Queer Lisboa celebra 30 anos com 94 filmes entre memória, resistência e futuros queer

The Man I Love (Ira Sachs, 2026) com Rami Malek.
The Man I Love, de Ira Sachs e com Rami Malek.

De Ira Sachs a novas vozes do cinema queer internacional, passando por uma retrospetiva de três décadas de referências, cinco competições e uma nova secção dedicada às famílias, o Queer Lisboa completa 30 anos com uma das suas edições mais extensas. Entre 18 e 26 de setembro, o festival regressa ao Cinema São Jorge e à Cinemateca Portuguesa.

Depois dos primeiros destaques, que trouxeram nomes como Pedro Almodóvar e Jane Schoenbrun, o Queer Lisboa revelou agora a programação completa da sua 30.ª edição. São 94 filmes, provenientes de diferentes geografias e distribuídos por cinco competições, sessões especiais, Panorama, Resistência Queer, Queer Family e uma ampla retrospetiva dedicada à história do cinema queer.

“Memória”, “resistência”, “utopia” e “desejo” atravessam uma edição que procura olhar simultaneamente para as três décadas de história do festival e para o momento político atual.

Num contexto em que direitos e conquistas voltam a ser disputados em vários países, o Queer Lisboa assume que o cinema continua a ser também uma forma de imaginar outras possibilidades de existência e comunidade.

Ira Sachs abre o festival numa Nova Iorque marcada pela sida

A abertura, a 18 de setembro, fica a cargo de The Man I Love, novo filme de Ira Sachs, realizador que já passou pelo Queer Lisboa com Passages e Peter Hujar’s Day.

Ambientado na Nova Iorque do final dos anos 1980, em plena epidemia da sida, acompanha Jimmy George, artista e performer interpretado por Rami Malek, enquanto enfrenta a doença, a criação artística, o desejo e as relações que o rodeiam. O elenco inclui também Tom Sturridge, Rebecca Hall, Luther Ford e Ebon Moss-Bachrach.

A sessão será acompanhada pelo Alarido – Coro Feminista e LGBT, com arranjos a cappella de canções e hinos pop.

Tangles, primeira longa-metragem de Leah Nelson.
Tangles, de Leah Nelson (2026).

No encerramento, a 26 de setembro, o festival muda de registo com Tangles, primeira longa-metragem de Leah Nelson. A animação adapta a novela gráfica autobiográfica de Sarah Leavitt sobre uma família confrontada com a doença de Alzheimer e conta com vozes de Julia Louis-Dreyfus, Abbi Jacobson e Bryan Cranston.

Jane Schoenbrun regressa com um dos fenómenos queer do ano

Entre os títulos mais aguardados está também Teenage Sex and Death at Camp Miasma, de Jane Schoenbrun, que será exibido dia 19 de setembro, às 22h, no Cinema São Jorge.

Depois de I Saw the TV Glow, Schoenbrun regressa ao terror com uma obra que cruza slasher, desejo queer e uma reflexão sobre a relação que criamos com o próprio cinema. Hannah Einbinder interpreta uma jovem realizadora contratada para recuperar uma velha série de terror, acabando por procurar a antiga final girl da saga, vivida por Gillian Anderson.

Apresentado em Cannes, o filme tornou-se entretanto num dos títulos queer mais celebrados de 2026. A Time Out atribuiu-lhe cinco estrelas e descreveu-o como uma homenagem aos slashers e aos prazeres queer, enquanto a Sight and Sound destacou a forma aberta e lúdica como trabalha sexo e cinema. A receção ultrapassou entretanto o circuito crítico: o filme ganhou uma comunidade particularmente dedicada e foi já descrito pela Vulture como o primeiro grande filme de culto de 2026.

Entre violência estilizada, humor, erotismo e comentário sobre a cultura de fãs, Teenage Sex and Death at Camp Miasma transforma os códigos do terror dos anos 1980 numa história sobre identidade, obsessão e as formas como a cultura popular pode também ajudar a construir quem somos.

Cinco competições mostram diferentes geografias do cinema queer

Uma parte central do programa volta a estar nas cinco competições oficiais, começando pelas longas-metragens, com oito filmes centrados em percursos de transformação, pertença e decisões que alteram vidas.

