Pila. Pomba. “Agarrou nas minhas bolas.” Pau. Passarinha. Mais alguma? Talvez tetas ou racha?
Os sinónimos são vastos, mas, se chegaste até aqui, é provável que alguma destas palavras te tenha provocado desconforto. E, pelas sondagens que fiz há umas boas semanas no Instagram, esta inquietação não é assim tão individual. Pelo contrário: parece ser bastante generalizada. Foi precisamente esse desconforto que me levou a escrever este artigo.
Quando o nosso vocabulário nos causa desconforto
Todas as palavras com que comecei este artigo são nossas. Estão nos nossos dicionários há anos e, mais importante ainda, fazem parte do leque de palavras usadas nos nossos momentos mais íntimos, atrevidos ou simplesmente quotidianos. A gíria popular está cheia de piadas com estes sinónimos. Eles aparecem em rabiscos nos cadernos de escola, em grafitis espalhados pelas cidades e em conversas que, dependendo do contexto, nos fazem rir, corar ou desviar o olhar.
Mas então por que razão, quando as lemos num livro, nos causam tanta repulsa?
Foi esta inquietação que me levou a ir mais longe e a questionar até que ponto a nossa relação com a sexualidade e, dentro da comunidade queer, com a repressão pode alimentar uma espécie de autocensura sobre aquilo que consideramos normal. Mesmo quando falamos de ficção. Mesmo quando falamos de livros eróticos.
Nas sondagens que fiz, uma das respostas mais curiosas foi esta: muitas pessoas admitem sentir mais desconforto ao ler estas histórias em português do que noutro idioma, sobretudo em inglês. Ou seja, o problema talvez não esteja apenas no conteúdo sexual. Está também na língua. Na proximidade. No facto de aquelas palavras serem nossas, familiares, demasiado concretas. Quando surgem em inglês, parecem ganhar uma camada de distância. Quando aparecem em português, tornam-se mais cruas, mais íntimas, mais difíceis de ignorar.
E é aqui que não consigo deixar de pensar na forma como a nossa história moldou a relação que temos com o corpo, o desejo e a sexualidade. Durante décadas, a repressão moral, social e política empurrou estes temas para o silêncio, para a vergonha ou para a ideia de desvio. Talvez por isso ainda exista, em Portugal, uma dificuldade tão grande em encarar a sexualidade como uma dimensão humana, literária e emocional, e não apenas como algo obsceno.
Mesmo hoje, quando estes livros ganham destaque, muitas vezes graças ao TikTok e à exposição ao mercado estrangeiro, há uma tendência curiosa: muitos leitores evitam a palavra “erótico” e preferem expressões como “romance com smut”. Como se o termo “erótico”, por si só, os colocasse numa categoria desconfortável. Como se dissesse algo sobre quem lê. Como se os transformasse, de repente, em leitores depravados.
Esta tensão torna-se ainda mais evidente quando juntamos a isto a masculinidade. Não apenas a ideia do que um homem deve ser na sociedade, mas também a forma como lhe é permitido sentir, desejar, insegurizar-se ou lidar com o prazer da outra pessoa. Quando a sexualidade feminina, o erotismo e a autonomia do desejo entram na conversa, muitos homens continuam a reagir com ameaça. Não necessariamente por maldade, mas porque foram ensinados a ver o desejo como posse, validação ou controlo.
Foi impossível não pensar nisso ao encontrar o relato de um utilizador no Reddit que dizia sentir-se desconfortável por a esposa ler livros eróticos. O problema, no fundo, talvez nunca tenha sido apenas o livro. Talvez tenha sido aquilo que o livro lhe devolvia: a possibilidade de a mulher desejar, imaginar e sentir fora do espaço controlado da relação.

A mudança tem acontecido nas novas gerações
Apesar de ainda estarmos longe de conseguir discutir estes temas com maturidade — especialmente num tempo em que tantos direitos sociais continuam a ser atacados — os livros permanecem um dos maiores portais para algo profundamente humano: a empatia.
E, quando olhamos para a forma como o livro erótico mudou desde o sucesso comercial de 50 Sombras de Grey, torna-se claro que também mudou a forma como falamos de desejo, consentimento, identidade e representação. Ainda assim, em Portugal, estes temas continuam a chegar-nos muitas vezes através da literatura traduzida. Nas séries e telenovelas nacionais, a representação da sexualidade, da nudez e do desejo continua a ser limitada, previsível ou recebida com desconforto pelo público.

Quando existe, essa representação fica frequentemente presa a modelos heteronormativos. O corpo aparece, o desejo aparece, mas quase sempre dentro de estruturas já esperadas. Falta espaço para outras formas de intimidade, para outras masculinidades, para relações queer, para vínculos platónicos profundos e para personagens que não sejam definidas apenas pelo romance ou pelo sexo.
É também por isso que o sucesso de Heated Rivalry se torna tão interessante. Não apenas por ser uma história queer, erótica ou romântica, mas porque mostra como há público para narrativas que tratam o desejo, a vulnerabilidade e a identidade com mais coragem emocional. O impacto da série ajuda a perceber que a procura por representação não é apenas uma exigência de nicho. É uma necessidade de reconhecimento.
Os estudos do Center for Scholars & Storytellers, da UCLA, têm mostrado precisamente essa mudança nas gerações mais novas. Ao longo dos relatórios Teens & Screens, os jovens têm demonstrado interesse crescente em histórias mais autênticas, em relações de amizade, em vínculos platónicos e em personagens que representem diferentes formas de viver o afeto, incluindo personagens assexuais ou aromânticas. Também parece haver um cansaço em relação a cenas de sexo sem significado narrativo, como se o público mais jovem estivesse menos interessado em choque gratuito e mais interessado em verdade emocional.
Séries como Stranger Things e Heartstopper ajudam a explicar essa tendência. Não porque rejeitem necessariamente o romance, mas porque mostram que a ligação entre personagens pode existir para lá da tensão sexual. A amizade, o cuidado, a descoberta, a vulnerabilidade e a pertença também são formas de intimidade.
Talvez seja isso que ainda nos falte discutir melhor: não apenas as palavras que nos deixam desconfortáveis, mas o motivo pelo qual nos sentimos desconfortáveis quando a literatura, a televisão ou a cultura nos obrigam a encarar o corpo, o desejo e a intimidade como coisas humanas, e não como coisas vergonhosas.
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