Psicologicamente, João Miguel Tavares

O João Miguel Tavares (JMT), um cronista que tem vindo nos últimos anos a ganhar espaço na comunicação social, é já bem conhecido deste espaço. Não são raras as vezes que trata um dos seus temas prediletos: a homossexualidade. E neles costuma espalhar-se ao comprido, uma e outra vez. Esta semana, depois de um artigo em que defende as declarações da Psicóloga Maria José Vilaça (MJV), viu-se confrontado com uma resposta directa e frontal da Jornalista Fernanda Câncio. Nela, Câncio trucida por completo a argumentação de JMT e conclui por que a conduta de MJV é indefensável:

Porque está errado. Porque é maldoso. Porque destrói vidas. Não está em causa calar Maria José Vilaça: pode subir a púlpitos, escrever artigos, dar entrevistas, ir à TV pregar a sua visão do mundo e dos homossexuais. Mas não como psicóloga. Porque isso, sim, é uma total anormalidade.”

Já no novo artigo de resposta, JMT tenta contrapor a Jornalista afirmando que “há uma diferença radical entre dizer coisas e fazer coisas. Não é o mesmo dizer “eu parto-te a cara” e partir efectivamente a cara a alguém.” Existe, de facto, uma diferença entre o dizer e o fazer, mas isso não significa que o dizer não seja, por si só, também fazer. A palavra é, precisamente, a ferramenta do fazer de uma Psicóloga. E quando MJV fala também faz. E quando MJV fala como profissional clínica e tem o discurso que levou a própria Ordem dos Psicólogos Portugueses a considerá-lo “de extrema gravidade” está a trair o código deontológico da sua área profissional. Este e outros códigos de conduta não servem para silenciar as pessoas, porque não é uma questão de liberdade de expressão, mas sim para que, neste caso, as opiniões pessoais dos e das profissionais de saúde, não influenciem o seu diagnóstico e tratamento clínicos.

JMT prossegue então afirmando que “a teoria genética comporta um paradoxo darwiniano de difícil resolução”, afinal, questiona-se, “como é que o “gene gay” persiste ao longo de milénios se os indivíduos que o possuem não se conseguem reproduzir?” O comentador mostra nestas palavras uma ignorância tão profunda sobre o que escreve que é difícil acreditar que não haja uma visão retorcida pelo preconceito para justificar tais afirmações. JMT, para além de suportar a sua argumentação com perigosas pseudoteorias genéticas, não compreende – ou finge não compreender – que as pessoas LGB não são necessariamente inférteis, muitas delas inclusive reproduzem-se e – imagine-se! – têm filhos e filhas. Ou adoptam e contribuem assim para a melhoria da saúde emocional, afectiva e social das crianças, ou seja, de toda a sociedade. É talvez por esta falta de noção global que JMT não entende que as pessoas LGBTI não são um fardo para a continuidade da espécie (se preferir utilizar conceitos biológicos), porque esta não passa forçosa e exclusivamente pela reprodução. O efeito de entreajuda é um factor igualmente importante para o sucesso do ser humano, como pessoa, como comunidade e, no termos mais geral, como espécie.

O cronista parece igualmente padecer do mesmo problema de quem escreveu o artigo original que despoletou toda a controvérsia: mistura o conceito de identidade de género com orientação sexual, não entendendo que, embora partilhem uma discussão e uma luta, não devem ser confundidos. “Como é que eu compatibilizo a afirmação de que escolho (ou me impõem) a minha identidade de género, mas não escolho a minha sexualidade?” Ao confundir, mais uma vez, a sexualidade de uma pessoa com a sua orientação sexual, JMT abusa da linguagem para fazer passar a sua ideia. Mais, a identidade de género, tal como o nome indica, relaciona-se com a forma como a pessoa se identifica perante si e perante a sociedade; a orientação sexual, por seu lado, relaciona-se com a atração que a pessoa sente perante outrem (e, já agora, a sexualidade que JMT mencionou relaciona-se com o que a pessoa realiza em concreto, independentemente da sua identidade de género e orientação sexual).

Seria justo pensar-se que um cronista com o alcance que JMT tem (o seu artigo já se encontra nos mais lidos do jornal e o anterior alcançou o topo da tabela) teria o cuidado de estudar sobre os assuntos que trata e, em vez de se apoiar em preconceitos e em desinformação refutada unanimemente há décadas pela comunidade científica, escrever de forma informada. Porque esta não é apenas uma questão de discórdia, ao questionar a onda de indignação que levou à abertura do inquérito sobre as declarações da Psicóloga e, ao lançar o chavão da liberdade de expressão, está a validar todas as vozes que vêem no discurso de ódio e de preconceito algo digno de aprovação. Pior, o cronista defende assim duas psicólogas que podem não matar, mas “podem deixar morrer“. Fica claro o seu dizer, como duas pedras.

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