Entre eles está La Gradiva, de Marine Atlan, apresentado em anteestreia nacional, e Estrany Riu, do catalão Jaume Claret Muxart, que estará em Lisboa para apresentar o filme.

Do Brasil chega London, de Victor Di Marco e Márcio Picoli, numa estreia internacional que coloca no centro a experiência queer e a deficiência. Ambos os realizadores estarão presentes no festival.

A seleção atravessa ainda cinematografias da África do Sul, México, Bélgica e Filipinas.

Na Competição de Documentários, oito primeiras obras levam o festival de Barcelona aos Estados Unidos, Vietname, França ou Suíça.

Corren las Liebres, de Lorena Ros, acompanha pessoas trans que passaram pelo sistema prisional e vivem situações de exclusão e desabrigo na periferia de Barcelona.

Public Access recupera a história dos canais de televisão de acesso público norte-americanos e a sua relação com as transformações sociais das décadas de 1970 a 1990.

Em Virages, Céline Carridroit e Aline Sutre acompanham Johanna Schopfer numa viagem onde a transição, a memória e a paixão pelo automobilismo se cruzam.

Duas estreias mundiais na Queer Art

É na Competição Queer Art que o festival volta a procurar algumas das propostas mais experimentais da programação.

Entre os oito filmes encontram-se duas estreias mundiais.

Life Is about Losing Everything, dos irmãos alemães Benjamin e Stefan Ramírez Pérez, cruza diferentes linguagens numa adaptação do universo da escritora e poetisa feminista canadiana Lynn Crosbie.

Não Resta Nada marca a primeira longa-metragem de ficção do português André Godinho,
Não Resta Nada, de André Godinho (2026).

Não Resta Nada marca a primeira longa-metragem de ficção do português André Godinho, que imagina uma distopia onde pessoas queer se confrontam com um mundo hostil.

O realizador regressa assim ao festival depois de Uma Rapariga Imaterial ter conquistado, em 2022, os prémios do público e do júri na competição de curtas.

A secção assinala igualmente os regressos de Gustavo Vinagre, com A Paixão segundo G.H.B., e Ester Bergsmark, com A Sweetness from Nowhere.

32 curtas entre liberdade, memória e pertença

As duas competições dedicadas às curtas-metragens reúnem 32 filmes.

Na competição principal estão novos trabalhos de nomes já conhecidos do festival, como Abdellah Taïa e Maryam Tafakory.

Em Cairo Streets, Taïa regressa a imagens filmadas no Cairo em 2007, enquanto Daria’s Night Flowers utiliza excertos do cinema iraniano para construir uma história de amor proibida.

Je veux qu’on se souvienne de nous recupera o trabalho da fotógrafa lésbica norte-americana Donna Gottschalk. Em Sanctuary, Sam Ashby investiga o legado de Purusha Larkin, monge, escritor e guru sexual ligado às contraculturas queer dos anos 1980.

A Hora da Estrela, de Rita Barbosa (2026).
A Hora da Estrela, de Rita Barbosa (2026).

Portugal está representado por Rita Barbosa, com A Hora da Estrela, uma comédia protagonizada por June João na qual uma influencer em dificuldades se cruza com um gato com superpoderes.

A competição In My Shorts, dedicada a escolas europeias de cinema, apresenta dez trabalhos.

Entre eles está Red Elephant, documentário autobiográfico no qual o paquistanês Iqran Rasheed questiona um sistema burocrático que promete proteção às pessoas queer enquanto lhes exige a exposição de experiências traumáticas.

Resistir continua a ser parte do programa

Pelo terceiro ano consecutivo, regressa também a secção Resistência Queer, desta vez com quatro documentários mais centrados em experiências pessoais, comunidade e ativismo.

A veterana cineasta alemã Monika Treut apresenta Cooking Up Democracy, um olhar sobre Taiwan e a construção quotidiana de uma sociedade plural.

Do Brasil chega Desejo de Viver (mutatis mutandis), construído a partir dos testemunhos de cinco pessoas trans com deficiência e realizado por uma equipa que integra igualmente pessoas trans.

