
O primeiro-ministro dos Países Baixos, Rob Jetten, alertou para o crescimento do ódio contra pessoas LGBTQ+ e deixou uma mensagem que ultrapassa a própria comunidade: a discriminação torna-se mais perigosa quando quem não é diretamente atingido acredita que o problema não lhe diz respeito.
“É sempre assim que o ódio ganha terreno”, afirmou Rob Jetten na abertura da Human Rights Conference do WorldPride Amsterdam.
O primeiro primeiro-ministro assumidamente gay dos Países Baixos dedicou parte da sua intervenção à crescente visibilidade do discurso de ódio contra pessoas LGBTQ+, tanto nas redes sociais como no espaço público.
E deixou um alerta sobre a forma como esse ódio se instala nas sociedades.
“Primeiro nas sombras, fora dos holofotes da sociedade, subestimado por toda a gente, até se transformar num monstro de muitas cabeças”, afirmou.
Para Jetten, campanhas organizadas de ódio não surgem isoladamente. Encontram terreno para crescer quando a discriminação é relativizada ou encarada como um problema que afeta apenas outras pessoas.
“Não tem nada a ver comigo”
No centro da intervenção esteve precisamente essa ideia: perante a discriminação, pensar que “não tem nada a ver comigo” pode ajudar a criar as condições para a sua normalização.
O primeiro-ministro lembrou que qualquer pessoa pode tornar-se alvo de hostilidade devido à sua identidade, às suas convicções ou simplesmente às suas ações. A defesa das liberdades fundamentais não pode, por isso, ficar apenas nas mãos das comunidades diretamente atacadas.
“Proteger as liberdades é responsabilidade de todas as pessoas”, defendeu.
A mensagem ganha particular significado num momento em que os direitos LGBTQ+ enfrentam novos ataques em diferentes países e o discurso anti-LGBTQ+ ganhou maior espaço político e mediático.
A própria conferência reuniu centenas de ativistas, responsáveis políticos e especialistas de vários continentes para discutir direitos, saúde, cultura, liderança e os desafios atuais enfrentados pelas comunidades LGBTQIA+.
Mais 7,5 milhões de euros por ano para a segurança LGBTQ+
O discurso não ficou apenas pelos alertas. Jetten anunciou também novas medidas do Governo neerlandês para combater a discriminação e melhorar a segurança das pessoas LGBTQ+.
Entre elas está a criação de um diálogo nacional sobre discriminação online e novas orientações para municípios e organizações da sociedade civil responderem ao ódio nas plataformas digitais.
O Governo irá ainda disponibilizar 7,5 milhões de euros anuais durante os próximos três anos para reforçar a segurança das pessoas LGBTQ+ nos Países Baixos.
O problema não é distante do próprio primeiro-ministro. Em fevereiro, poucas semanas depois de assumir o cargo, Jetten revelou que apresenta queixas à polícia praticamente todas as semanas devido a ameaças e mensagens homofóbicas.
“Há dez anos que lido com um enorme ódio homofóbico. Escolhi não me esconder”, afirmou então.
Jetten explicou que continua deliberadamente a partilhar alguns momentos da sua vida pessoal nas redes sociais para mostrar que não pretende deixar-se silenciar pelo ódio.
Do primeiro casamento igualitário ao primeiro primeiro-ministro gay
A intervenção aconteceu num ano particularmente simbólico para os Países Baixos. A 1 de abril de 2001, o país tornou-se o primeiro do mundo a permitir o casamento entre pessoas do mesmo género. Vinte e cinco anos depois, é também governado, pela primeira vez, por um primeiro-ministro assumidamente gay.
Quando venceu as eleições em 2025, Jetten apresentou o resultado também como uma resposta política ao crescimento do populismo e da extrema-direita.
“Mostrámos não só aos Países Baixos, mas também ao mundo, que é possível derrotar os movimentos populistas e de extrema-direita”, afirmou na altura.
A chegada de Jetten ao cargo poderia, por isso, ser lida como mais um sinal do percurso neerlandês na igualdade LGBTQ+. O próprio primeiro-ministro parece agora querer contrariar uma conclusão demasiado confortável.
Direitos conquistados não tornam uma sociedade imune ao preconceito. E ser o primeiro país do mundo a reconhecer o casamento entre pessoas do mesmo género não significa que a igualdade esteja definitivamente garantida.
A experiência neerlandesa mostra precisamente essa tensão: é possível celebrar 25 anos de casamento igualitário e, simultaneamente, assistir ao crescimento do discurso de ódio contra pessoas LGBTQ+.
Talvez seja essa a parte mais importante da mensagem deixada por Rob Jetten no WorldPride. O ódio raramente começa como um “monstro de muitas cabeças”. Antes disso, pode surgir como uma piada tolerada, um insulto relativizado, uma campanha de desinformação ignorada ou uma discriminação que parece afetar apenas outras pessoas.
Até deixar de afetar apenas as outras pessoas.
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