“Está a tornar-se mais difícil convencê-las a candidatarem-se”: ódio online ameaça candidaturas LGBTI+ no Quebeque

"Está a tornar-se mais difícil convencê-las a candidatarem-se": ódio online ameaça candidaturas LGBTI+ no Quebeque

Na imagem: Roxane Milot (via Facebook)
Roxane Milot, presidente bissexual do partido Québec solidaire.

A poucas semanas do início oficial da campanha eleitoral no Quebeque, várias pessoas LGBTI+ candidatas denunciam uma vaga crescente de insultos homofóbicos e transfóbicos nas redes sociais. Algumas mensagens já incluem ameaças de violência.

O Quebeque prepara-se para eleições provinciais num ambiente digital cada vez mais hostil para várias das pessoas LGBTI+ que se apresentam a votos.

Candidaturas de diferentes forças políticas estão a denunciar uma vaga de mensagens homofóbicas e transfóbicas, insultos e, em alguns casos, ameaças explícitas. Para o partido Québec solidaire, a dimensão atingida pelo fenómeno é “excecional” e “alarmante“.

Roxane Milot, presidente do partido e candidata numa circunscrição de Montreal, considera que o problema ultrapassa a violência sofrida individualmente por quem participa na vida política.

Milot, que é bissexual, alerta que este ambiente pode afastar pessoas pertencentes a grupos historicamente sub-representados da própria possibilidade de se candidatarem.

Há uma ligação direta. Vimos que, para muitas pessoas de diferentes origens — sejam queer, mulheres ou racializadas —, tem sido mais difícil convencê-las a candidatarem-se“, afirmou ao Toronto City News.

Segundo Milot, organizações LGBTI+ com as quais o partido trabalha têm igualmente alertado para uma deterioração da situação no Quebeque. “Dizem-nos que a situação está a piorar de dia para dia no Quebeque. É muito alarmante.

A própria candidata afirma ter sido recentemente alvo de mensagens de ódio e ataques coordenados nas redes sociais.

Quando os insultos passam a ameaças

Philippe Schnobb, candidato do Parti Québécois, relata uma experiência semelhante. Schnobb entrou na política partidária em janeiro e afirma que os ataques homofóbicos começaram precisamente depois dessa decisão. “Desde que me envolvi na política, tenho recebido frequentemente comentários homofóbicos“, explicou.

O candidato recorda que já tinha desempenhado funções públicas e trabalhado como jornalista sem encontrar o mesmo nível de hostilidade.

Quando era presidente [da empresa de transportes públicos de Montreal], jornalista ou simplesmente um cidadão comum, não recebia este tipo de comentários.”

Agora, algumas das mensagens ultrapassaram o insulto. Numa delas, uma pessoa escreveu, recorrendo também a linguagem homofóbica, que havia um “2×4 à tua espera” — referência a uma peça de madeira que pode ser interpretada como ameaça física.

Schnobb classifica estas mensagens como “comentários intoleráveis que são, nada mais, nada menos, do que ameaças“. Apesar disso, não pretende, para já, avançar judicialmente.

Um líder partidário também entre os alvos

Charles Milliard, líder do Partido Liberal do Quebeque e abertamente gay, também tem denunciado ataques homofóbicos.

Questionado em fevereiro sobre se a população do Quebeque estaria preparada para eleger um primeiro-ministro gay, respondeu: “Veremos“.

Toda a população do Quebeque tem direito a votar. A política é sobre fazer coisas públicas e não tenho qualquer intenção de esconder quem sou das pessoas do Quebeque.”

Meses depois, no Dia Internacional contra a Homofobia e a Transfobia, denunciou publicamente comentários homofóbicos que lhe tinham sido dirigidos.

Segundo Philip Laflamme, responsável de conteúdos e comunicação dos liberais, os ataques não se limitam sequer às pessoas LGBTI+. Candidaturas que não pertencem à comunidade também recebem insultos homofóbicos e transfóbicos simplesmente por integrarem um partido liderado por um homem gay.

Éric Duhaime, líder do Partido Conservador do Quebeque e também abertamente gay, tem igualmente recebido mensagens de ódio. A sua equipa confirmou os ataques, embora Duhaime prefira não lhes dar maior visibilidade.

Um problema que atravessa partidos

Os relatos mostram, assim, um fenómeno que não está circunscrito a uma única força política. Québec solidaire, Parti Québécois, Partido Liberal e Partido Conservador têm pessoas LGBTI+ que relatam ou são alvo de ataques.

A própria Coalition Avenir Québec, atualmente no governo, afirma estar a acompanhar atentamente as redes sociais das suas candidaturas e condena este tipo de violência.

O caso também obriga os próprios partidos a confrontarem-se com o discurso de ódio dentro das suas fileiras. Recentemente, Vanessa Durand retirou a sua candidatura pelo Québec solidaire depois de ter publicado comentários ofensivos contra apoiantes LGBTI+ do Parti Québécois. A publicação foi eliminada e Durand pediu desculpa antes de abandonar a candidatura.

O episódio recorda que a LGBTIfobia não respeita necessariamente fronteiras partidárias nem desaparece por uma força política se apresentar como aliada das pessoas LGBTI+.

Do ataque individual à participação democrática

Talvez a consequência mais profunda desta vaga de violência esteja, porém, fora das caixas de comentários. Quando participar na política significa preparar-se para receber insultos relacionados com a orientação sexual, identidade ou expressão de género — e eventualmente ameaças —, o custo pessoal de uma candidatura torna-se desigual.

É precisamente para essa consequência que Milot chama a atenção: algumas pessoas podem simplesmente decidir não entrar na política.

A investigação internacional tem encontrado sinais semelhantes noutros grupos sujeitos a violência discriminatória. Um estudo sobre as eleições brasileiras de 2022, por exemplo, analisou cerca de dez milhões de publicações dirigidas a mulheres candidatas e encontrou uma associação entre o aumento de ataques misóginos e a redução posterior da atividade online das candidatas.

Nesse sentido, o assédio político não é apenas um problema de moderação das redes sociais. Pode tornar-se uma questão de representação e participação democrática.

Os próprios partidos quebequenses começaram a adaptar-se. O Québec solidaire criou grupos de apoio e assistência remota para candidaturas que enfrentem estas situações. Liberais desenvolveram uma estrutura semelhante e disponibilizam formação para ajudar as suas candidaturas a lidar com situações de violência.

As medidas ganham particular importância à medida que se aproximam as eleições. As próximas eleições gerais provinciais do Quebeque estão marcadas para 5 de outubro de 2026, devendo o período eleitoral começar oficialmente a 29 de agosto.


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