Hélène trésore transnationale recupera a história de Hélène Hazera, figura da cultura francesa que atravessou movimentos homossexuais, de trabalhadoras do sexo e de combate ao VIH/sida.

Pédale rurale, de Antoine Vazquez, desloca o olhar para comunidades LGBTQIA+ rurais francesas, entre modos de vida discretos e ativismo local.

Cinema, política e emancipação

A relação entre criação artística e transformação política ganha também uma sessão própria com La conscience politique, do francês Léolo Victor-Pujebet.

Apresentado em estreia internacional, o documentário parte da obra do filósofo e sociólogo Geoffroy de Lagasnerie, conhecido pelo trabalho em torno da política, direito, arte, violência institucional e teoria crítica.

Depois da exibição, Victor-Pujebet e Lagasnerie estarão numa conversa moderada pelo crítico António Guerreiro.

Família, amizade, democracia, repressão, normas sexuais e o próprio cinema enquanto instrumento de circulação do pensamento estarão entre os temas em discussão.

RuPaul e novas famílias no Panorama

O Panorama acrescenta entretanto duas novas confirmações aos títulos anteriormente anunciados.

Stop! That! Train!, de Adam Shankman, junta RuPaul a várias drag queens ligadas ao universo de Drag Race numa comédia que figura entre as propostas mais assumidamente populares desta edição.

Num registo muito diferente, Outerlands, primeira longa-metragem de Elena Oxman, traz Asia Kate Dillon para um drama independente ambientado em São Francisco sobre as formas contraditórias como a família pode marcar uma vida.

Mas uma das principais novidades estruturais desta edição é a criação da Queer Family.

Pensada para crianças, jovens e respetivas famílias, a nova secção procura criar uma experiência intergeracional em torno da inclusão, identidade, afetos e diferentes formas de família.

A estreia faz-se com duas longas-metragens brasileiras: Feito Pipa, de Allan Deberton, e a animação Papaya, de Priscilla Kellen.

Resgatar o passado para imaginar futuros

Os 30 anos do Queer Lisboa são particularmente visíveis na retrospetiva “Resgatar Futuros: o cinema queer vê-se ao espelho”, organizada em parceria com a Cinemateca Portuguesa.

São 19 filmes distribuídos por oito programas duplos, colocando obras de épocas diferentes em diálogo.

Passam pelo ecrã nomes fundamentais como Cheryl Dunye, Kenneth Anger, Marlon T. Riggs, Lana e Lilly Wachowski, Sally Potter, Lisa Cholodenko, Su Friedrich, John Greyson, Kim Longinotto e Ventura Pons.

Entre os títulos estão The Watermelon Woman, Bound, Orlando, Pink Narcissus, Scorpio Rising, Black Is… Black Ain’t e Zero Patience.

A programação recupera também uma peça particularmente singular da história queer portuguesa.

Fatucha Superstar – Ópera Rock… Bufa, de João Paulo Ferreira, realizada em 1976, regressa ao grande ecrã numa nova digitalização da Cinemateca Portuguesa, exatamente 50 anos depois da sua criação.

A lógica da retrospetiva não é apenas comemorativa. O festival propõe revisitar filmes que imaginaram comunidades, sexualidades e formas de existência alternativas para pensar aquilo que essas utopias ainda podem dizer ao presente.

94 filmes e cineastas de várias partes do mundo

No total, a 30.ª edição apresenta 94 filmes assinados por 118 cineastas.

Segundo os dados divulgados pelo festival, 51% são homens cisgénero, 36% mulheres cisgénero e 13% pessoas trans ou não-binárias. Um quarto das pessoas realizadoras são BIPOC.

O Queer Lisboa 30 decorre entre 18 e 26 de setembro, no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa.

Os bilhetes para as sessões no Cinema São Jorge ficam disponíveis a partir de 7 de setembro, tanto na bilheteira como online. A nova secção Queer Family terá entrada gratuita para menores de 12 anos.

Podes conferir toda a programação no site do festival.

Trinta anos depois da primeira edição, o festival chega assim ao aniversário não apenas a recuperar a memória do cinema queer que ajudou a mostrar em Portugal, mas a colocá-la em diálogo com uma geração que continua a usar o cinema para disputar o presente e imaginar outros futuros.


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