
Hunter Schafer prepara-se para assumir o maior papel da sua carreira. A atriz interpreta Cora, uma fugitiva humana que se faz passar por uma replicante em Blade Runner 2099, nova série que estreia a 25 de novembro e que terá Michelle Yeoh como coprotagonista.
A revelação aconteceu durante a Comic-Con de San Diego, onde foi apresentado o primeiro teaser da série. As imagens mostram o regresso ao universo visual que tornou Blade Runner uma referência da ficção científica: uma Los Angeles distópica, envolta em néon, chuva e dilemas morais, agora situada cinquenta anos após os acontecimentos de Blade Runner 2049.
Na nova história, Michelle Yeoh interpreta Olwen, uma Blade Runner encarregada de localizar um grupo de replicantes desaparecidos. Ao seu lado está Cora, personagem de Hunter Schafer, uma humana em fuga que sobrevive escondendo a sua verdadeira identidade e fazendo-se passar por uma replicante.
Durante o painel da Comic-Con, Yeoh descreveu Schafer como “uma das pessoas mais destemidas” com quem já trabalhou. A atriz revelou ainda, em tom de brincadeira, que a colega sofreu uma concussão durante as filmagens de uma cena de ação e que lhe ofereceu um capacete infantil para as gravações seguintes.
Para Schafer, conhecida sobretudo por Euphoria, este representa um novo momento da carreira. Depois de participações em filmes como The Hunger Games: The Ballad of Songbirds & Snakes, Kinds of Kindness, Mother Mary ou da protagonização do thriller Cuckoo, Blade Runner 2099 coloca-a pela primeira vez no centro de uma grande produção internacional de ficção científica.
Mas a importância deste elenco vai além da dimensão do projeto.
Uma protagonista trans numa das maiores sagas de ficção científica
Apesar de, nos últimos anos, terem surgido mais personagens trans no cinema e na televisão, continua a ser relativamente raro ver uma atriz trans liderar uma produção desta escala, especialmente num género como a ficção científica de grande orçamento.
Blade Runner 2099 chega através da Prime Video e conta com uma produção de grande dimensão, destinada a uma audiência global. A escolha de Hunter Schafer para um dos papéis centrais representa, por isso, mais um passo na diversificação da representação em grandes franquias, sem que a sua identidade de género seja apresentada como a principal característica da personagem.
Num contexto em que pessoas trans continuam a enfrentar campanhas políticas e mediáticas que procuram limitar os seus direitos e a sua visibilidade, a presença de Schafer numa produção deste alcance adquire também um significado simbólico.
Uma saga que há décadas inspira leituras queer
A escolha de Hunter Schafer torna-se ainda mais interessante quando olhamos para a história da própria saga.
Desde a estreia de Blade Runner, em 1982, muitas pessoas académicas, críticas de cinema e fãs têm desenvolvido leituras queer da obra de Ridley Scott. Embora nunca tenha sido apresentada como uma alegoria LGBTQIA+, a história levanta questões sobre identidade, pertença e discriminação que têm permitido diferentes interpretações ao longo das últimas quatro décadas.
No universo de Blade Runner, replicantes são seres artificiais praticamente indistinguíveis das pessoas humanas. Apesar disso, são tratadas como inferiores, sujeitas a vigilância constante e perseguidas quando deixam de cumprir o papel que lhes foi atribuído.
Esta condição de “outsiders”, obrigadas muitas vezes a esconder quem são para sobreviver, levou várias pessoas a estabelecer paralelos com experiências vividas por comunidades marginalizadas, incluindo pessoas LGBTI+.
A própria narrativa questiona repetidamente quem tem autoridade para decidir quem merece ser reconhecido como plenamente humano. Essa reflexão sobre identidade, autenticidade e pertença continua a ser um dos elementos mais discutidos da saga.
Alguns ensaios publicados ao longo dos anos exploram precisamente estas leituras, analisando de que forma Blade Runner desafia normas sociais e convida a refletir sobre quem fica dentro — e fora — daquilo que uma sociedade considera aceitável.
Um novo capítulo para uma história sobre identidade
Ainda não se sabe até que ponto Blade Runner 2099 irá aprofundar estes temas. O primeiro teaser (acima) privilegia a ação, o suspense e a estética característica da saga, sem revelar muito sobre o desenvolvimento das personagens.
Ainda assim, é difícil ignorar o simbolismo de ver Hunter Schafer ocupar um lugar central numa franquia cuja história tem sido frequentemente interpretada como uma reflexão sobre identidade, diferença e humanidade.
Independentemente da direção que a série venha a seguir, Blade Runner 2099 representa um momento importante para a representação trans no entretenimento mainstream. E demonstra que uma das mais influentes sagas da ficção científica continua a encontrar novas formas de dialogar com as questões do presente, mais de quatro décadas depois da estreia do filme original.
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