Realizadoras de Black Mirror e Loki recusam Harry Potter: «Dizer não ao financiamento da transfobia»

Realizadoras de Black Mirror e Loki recusam Harry Potter: «Dizer não ao financiamento da transfobia»

Ally Pankiw, de Black Mirror, e Kate Herron, de Loki, recusaram trabalhar na nova série de Harry Potter. Para Pankiw, aceitar significaria contribuir para “financiar transfobia”.

A nova série de Harry Potter ainda não chegou aos ecrãs, mas a polémica em torno do envolvimento de J.K. Rowling continua a acompanhar a produção. Desta vez, duas realizadoras revelaram ter recusado oportunidades para trabalhar no projeto devido às posições e ao ativismo anti-trans da autora.

Ally Pankiw, realizadora que trabalhou em séries como Black Mirror e The Great e foi argumentista de Schitt’s Creek, partilhou no Instagram uma troca de mensagens com uma pessoa da sua representação profissional.

Tenho um palpite sobre a resposta, mas sinto que tenho de perguntar: ‘Harry Potter? Um não absoluto?’”, lia-se na mensagem.

A resposta de Pankiw não deixou grande margem para dúvidas: “Absolutamente nem pensar!”. Depois, explicou publicamente a razão para a recusa: “É assim tão simples dizer não ao financiamento da transfobia!“.

Kate Herron já disse não duas vezes

Pankiw não está sozinha. Kate Herron, realizadora e produtora executiva da primeira temporada de Loki, que também trabalhou em Sex Education e The Last of Us, respondeu à publicação revelando que também foi abordada para trabalhar na série. E não apenas uma vez.

Perguntaram-me duas vezes e tive de explicar que a minha resposta nunca vai deixar de ser não”, escreveu Herron.

As recusas colocam novamente no centro do debate a questão: é possível separar Harry Potter de J.K. Rowling quando a autora continua diretamente envolvida e financeiramente ligada à franquia?

No caso da nova adaptação da HBO, essa ligação é particularmente clara quando Rowling é produtora executiva da série.

Quando dizer “não” também é uma escolha política

Ao contrário de uma discussão abstrata sobre gostar ou não de uma obra criada há décadas, Pankiw e Herron enfrentaram uma escolha profissional concreta.

Aceitar significaria trabalhar numa das maiores produções televisivas da atualidade. Recusar significa abdicar dessa oportunidade por considerarem que a participação contribuiria para um projeto que continua a beneficiar Rowling.

Pankiw foi ainda mais longe ao explicar posteriormente a sua posição. A realizadora defendeu que, quanto mais artistas com poder dentro da indústria recusarem trabalhar para empresas cujas decisões prejudicam comunidades marginalizadas, maior será a pressão económica para reconsiderar esses investimentos.

É precisamente aqui que a discussão sobre Harry Potter mudou nos últimos anos.

Rowling já não se limita a publicar opiniões sobre pessoas trans. A autora transformou parte da sua influência e fortuna numa intervenção política organizada.

Em 2025, criou o J.K. Rowling Women’s Fund, destinado a financiar processos relacionados com os chamados “direitos baseados no sexo. Antes disso, financiara também a organização For Women Scotland, protagonista da batalha judicial que terminou com uma decisão do Supremo Tribunal britânico que excluiu mulheres trans da definição de “mulher” para determinados efeitos do Equality Act.

Por isso, quando Pankiw fala em “financiar transfobia”, está a estabelecer uma ligação entre o sucesso económico da franquia, a fortuna de Rowling e o ativismo político que a autora financia.

Participar e discordar ou simplesmente não participar?

A controvérsia está também a produzir respostas diferentes entre quem aceitou trabalhar na série. Bel Powley, que interpretará Petunia Dursley, afirmou recentemente discordar “fortemente” das posições de Rowling sobre género. “Acho que a comunidade trans merece segurança, dignidade, respeito e aceitação total“, declarou a atriz.

Outros nomes associados à produção também se distanciaram anteriormente das posições da autora.

Pankiw e Herron escolheram uma estratégia diferente: não entrar no projeto.

A diferença é relevante porque expõe um dos dilemas que acompanha a nova adaptação desde o seu anúncio. É possível trabalhar em Harry Potter, condenar as posições de Rowling e considerar que as duas decisões são independentes? Ou a ligação financeira entre a autora e a franquia torna essa separação impossível?

Não existe uma resposta única para todas as pessoas envolvidas. Mas as recusas mostram que, dentro da própria indústria, há profissionais para quem essa fronteira já foi ultrapassada.

Hogwarts continua a encher-se

Apesar das recusas, a HBO continua a reunir um elenco de peso para a adaptação. John Lithgow interpretará Dumbledore, Janet McTeer será a professora McGonagall, Paapa Essiedu dará vida a Snape e Nick Frost será Hagrid. Nicholas Hoult foi entretanto confirmado como Gilderoy Lockhart.

A estreia está prevista para o Natal de 2026, na HBO e HBO Max. Rowling mantém-se entre as pessoas responsáveis pela produção executiva.

Mas as recusas de Ally Pankiw e Kate Herron acrescentam uma nova dimensão à pergunta que acompanha Harry Potter: já não se trata apenas de saber se quem vê a série consegue separar a obra da artista.

Para algumas das pessoas convidadas a criá-la, a questão surge antes sequer de as câmaras começarem a filmar. E a resposta, pelo menos para Pankiw e Herron, foi simplesmente: não.


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