Quem tem medo do Dia do Pai?

Quando era miúdo perguntava-me porque é que havia Dia do Pai e Dia da Mãe, mas não havia dia do Homem. Coisas de criança…

Vida de pai não é fácil: assim que a Criança nasce a ligação desta com a Mãe é a mais forte, e o pai é relegado para um canto. Por mais que ajude é sempre a terceira figura de uma relação auto-suficiente: o pai não amamenta. E mais tarde é a figura que se interpõe entre a Mãe e a Criança, ao reconquistar o território que lhe fora usurpado: a cama de casal. Este é o altar de onde todos fomos tirados, a custo, para ser postos numa cama onde estávamos sozinhos, talvez até num quarto à parte. O mesmo altar onde Abraão estava prestes a sacrificar o filho, Isaac, para obedecer ao seu Deus-Pai (Todo-Poderoso, segundo dizem).

O Pai é um rival: não é por acaso que em muitas línguas a palavra Mãe começa com o som MMM, um som gutural, de boca fechada (Mother, Mutter, Mére, Mater…). É o som primitivo que nos abraça, a sílaba Om, que representa o princípio de tudo. E qual é o som de Pai? O som P. Experimentem fazê-lo agora: digam Pai com ênfase no P. Parece que estamos a cuspir uma pevide. Mesmo em outras línguas, os sons da palavra Pai são quase sempre sons “cuspidos”, a boca abre-se para atirar a consoante inicial (Father, Vater, Pére, Pater). FFF e VVV são os sons dos animais assanhados, que querem afastar um predador. Chamamos o Pai como se o quiséssemos afastar. Deus é por excelência a figura do pai ausente – milhões de católicos clamam por que ele se manifeste. Cronos, o avô dos deuses do Olimpo, devorava os filhos assim que nasciam, porque a profecia dissera-lhe que um deles lhe roubaria o trono. E assim acabou por ser: Zeus, seu filho, salvou-se e libertou os irmãos da barriga do pai tirano, tornando-se ele próprio “Pai” dos Deuses do Olimpo. Qualquer semelhança com a história do Capuchinho Vermelho não é coincidência: Bruno Bettelheim foi peremptório ao afirmar que a figura do Lobo Mau é uma construção em torno do “lado mau” dos nossos pais. Por oposição, o Caçador é o nosso pai quando está bem disposto, e no fim da história é ele quem vence.

Hoje, na nossa bolha LGBTQ/Feminista/Queer falar em “Pai”, quase parece sacrilégio – agarrado a ele vem uma série de ideias feias: o Patriarcado, o Falo, a Masculinidade – aquela coisa que os intelectuais decidiram que não existe e ao mesmo tempo mantém-se de boa saúde no “mundo real”.

O meu avô, que me é mais Pai que o meu pai, ensinou-me a gostar de ler, e a ouvir música, e a ver Arte. Ensinou-me que ter o Poder de magoar os outros, não é ter o Direito de o fazer. Com ele aprendi que o pragmatismo tem de ser doseado, ou chamam-nos cruéis; uma vez, em conversa, criámos uma belíssima frase: A Vida é a sala de espera da Morte – a minha mãe horrorizada, e eu sem perceber porquê! E disse-me: “As fatias de tarte devem começar-se pelo interior, e deixar a casca para o fim: se morrermos a meio da fatia levamos connosco a melhor parte.”. Não é meu pai, mas revejo-me nele. E desejo-lhe sempre um feliz Dia do Pai.

 

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