E o Óscar foi para… Moonlight? Talvez.

Ontem de madrugada, enquanto me preparava para a inevitabilidade de La La Land ganhar Melhor Filme na cerimónia deste ano dos Óscares, dei por mim a ficar melancólico. Não porque o filme visado não tenha qualquer mérito. Tem. Apesar de problemático é um filme encantador. E encantado consigo mesmo, o que é refrescante. Mas representa a máxima #oscarsowhite numa altura em que outras histórias mereciam a atenção do mundo. A população LGBT em Hollywood continua a ser quase invisível e a representação das suas histórias uma raridade que TEM de ser celebrada. Especialmente quando tem também, e inquestionavelmente, a qualidade cinematográfica a apoiá-la.

Era o caso de Brokeback Mountain que, no seu ano, tinha feito e ganho todos os prémios percursores teoricamente necessários para singrar e, ainda assim, perde para um filme mediocre que hoje ninguém recorda para além deste facto. Era o caso recente de Carol, uma obra-prima suprema do realizador gay Todd Haynes, que ousou contar a trágica história de amor entre duas mulheres e foi totalmente ignorado. Era o caso agora de Moonlight, filho do puro cinema independente norte-americano, sem recursos nem estrelas, que conseguiu, inacreditavelmente, penetrar a penumbra da invisibilidade. Num lugar onde continuam a não existir atores nem atrizes não cisgénero nem heterossexuais a aplaudir juntos dos seus pares. Quanto mais ganhar.

E depois La La Land ganhou mesmo. A sensação foi de desilusão comprovada, mais uma prova que Hollywood pretendia continuar a ignorar as histórias LGBT que não fossem contadas por cineastas brancos e heterossexuais. Nem mesmo quando o mérito estava (novamente) todo lá. Mas isso durou só alguns minutos e essa sensação foi substituída por outra bem mais bizarra. Começa com um burburinho da equipa de La La Land, uma comoção à frente dos nossos olhos a escalar, uma reação absolutamente incrédula de Emma Stone. E, no final dos agradecimentos do último produtor de La La Land este diz… “E perdemos, já agora”. O quê? Bizarro. Um outro produtor do filme vem depois reafirmar que eles não eram de facto os vencedores e sim Moonlight. “Não é uma piada”. Mas parecia. Parecia mesmo.

Depois de uma troca de envelopes, que estão sempre em duplicado por segurança durante a cerimónia, foi entregue a Warren Beatty e Faye Dunaway o envelope de Melhor Actriz. Novamente. Com o nome de Emma Stone lá dentro e La La Land em letras garrafais. Era fácil chamar alguém para tirar dúvidas, mas também era fácil ignorá-las e seguir em frente. Qualquer um o faria. Só que Moonlight ganhou mesmo. Contra todas as probabilidades e com um monstro gargantuano e implacável a representar com orgulho o tradicionalismo em Hollywood. E este feito, histórico, é eclipsado por um erro de produção. Acredito que honesto, mas não menos frustrante. Como se mesmo num momento de gloriosa vitória tivesse que existir um condicionalismo. Afinal de contas vai ser difícil pensar no vencedor de Melhor Filme de 2017 sem recordar a salganhada adjacente à atribuição do mesmo.

Que se de danem os sonhos, isto é verdade” diz Barry Jenkins, realizador e argumentista de Moonlight, ainda incrédulo com o prémio, mas acima de tudo chocado. Não houve lugar – nem tempo – para um discurso de alerta numa altura em que eles são tão desesperadamente necessários (e praticamente ausentes numa cerimónia lúgubre e previsível). Em que precisam de estar sempre presentes. Porque não nos podemos esquecer que existe agora alguém à frente daquela potência mundial que distila diariamente discursos de ódio e segregação. Não é escolhendo ignorar, mesmo por umas horas, esse medo político em que agora assentam as nossas vidas que ele desvanece. Não é altura de nos apoiarmos em escapes à realidade em que vivemos e simplesmente sonhar para esquecer – que é, de facto, o caso de La La Land. É altura, sim, de enfrentar essa mesma realidade inóspita e crua e não desistir perante a sua inevitabilidade e deixarmo-nos perecer como é esperado que façamos. É o caso de Moonlight. Que ele seja lembrado (e celebrado) pelo grito sufocado que é. Pela dor tangível da violência da segregação e do silenciamento por nós criados. Pela identificação. De nós. Nele. E não por uma trágica troca de papéis dourados, com La La Land em letras garrafais, que ameaça eclipsar este feito monumental. Cabe-nos também a nós não ousar dizer a frase derrotista: “mesmo quando ganhamos… perdemos“.

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