De Almodóvar a Dolan: Les enfants terribles que contam a minha vida

Uma semana passou e Cannes 2016 ainda provoca conversa na blogosfera, desde a desilusão sobre o facto de muito poucas mulheres terem vencido – ao contrário do que se esperava – a atribuição do prémio de melhor atriz a Jaclyn Jose, tendo em conta que o seu tempo de cena é cerca de 20 a 25 minutos ou o quão divisivo é o novo filme de Xavier Dolan, que acabou por vencer “Le Grand Prix”.

Eu sou um grande fã de Xavier Dolan, adoro todos os seus filmes e inicialmente o draft deste texto era eu a ser fanboy durante 2000 palavras, mas, com o final de Cannes decidi deitar esse draft para o lixo e começar de novo, tentar contextualizar Dolan.

Ao rever uma entrevista de 2009/2010, o tema Almodóvar vem ao de cima, com o entrevistador a comparar Dolan ao famoso realizador espanhol e com Xavier a informar que só viu uns dois filmes do mesmo e que nunca o considerou uma influência.

O facto é, Almodóvar e Dolan têm bastantes semelhanças e bastantes discrepâncias entre si, Dolan vem de uma classe média-alta, cresceu numa metrópole e num país liberal – o pai é um cantor famoso no Quebec – Almodóvar por sua vez vem de uma família pobre, rural e cresceu em plena ditadura franquista. Ambos não podiam ser mais diferentes, mas no entanto, partilham semelhanças; ambos foram para colégios internos católicos na adolescência – Xavier por motivos de comportamentos, Almodóvar com o destino de ser padre- ambos filmes têm a temática gay, feminina ou ambas; os dois usam e abusam de música pop, filmes de cores saturadas e por fim, vários filmes, tanto de Almodóvar, como de Dolan, roçam no camp kistch de bom gosto. Posso até dizer que Dolan é o percursor de Almodóvar, o último teve o seu início no movimento artístico chamado de “La Movida Madrilenã”, que surgiu na capital espanhola após a morte de Franco, em 1975. Almodóvar lidou com temas estes temas através de uma série de filmes de humor negro e melodramas que acabam por se espelhar em todo o catálogo de Dolan, o que é ser gay, o que é ser mulher.

A “mãe” em Jai Tue Ma Mere é neurótica, kistch – como o próprio Dolan a descreve – cómica, conflituosa e ternurenta em segredo, a personagem em si não estaria fora do ambiente em Mujeres Al Borde De Un Ataque De Nervios ou no All About My Mother. La Mala Educación e All About My Mother, em especial o primeiro, são semi- autobiográficos, tal como Jai Tue Ma Mere.

Até recentemente Dolan nunca tinha lidado com a temática da SIDA, talvez por não fazer parte da sua experiência de vida, vários amigos de Almodóvar por sua vez morreram devido a ela nos anos 80, mas o seu filme mais recente, o “divisivo” Juste La Fin Du Monde – baseado na peça com o mesmo nome – lida com esse tema, não é explicito, mas o subtexto está lá.

Enfim, apesar das suas semelhanças, ambos são diferentes, ambos lidam com os mesmos temas mas por perspectivas diferentes com backgrounds diferentes, com identidades diferentes.

Muitos consideram Dolan um diretor pretensioso, arrogante e narcisista – o Hollywood Times, a crítica norte-americana parece ter isso em acordo – o que já lhe rendeu alguns problemas, mas sejamos honestos – e peço já desculpa pela linguagem que se segue, num mundo que nos atira com tanta “merda” por sermos aquilo que somos, não será fácil o nosso trabalho ser autobiográfico? Dolan é ator principal em 3 dos seus seis filmes – Jai Tue Ma Mere, Les Amours Imaginaires e Tom À La Ferme – ok, consigo ver o ângulo do narcisismo, mas se calhar é porque se identifica, quiçá até seja biográfico?

Já estabelecemos que Jai Tue Ma Mere é autobiográfico, na realidade o próprio confirma que quando escreveu o guião só ele poderia fazer o papel, uma vez que é a sua vida – menos um ponto na teoria de narcisismo – Les Amours Imaginaires junta basicamente a mesma equipa e não surpreenderia que também não fosse autobiográfico e Tom À La Ferme, bem, é baseado numa peça e Dolan é um actor em primeiro lugar. Dos outros três, Dolan faz uma cameo em Laurence Anyways e pouco mais. Se ser o actor principal ou fazer cameos em seus filmes é algo para ser castiçado, então aguardo pela cabeça de Woody Allen e Hitchcock numa bandeja de prata, se faz favor. Ou talvez, as acusações de narcisismo se devam ao facto de Dolan ter apenas 27 anos e já ter dois prémios de Cannes debaixo de braço, ter recebido uma standing ovation de 8 minutos, no mesmo festival, com apenas 19 anos?

As críticas do seu último filme parece ter sido baseado nisso, pelo menos por parte dos críticos norte-americanos, após Mommy, nada do que Dolan realizasse iria ser bem recebido. No entanto, os críticos europeus – nomeadamente a imprensa francesa e inglesa – estão rendidos a rapaz de 27 anos, self taught e que financiou os seus próprios filmes.

Ambos realizadores têm um lugar especial na minha vida, em especial Jai Tue Ma Mere de Xavier Dolan, eu falo e menciono tanto este filme pelo simples facto de que espelha a minha vida de certa forma, a minha relação com os meus pais, em concreto a relação com a minha mãe. A nossa relação é inexistente, tensa e que por norma termina em gritos e insultos, insultos que saem da boca de Hubert, já saíram da minha. Não se trata que odeio a minha mãe, mas sim de que o filme é a perfeita representação do fosso que existe entre nós. Numa das minhas cenas favoritas, na paragem de autocarros quando Hubert é enviado para o colégio privado, o diálogo é o seguinte:

Hubert: Que farias se morresse hoje?

Chantale: Morreria amanhã.

O fosso entre eles é enorme, pois Chantale apenas responde à pergunta após Hubert abandonar o local, da mesma forma que o fosso entre mim e a minha mãe é enorme. Talvez mais tarde, Jai Tue Ma Mere deixe de ser o meu filme favorito de Dolan e um dos filmes no meu top 5 dos meus favoritos de sempre, e passe a ser Mommy, que o realizador afirma, “Jai Tue Ma Mere é para castigar a minha mãe, Mommy é para vingar a minha mãe”, talvez um dia consiga deixar de castigar a minha mãe pela sua ignorância e ódio e a passe a amar incondicionalmente, mas isso, é um texto para outro dia.

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