Protagonizado por Hannah Einbinder e Gillian Anderson, o filme abriu a secção Un Certain Regard do Festival de Cannes e conquistou a Queer Palm, distinguindo-se rapidamente como um dos títulos queer mais celebrados do ano.
O Queer Lisboa descreve-o como um “slasher queer icónico“, antecipando uma abordagem que cruza o imaginário clássico dos filmes de terror de acampamento com uma leitura profundamente queer do género cinematográfico.
A escolha confirma também o crescente reconhecimento internacional de Schoenbrun, cuja filmografia tem vindo a afirmar-se como uma das mais inovadoras na forma como utiliza o fantástico, o horror e a cultura pop para explorar experiências queer contemporâneas.
Panorama reúne documentário, animação e novas vozes internacionais
A secção Panorama apresenta igualmente seis filmes que passaram recentemente por festivais internacionais.
Entre os destaques encontram-se Barbara Forever, vencedor do Teddy Award na Berlinale e dedicado à realizadora Barbara Hammer; Un jeune homme de bonne famille, novo documentário de Sébastien Lifshitz; Jim Queen, irreverente animação francesa sobre a cultura bear; Blue Film, de Elliot Tuttle; Prosecution, thriller de Faraz Shariat distinguido com o Prémio do Público na Panorama da Berlinale; e Maspalomas, drama espanhol sobre envelhecimento, cuidado e vida em casal, realizado por Jose Mari Goenaga e Aitor Arregi. Alguns destes filmes contarão com a presença das respetivas equipas de realização durante o primeiro fim de semana do festival.
Três décadas de cinema queer
A edição de 2026 assinala um marco importante para o Queer Lisboa, o festival de cinema mais antigo da cidade dedicado ao cinema e à cultura queer.
Segundo a organização, a equipa de programação analisou este ano 1.027 filmes, dos quais 678 foram submetidos diretamente ao festival. A retrospetiva especial dos 30 anos será anunciada até ao final de julho, enquanto a programação completa ficará conhecida no início de setembro.
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