Apps. Apps everywhere!

Venho aqui escrever-vos, em jeito de rebeldia, sobre algo que acompanha grande parte do nosso dia-a-dia e, num esforço imenso e árduo, assumir a posição de advogado do diabo no que toca às famosas e tão utilizadas aplicações de engate, sim essas: Tinder ®, Grindr ®, OkCupid ®, Dattch ®, Hornet ®, u2nite ®, Hinge ®, Bumble ® and go on (perdoem-me a ignorância, mas nem eu sabia da existência de tão grande número até hoje!)

Para deixar claro e transparente, pessoalmente, não tenho nada contra a (não) utilização das mesmas, não sendo eu capaz, muito menos merecedor, de criar juízos de valor relativamente às mesmas; até porque do ponto de vista tecnológico foi mais um passo em frente.

Posição 1: A positiva

Será que os nossos avós, enquanto namoravam entre varandas e palheiros, imaginaram ser possível existir algo capaz de cruzar caraterísticas individuais: físicas, preferências, hobbies, … entre pessoas e conectá-las dada a compatibilidade, ou não, das mesmas?

De facto, são um (re)pisar a Lua pela primeira vez quando introduzidas na realidade que são os contactos interpessoais na nossa sociedade. E, quando em comparação (atrevo-me a dizer), pode chegar a ser mais seguro do que os blind ou speed dates – estamos nos nossos lares ou no café de sempre a tomar a bica e a utilizar um telemóvel (que só é perigoso se explodir ou então se nós próprios o tornarmos perigoso) – que pode correr mal?

Apps, como as mencionadas, abriram uma porta para o cruzamento seguro de pessoas. Capazes de entrar em contacto com um inteir@ desconhecid@ que em horas/dias/meses (dependendo, claro está, do limiar individual) pode passar a ser alguém presente nas nossas vidas: um conhecid@, um amig@, um companheir@, alguém com quem partilhar experiências passadas ou presentes, quiçá futuras.

Abrem também portas para o desconhecido. As circunstâncias e vivências de quem está do outro lado podem ser bem diferentes das tuas; as opiniões e pontos de vista de alguém do qual viste “meia dúzia” de fotos, soubeste “meia dúzia” de histórias, que não conheces (ainda) mas que já reconheces; novos meios físicos e sociais por descobrir…

E, hipocrisias à parte, pode bem ser a solução para alguns dos nossos problemas. A monotonia da rotina. O apoderamento do sentimento de solidão. O sentimento de equiparação (ou comparação). O resolver de necessidades basicamente fisiológicas. A possível solução para um casal que procura, digamos, aprimorar a sua relação (por que não?).

Por fim, neste nosso mundo, às vezes pequeno de mais, e sendo o nosso número apenas de 1-15% (mais coisa menos coisa, mas é de acordo com estudos populacionais, que valem o que valem!) numa imensidão hétero de mais de 85% das pessoas, tornou bem mais fácil o contacto entre Nós (felizmente). E neste ponto, e sendo bem sinceros para connosco próprios, é de tirar o chapéu à evolução porque é graças a ela que estas apps (tal como os vossos telefones, este blog,…) nos põem em contacto e a lutar por quem somos!

E, claro está, não poderia deixar escapar a oportunidade de partilhar que é possível… Sim! É mesmo possível encontrarmos aquela pessoa, por quem tanto ansiamos. É mesmo possível correr bem! Pelo menos para alguns! Ou pelo menos esporadicamente, ou durante uns tempos… ou quem sabe por uma vida!

Posição 2: A negativa

Qualquer novidade: seja ela uma app, um restaurante, uma moda, o Instagram – já aqui falado – até o Pokemon Go® quando utilizadas de forma impulsiva e desmensurada podem trazer chatices. Então em apps das que falamos aqui, ui!

