A tensão, atenção

Talvez não tivesse sido boa ideia ter visto O jogo da imitação, o filme de Morten Tyldum sobre Alan Turing, no dia dos atentados de Bruxelas. Este filme, estreado há mais de um ano em Portugal com oito nomeações para os Óscares (venceu na categoria de Melhor Argumento Adaptado), conta a história do homem que basicamente inventou o computador para descodificar o sistema de encriptação dos nazis. O filme segue o matemático genial no seu esforço para vencer Enigma (o nome do sistema alemão) mas também para se adaptar socialmente.

[nota: a partir daqui, o texto contém spoilers mas o filme também já é de 2015 – já tod@s devem ter visto]

Homossexual e socialmente desadequado, Turing vive numa época em que a homossexualidade é crime punível com prisão. É por isso forçado a manter-se bem fechado no armário ocultando a sua sexualidade. O filme não se concentra nisso, mas acaba por ser muito sobre isso. À máquina que cria dá o nome de Christopher, o seu primeiro amor de adolescência que morre prematuramente, é chantageado por um espião à conta da sua homossexualidade e o seu fim de vida é marcado pelo embate da realidade homofóbica da sociedade britânica da altura – sim, é um filme sobre isso.

Em 1951, anos depois da guerra ter terminado graças também ao contributo de Turing, este é apanhado em “atos homossexuais” e, por isso, condenado a castração química (para evitar a prisão). Acaba por se suicidar um ano depois de ter iniciado esse tratamento hormonal.

[parte com menos spoilers]

A história é chocante não apenas por aquilo que acontece a Turing, mas também por aquilo que Turing faz (monstro, máquina ou humano?).

São aqueles que chamámos de aliados que destroem a vida de um homem, baseando-se exclusivamente no preconceito e na perseguição do diferente. São aqueles pelos quais damos vivas por terem ganho a Segunda Guerra Mundial que condenaram 49000 homossexuais à castração química. São também esses, incluindo Turing, que banalizam o mal e decidem qual a melhor estatística para a morte.

É neste domínio que entra a questão dos atentados de Bruxelas e o timing (in)oportuno do meu visionamento deste filme. Há um bem e um mal, acredito – mas não há bons nem maus. Somos provavelmente todos maus e a nossa civilização, mesmo quando combatia supostamente o maior dos monstros (Hitler, apenas um de nós), conseguia cometer outro tipo de perseguição, violência e tortura – neste caso, no Reino Unido contra homossexuais. Não há um espelho em que esses aliados possam ver-se por aquilo que são e que têm – o mal? Aqui, hoje, depois dos atentados de Bruxelas e sabendo que provavelmente vêm outros, a nossa civilização está em causa sim. Está em causa sobretudo por aquilo que fizer hoje e a seguir. Pela forma como se vir ao espelho e se entender também ela na sua podridão. Porque esta é a civilização que criou Hitler, que também criou Turing, que alimentou e tolerou a perseguição a judeus, mas também a homossexuais. Mesmo em planos opostos, cometeu o mal. E continua a cometê-lo.

Quem são afinal “os bons”, perguntamos nós? É fácil entrar no maniqueísmo básico. Respondemos que são @s que caem inocentes, mas então temos de lembrar-nos de tod@s. D@s judeus/judias perseguid@s por nazis, d@s homossexuais perseguid@s pelo Reino Unido, d@s europeus/europeias de Paris e Bruxelas, mas também d@s refugiad@s síri@s caíd@s no mar, pres@s em campos na Turquia e d@s que são assassinad@s no seu país.

Turing era um homem brilhante que, segundo o filme, era um pouco cego ao bem e ao mal, mas contribuiu para derrotar no final os nazis. Era também homossexual e foi alvo de perseguição, tendo morrido por isso.

A nossa civilização está em causa, sim. Sempre esteve na verdade. E a única civilização que vale a pena proteger é a desse ideal de bem que talvez, talvez, consigamos encontrar dentro de nós e sobretudo teremos de arranjar maneira de encontrar nos nossos atos.

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