
Durante milhares de anos, seres humanos olharam para o céu e tentaram compreender um fenómeno simultaneamente raro e assustador: o desaparecimento do Sol em pleno dia.
Antes de conhecermos os mecanismos de um eclipse, encontrámos outras explicações. Na China antiga, criaturas celestes podiam devorar o Sol. Na mitologia nórdica, um lobo perseguia-o pelos céus. Noutras culturas, um eclipse podia anunciar guerras, mortes, mudanças de poder ou a ira dos deuses.
Estas histórias dizem-nos pouco sobre aquilo que realmente acontece no céu. Mas dizem-nos muito sobre quem, cá em baixo, tentava compreendê-lo.
Porque os seres humanos não projetaram apenas os seus deuses no firmamento. Projetaram também os seus medos, valores e preconceitos.
E até o sexo entre homens acabou por ser responsabilizado pelo desaparecimento do Sol.
Quando o sexo entre homens chegou ao céu
No Talmude Babilónico, uma das obras fundamentais da tradição rabínica judaica, encontramos uma curiosa discussão sobre eclipses. Em Sukkah 29a, são apresentados quatro acontecimentos ou comportamentos associados a um eclipse solar.
Um deles é mishkav zachar: relações sexuais entre homens.
A associação pode parecer particularmente estranha aos olhos de hoje. Mas enquadra-se numa longa história humana de interpretação dos acontecimentos celestes através da ordem moral e social de cada comunidade.
Aquilo que era entendido como uma transgressão na Terra podia encontrar uma consequência simbólica nos céus.
Importa aqui uma pequena ressalva histórica. Seria anacrónico traduzir esta referência simplesmente como «homossexualidade». As atuais categorias de orientação sexual e identidade LGBTI+ não existiam naquele contexto. A passagem refere-se meramente a práticas sexuais entre homens.
Um Universo feito à nossa imagem
Os eclipses são particularmente interessantes para perceber como construímos explicações para aquilo que ainda não compreendemos.
Durante grande parte da história humana, o céu não esteve separado da vida política, religiosa ou social. Cometas podiam anunciar a queda de governantes. Eclipses podiam ser avisos divinos. Movimentos dos astros podiam ser relacionados com guerras, colheitas ou epidemias.
O céu tornava-se, assim, uma espécie de espelho.
Quando uma sociedade interpretava um eclipse como consequência de determinados comportamentos humanos, não estava apenas a tentar compreender o Universo. Estava também a revelar aquilo que temia, condenava ou considerava uma ameaça à sua própria ordem.
É nesse sentido que esta pequena passagem do Talmude continua relevante em termos históricos. Não porque nos ensine alguma coisa sobre astronomia, mas porque nos ensina alguma coisa sobre os valores da sua época.
E o eclipse de 12 de agosto?
A 12 de agosto de 2026, a Lua volta ocultar o Sol. Hoje sabemos prever com precisão quando acontecerá, onde será visível, quanto tempo durará e qual será o percurso da sombra da Lua pela superfície terrestre.
Não precisamos de procurar culpas.
Um eclipse não é um castigo, um presságio ou uma resposta do Universo ao comportamento de alguém. Mas continua a ser possível olhar para este fenómeno como fizeram incontáveis gerações antes de nós: com espanto.
A diferença é que podemos agora separar esse espanto do medo e da superstição. E talvez exista nisso outra pequena curiosidade histórica. Durante milénios, olhámos para os céus à procura de explicações para aquilo que acontecia na Terra. E, às vezes, aquilo que encontrávamos lá em cima eram apenas os nossos próprios preconceitos.
Quanto ao eclipse de 12 de agosto, podemos finalmente deixar uma coisa esclarecida: não foram os gays 🫣
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