Comecemos pela distorção existente entre “aplicação que facilita o contacto entre…” e “aplicação que se torna recurso essencial para…”. Com a entrada no mundo LGBTI deparei-me com uma realidade um pouco diferente da que idealizava (se é que idealizava alguma) e, anteriormente, tinha vivenciado. Há muitas décadas que deixamos de escrever cartas de amor e, já há alguns anos, que a força da circunstância e as coincidências se evaporaram. Deixamos de enamorar. Deixamos de namorar. No mundo (ao qual chamo de) hétero ainda é possível ver isso: coincidências, encontros e desencontros não planeados, conversas que estão bem longe do típico: – Oi! Idade? Que procuras? Vives sozinho? Podes hoje? – Ou serei eu que estou enganado? Ou serão as percentagens bem menores que levam a probabilidades mais pequenas?

Sendo sincero e voando também para fora desta temática: o “romantismo” é em algo semelhante aos preliminares: Quanto mais te aplicares melhor o resultado final! E é fácil perde-lo neste momento de ecrãs e mensagens rápidas…

Mas tanto o romantismo como, em alguns casos, os preliminares estão a cair em desuso. E nesta situação, culpados? Nem vê-los. Ou talvez sejamos cada um de nós! A sociedade deu-nos aquela injecçãozinha chamada de “Cultura do facilitismo” onde tudo é fácil: “conhecer” é fácil, f*der ainda mais, comer é em qualquer lado e chega para todos, nunca é demais!

E é esse mesmo facilitismo que nos leva às crises dos 20, 30, 40 anos. As crises identitárias de quem não reconhece aquilo em que se tornou – Sim! Foste direcionado e bem influenciado por propagandas, modas e publicidades. E a “cultura do agora” dá a sua ajudinha. Não há nada melhor do que ocupar o nosso dia em busca do prazer gratuito e diversificado – é quase animalesco eu sei, mas culpem a evolução que deixou alguns instintos prevalecerem no tempo. Contudo, o “agora” não garante que o “depois” não faça das suas – arrependimento, frustração, solidão…

Sim, solidão! Porque a solução mais rápida nem sempre é a ideal, muito menos intemporal. Os nossos problemas podem até ser atenuados com a busca incessante por mais um perfil no Grindr ®. Mas quantos de nós aprenderão, durante aquele novo date, algo efetivamente útil para os resolver?

Da segurança, envolvida na sua utilização, julgo não precisar de enumerar as histórias de perfis falsos, utilização de fotos de outras pessoas e os lobos mascarados de cordeiros que fazem questão de ser uma constante.

Por fim: A cultura do sexo! Eu gosto, tu gostas, Freud gostava! Mas questiono-te: “Comes, às refeições, sempre o mesmo prato só porque o adoras?” Desejo. Líbido. T*são. Meios que justificam o fim? Qualquer fim? Ah! E dentro desta cultura não esqueçamos aqueles que a vivem intensa e arduamente com “terceiros” (quem diz terceiros, diz quarto ou quinto), quando em casa o segund@ que deveria, juntamente contigo, fazer um só, é facilmente trocad@, temporariamente esquecid@ e ridiculamente traíd@ (assumindo a monogamia como estereotipo, claro está). E aqui, para percebermos o impacto das apps nesta problemática deixo-te uma dica: Faz um censo, pessoal e rápido, com aqueles que te rodeiam. No final és capaz de perceber parte da gravidade inerente a uma app de engate que, com o intuito de unir pessoas, acaba por destruir mais relações do que as que cria.

Contudo, tudo isto vale o que vale. Representa, apenas, uma panóplia de situações quotidianas. Algumas delas que se contrariam, mas onde nenhuma acaba por ser anulada, nem esquecida, nem sequer deixada por viver. Mais importante é a reflexão sobre o que tu, enquanto detentor de um “EU” inigualável e incomparável, sentes relativamente a tudo isto. Onde te queres colocar na sociedade (real e virtual). E tudo isto, todas estas dicotomias e contradições aplicam-se, feliz ou infelizmente, não só às apps mas a tudo aquilo em que És… sendo Tu mesmo.

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