A (Perigosa e Falaciosa) Pesquisa do “Gene Gay”

De quando em quando surgem estudos que catalisam o eterno debate da existência do gene gay, um marcador com propósito indefinido que irá identificar inequivocamente a orientação sexual de cada ser humano no planeta. Na passada semana, no site noticioso da prestigiada revista Nature era questionado se tal gene, ou neste caso, conjunto de genes, teria sido encontrado. O estudo foi apresentado numa conferência nos Estados Unidos pelo geneticista Tuck Gun, que afirmava ter encontrado uma série de marcadores epigenéticos – modificações presentes no ADN que podem influenciar a expressão de genes específicos – associados à homossexualidade em homens. A imprensa deixou-se encantar pela força da manchete e a controvérsia instaurou-se.

Mas a polémica surgiu primariamente da comunidade científica que depressa tratou de invalidar a veracidade do estudo, apresentado sem qualquer revisão isenta de interesses. A realidade é que o mesmo, que tinha em conta 37 pares de gémeos idênticos com sexualidade discordante e 10 pares em que ambos os gémeos eram gay, não tem qualquer força estatística. A amostragem é demasiado baixa por si só e foi ainda assim dividida para acomodar o modelo escolhido, que não teve qualquer correcção estatística posterior. Entretanto a Nature encerrou a ambiguidade do seu anúncio, corrigindo-o enquanto rebatia também a validade do estudo.

Se uma agência noticiosa séria como a Nature News pode ter este tipo de ‘enganos’, é assustador pensar no que acontece noutros jornais, sites ou blogs, mais interessados no número de visualizações que na verdade por detrás do que publicam. A realidade é que é muito difícil derrotar uma opinião infundada ou subvertida por factos deturpados. É mais fácil ignorar que um estudo como estes, apresentado numa conferência e não numa publicação revista por outros cientistas da área e o mais imparcialmente possível, não tem qualquer relevância e falha em controlos estatísticos cruciais.

Numa nota mais pessoal e também na minha posição de investigador na área de Biologia Molecular, sei o quão inglório e desmotivador é tentar convencer o público em geral com factos científicos atestados e validados quando as ideias contraditórias estão tão enraizadas e disseminadas com base no que leram ou ouviram algures. Por isso não me admira que vá continuar a encontrar pela Internet comentários de que de facto foi encontrado o mítico gene gay.

Será que a questão não deveria passar de “existe um gene gay?” para “por que se continua a procurar o gene gay?”. O dinheiro alocado em projectos de premissas duvidosas deveria ser redireccionado para investigação bem mais valorosa que ajudasse a resolver verdadeiros problemas com que a Humanidade se debate. Já para não mencionar a lamentável isenção de código ético e moral por detrás destes estudos. Não só porque a orientação sexual não PODE ser definida por um conjunto de marcadores genéticos ignorando o ambiente nos quais eles se encontram inseridos e que pode modificar totalmente a sua expressão e função finais. Mas, especialmente, porque a orientação sexual não DEVE ser definida por um conjunto de marcadores genéticos que podem derradeiramente dar origem a uma aterradora vaga de branqueamento genético em sociedades mais ignorantes e intolerantes. Como seres humanos temos de aprender com os nossos erros e esse inevitável genocídio já foi cometido inúmeras vezes.

Fontes: 1, 2, 3

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