
Victoria Cruz, uma das figuras históricas do movimento pelos direitos das pessoas trans nos Estados Unidos e sobrevivente da Revolta de Stonewall, morreu a 25 de junho, em Manhattan, aos 79 anos, vítima de cancro no fígado.
Nascida em Porto Rico e criada em Brooklyn, Cruz iniciou a sua transição ainda durante a adolescência, numa época em que pessoas podiam ser presas simplesmente por usarem roupa ou penteados associados a outro género. Décadas mais tarde, tornar-se-ia uma das vozes mais respeitadas da comunidade trans nova-iorquina, combinando ativismo, apoio direto e trabalho social.
Contemporânea de figuras históricas como Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, Victoria Cruz esteve presente no Revolta de Stonewall, o levantamento que marcou um ponto de viragem na luta pelos direitos LGBTI+.
Mais do que testemunhar esse momento histórico, dedicou os anos seguintes a construir uma comunidade mais forte e mais segura.
Uma vida ao serviço da comunidade
Durante 17 anos trabalhou no New York City Anti-Violence Project, prestando apoio a sobreviventes de violência doméstica, discriminação e crimes de ódio contra pessoas LGBTI+.
O seu papel ultrapassava largamente as funções oficiais. Era frequentemente a primeira pessoa que muitas vítimas procuravam.
“Entravam no escritório e perguntavam simplesmente pela Miss Vicky“, recordou Catherine Shugrue-Dos Santos, antiga diretora-adjunta da organização. “Nem diziam o nome nem queriam falar com mais ninguém. Ela tinha verdadeiramente a confiança da comunidade.”
Ao longo da sua vida, Cruz tornou-se também uma referência na compreensão das múltiplas formas de discriminação enfrentadas pelas pessoas trans, desde a dificuldade em encontrar habitação ao acesso ao emprego ou à proteção contra a violência.
A amizade com Marsha P. Johnson
Victoria Cruz manteve uma longa amizade com Marsha P. Johnson, iniciada pouco depois de Stonewall e interrompida apenas pela morte da ativista, em 1992.
Nunca aceitou a conclusão inicial da polícia de que a morte de Johnson teria sido um suicídio. Anos mais tarde conduziu a sua própria investigação, trabalho que ganhou nova visibilidade no documentário The Death and Life of Marsha P. Johnson.
Recordava frequentemente a última conversa que teve com Marsha, um conselho que guiou toda a sua vida:
“Tenta manter a comunidade unida, porque nós somos o nosso pior inimigo. Há força nos números. O mundo vai tentar dividir-nos e, quando uma comunidade se divide, torna-se mais fácil conquistá-la. Por isso, tenta manter a comunidade unida.”
Essa mensagem tornou-se uma espécie de missão pessoal para Cruz, que continuou a apoiar gerações mais jovens de pessoas LGBTI+.
“Os desafios continuam a ser os mesmos”
Apesar das conquistas alcançadas desde Stonewall, Victoria Cruz lembrava que muitos dos problemas fundamentais permaneciam.
“Jovens continuam a precisar de um teto, de emprego. É a mesma história. Ainda continua a acontecer.”
Acrescentava ainda que encontrava esperança precisamente nas gerações mais novas:
“Adoro jovens porque fazem perguntas. Faço-lhes saber que estou aqui para ajudar e ensinar, se estiverem dispostos a aprender.”
Um legado de esperança
Num momento em que vários países assistem a novos ataques aos direitos das pessoas trans, o percurso de Victoria Cruz recorda que a história do movimento LGBTI+ foi construída tanto através da resistência pública como do cuidado quotidiano dentro da comunidade.
Pouco antes da sua morte, deixou uma mensagem que resume a forma como encarava o futuro:
“Sou otimista e tenho esperança de que as coisas mudem para melhor. Há força nos números. Se nos unirmos e permanecermos unidas, podemos tornar o futuro diferente daquilo que é hoje. Ao fortalecermo-nos mutuamente, fortalecemos toda a comunidade. Com o mesmo propósito e a mesma visão, podemos mudar aquilo que está a acontecer.”
Mais de meio século depois de Stonewall, Victoria Cruz deixa um legado feito de coragem, solidariedade e da convicção de que a união continua a ser uma das ferramentas mais poderosas na defesa dos direitos humanos.
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