Políticos Gays: Confusões De João Miguel Tavares

Depois de Sócrates, João Miguel Tavares volta hoje ao seu segundo tema-fetiche: os gays. Após vários textos sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo e as dádivas de sangue – que abordámos aqui – hoje a perspectiva debate-se sobre a ausência de políticos assumidamente gay em Portugal. Com a desculpa do lançamento do livro do Arquitecto-Jornalista-Asco José António Saraiva, começa por espalhar a sua ignorância ao escrever que “revelar as preferências sexuais de quem quer que seja compete exclusivamente ao próprio“. Mas afinal estamos a falar de orientação sexual de uma pessoa ou de suas preferências sexuais?

 

A orientação sexual – seja ela qual for – é uma questão de identidade pessoal, como tal não está relacionada com a vida privada de uma pessoa. Por outro lado, preferência sexual é um detalhe absolutamente íntimo, sim, mas há que não misturar os termos. Eu sei – ou presumo, pelas afirmações de heterossexualidade que faz ao sair com a sua esposa, por exemplo – que o João é heterossexual, mas não sei – nem tenho que saber – quais as suas preferências sexuais. O que faz ou fazem na cama é com ele e ela e, ao contrário da heterossexualidade, não define a sua identidade. E, no entanto, toda a gente sabe – ou presume – a sua orientação sexual. Há, portanto, que não misturar os conceitos. Mas continuemos…

 

João Miguel Tavares prossegue ao escrever que alguém pode “ser gay e estar contra o casamento de homossexuais, ou ser gay e estar contra a adopção de crianças por casais homossexuais“, rematando que nada obriga um gay a ter de lutar pelos chamados direitos dos gays“. Especialmente quando falamos em cargos políticos, não lutar pelos direitos de outrem é o mesmo que opor-se aos mesmos. Vamos, portanto, rescrever este raciocínio: “estar contra o direito das mulheres não é machista“; ou “estar contra o casamento interracial não é racista“. Pois…

 

O cronista assume que existem dois nomes de políticos assumidamente gay, Miguel Vale de AlmeidaAlexandre Quintanilha, ambos eleitos por listas do PS, mas este considera-os “gays que decidiram ser políticos, e não políticos gays” e que, de resto, “o vazio é total“. Levanta então a questão: “mas alguém tem de ser obrigado a declarar se é homossexual, heterossexual ou bissexual?“, que responde com um claro “não“. E, no entanto, e como referi acima, o João declara-se heterossexual sempre que expõe publicamente a sua família. Mas importa igualmente aqui questionar a origem da lógica do armário. É inegável que “nenhum político revelou até hoje a sua homossexualidade porque ele acha que isso vai afectar a sua vida pública“, esta será ainda consequência de um país que evoluiu rapidamente – e bem – ao nível das leis que defendem e protegem a população LGBT. Ou seja, a nível social não tivemos ainda tempo de acompanhar uma das leis mais progressistas do mundo e isso reflecte-se na resistência interiorizada na saída do armário de todas as pessoas LGBT, políticos (e políticas!) incluíd@s.

 

João Miguel Tavares conclui que “sair do armário continua a ser um passo difícil de dar em Portugal” e é difícil discordar com a afirmação, mas é igualmente difícil entender que alguém a diga quando se é promotor de preconceitos que dão continuidade a esse estigma. É que não basta que a população LGBT se assuma orgulhosamente, a restante população deve fazer a sua parte e abraçar estas pessoas, livre de preconceitos. E isso é algo que o cronista, apesar de tudo o que escreveu hoje acertadamente, mancha com toda a sua restante ignorância, preconceito e homofobia. Porque a proximidade é necessária de ambos os lados, para que a distância no eles, elas e nós, por fim, cesse.

 

Fontes: Público e Revista Estante (imagem).

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