Texto: De Profundis.

O coração palpita a galope, a minha boca seca, a garganta aperta.

Responde-me! És ou não és?” Gritou a minha mãe pelo Skype.

Sou…

O tempo parou, ela parou, eu parei… O meu coração parou por segundos, tinha acontecido, tinha chegado o dia. O dia em que saí do armário aos meus pais. Lágrimas escorreram-lhe pela face, numa voz trémula e sem forças saiu-lhe uma afirmação como se fosse o seu último suspiro.

Eu criei-te para seres normal, fiz tudo por ti.

O que é ser normal? Será ser normal manter-me escondido, manter-me no armário, sofrer para eles serem felizes… Sofrer para eles serem felizes.

Não suportava mais este peso que carregava, a vergonha, os nomes, as ameaças…

Paneleiro, aberração, freak, porco, pegas de empurrão… pedras, setas, lanças, espadas que percorreram o meu corpo durante 25 anos. Sequelas que nunca irei superar, ou, demorarei anos a cicatrizar.

Para ser aquilo que vocês queriam abdiquei da minha personalidade, da minha sanidade, da minha auto-estima, e acima de tudo, da minha felicidade.

Ouvir o meu pai dizer: “Prefiro morrer a ter um filho paneleiro” ou “Eu eduquei-te para seres normal.

Não me magoou, pois já tinha sofrido bem pior.

Quando aos nove anos o padre da minha paróquia, me confessou pela altura da primeira comunhão, me agrediu por lhe ter confessado sentir por rapazes aquilo que se devia sentir por meninas.

Penitência? Uma tarde fria de joelhos numa igreja escura a rezar pais nossos e avé-marias.

Faz-me normal! Faz-me normal! Por favor faz-me normal, pelos meus pais…!

Ou talvez quando era gozado pela minha própria família quando queria brincar com bonecas, porque simplesmente eram mais bonitas e interessantes do que carros ou andar a correr atrás de uma bola feito cão.

É isto ser normal? É? É? RESPONDAM-ME!

Ou quando me apanharam no colégio a beijar um rapaz – tinha 7/8 anos – e a diretora me açoitou pois queria me salvar do inferno e trazer-me de volta à família de Deus? É isto ser normal? E se Deus tem tantos problemas com homossexuais, qual é a lógica dele em destinar uma pessoa a sê-lo? Afinal o destino não se pode mudar.

Ao fim disto tudo duas frases não me magoaram, ou melhor, magoaram mas não tanto como deviam.

Chamo a este texto, a minha confissão de Des Profundis, tal como a carta que Oscar Wilde escreveu da prisão enquanto cumpria pena por simplesmente amar outro homem. E tal como ele fez com a sua carta, eu recupero a minha honra com esta. Decidi sair do armário e escrever esta carta quando terminei o monólogo da Gisberta, de uma forma foi o meu grito de Ipiranga, a minha tomada da Bastilha.

O que sou eu?

Homossexual

Quem sou eu?

Carlos

O meu nome é Carlos, tenho 25 anos e sou homossexual.

Bem haja.

Fonte: Camille Hannibal Damage (fotografia)

Advertisements