Abel Matos Santos: Obscurantismo De Ideias

Abel Matos Santos, Psicólogo Clínico, Sexologista e vice-Presidente do CDS Lisboa, voltou esta semana a ganhar alguma atenção quando, numa rubrica que promove a ‘Tendência Esperança em Movimento’, movimento onde pretende recuperar os valores da democracia cristã, foi feito um apanhado das convicções que defendeu nos últimos anos. Entre elas, Abel considera que o 25 de abril trouxe “a liberdade para mudar de sexo de manhã e à tarde”, que os homossexuais “têm mais doenças e sofrem mais” ou que Salazar foi um santo por “não ter liquidado quando o podia ter feito”.

Volto a repetir, esta pessoa é psicóloga clínica e sexologista, pergunto-me sobre o serviço que presta no Hospital Santa Maria, especialmente a pacientes homo e bissexuais, tal como trans. Aliás, não sou o único a questionar-se sobre as suas qualidades clínicas, esta pessoa possui um historial de obscurantismo de ideias que já obrigou a própria Ordem dos Psicólogos a desmenti-la. Façamos, pois, uma viagem àquilo que Abel Matos Santos, médico e político, defendeu nos últimos anos:

Em 2014, aquando da discussão sobre a adoção e co-adoção por casais do mesmo sexo, Abel justificou a sua posição contra a alteração da lei baseando-se num estudo que indicava que “as crianças criadas por pessoas do mesmo sexo têm resultados significativamente piores nas dimensões sociais, emocionais e relacionais”, tal como considerou tratar-se de uma “filiação forçada das crianças a ter dois pais ou duas mães”. Abel foi desmentido não só por psiquiatras – como Filipe Nunes Vicente ou Ana Matos Pires – mas pela própria Ordem Dos Psicólogos que mais clara não poderia ser:

As evidências científicas expostas são claras: viver, ser educado ou ter dois pais ou duas mães em nada prejudica a construção da identidade, da personalidade e das relações sociais das crianças.

Não deixa de ser preocupante ver que Abel, passado um ano, continuou a insistir nas descredibilizadas ideias ao escrever – como psicólogo clínico, entenda-se – que “o que se sabe cientificamente é que o melhor para qualquer criança é que tenha um pai e uma mãe!

Existe no seu discurso uma clara tentativa de evocar a ciência de forma a legitimar aquilo que diz. O problema surge quando aquilo que diz não é ciência alguma, mas sim um chavão utilizado por aqueles e aquelas que não têm outra forma de verem os seus argumentos levados de forma séria. Chega a ser obsessiva a forma como Abel usa e abusa do termo “ciência” e afins. Numa discussão utilizou-o pelo menos oito vezes e, lá pelo meio e já que estava a jeito, insinua a ligação da vacinação ao autismo. Isto sim, um clínico para ser levado a sério!

Este truque de embelezar ideias com termos alegadamente científicos não é novo e é amplamente usado por quem tenta vender o que diz com maior credibilidade. Acontece que o escrutínio científico é implacável com quem tenta infiltrar alguma ideia que não tem como base o método científico. É o claro caso das pseudo-ciências. E Abel é um dos responsáveis pela promoção em Portugal de algumas delas. É que para além daquilo que defende não ter fundamento científico, Abel procurou trazer até nós pessoas que defendem ideias semelhantes às dele. Falo de Richard A. Cohen, um alegado “psicoteraupeuta com 25 anos de experiência” que acredita “sermos desenhados para ser heterossexuais” que veio em 2015 a Lisboa promover terapias de reorientação sexual e que Abel afirma ser seu colega. Na realidade, Cohen não tem habilitações de terapeuta porque, diz ele, “não queria lidar com as complicações de heterofobia e pressão sobre ex-homossexuais”. Cohen considera-se heterossexual desde 1987 e casou através de um arranjo do reverendo da sua Igreja. Outro mimo, portanto, que Abel fez questão de trazer a Portugal para uma palestra a convite do Centro de Recursos Pessoa, Família e Sociedade e da Associação dos Psicólogos Católicos – sim, a mesma da psicóloga Vilaça. Fica pois óbvio que Abel se deixa rodear por pessoas com credibilidade nula e isso é acima de tudo preocupante no trabalho que Abel exerce.

E é igualmente preocupante quando se alia a preconceitos sobre a população LGBTI. Aquando da polémica do Colégio Militar, por exemplo, Abel afirmou que o “[Paulo] Côrte-Real e a ILGA querem obrigar as pessoas a assumirem publicamente a sua orientação sexual, não respeitando o mais básico dos direitos das pessoas que é o direito à privacidade”. Parece-me que Abel não entende – ou não quer entender – a diferença entre uma pessoa poder assumir publicamente a sua orientação sexual – tal como qualquer heterossexual o faz no seu dia-a-dia – e essa pessoa ter direito à sua privacidade. São conceitos distintos e simples de entender: se um homem e uma mulher se apresentarem num jantar como casal estão a assumir-se heterossexuais publicamente. Têm, no entanto, direito à sua privacidade e, como tal, só lhes diz respeito a ele e a ela aquilo que, por exemplo, fazem na sua intimidade. Obviamente o mesmo se aplica para casais de homens e casais de mulheres. Este é mais um truque que tenta disfarçar o preconceito perante uma população, porque para Abel as pessoas LGBTI querem-se discretas, vá, armariadas, como no tempo da outra senhora, não é verdade?

Em setembro passado Abel comentou uma notícia sobre um “homem belga que pediu a eutanásia porque não queria ser gay” afirmando que “os profissionais de Saúde Mental devem ter a possibilidade de exercer a sua clínica livremente e apoiar todos os que precisam, mesmo os homossexuais que não o querem ser ou que lidam mal com isso!” Até aqui, e ignorando todo o historial deste psicólogo, não vejo problema, mas depois prossegue: “Os activistas LGBT, pseudo defensores dos homossexuais, não querem que o façamos e até querem criminalizar quem o faça. Já se for para apoiar um hetero a ser homo ou bi já se pode”. Bem, depende da ajuda que estes e estas profissionais pretendam dar a pessoas que mostrem estes problemas, se for uma ajuda baseada em dados clínicos e científicos é certamente uma ajuda valiosa que ajudará estas pessoas a ultrapassarem a situação em que se encontram. Mas se a ajuda for baseada em estigmas e preconceitos que apenas aprofundam e prolongam o sofrimento destas pessoas, sim, iremos opor-nos. Porque é a vida das pessoas que está aqui em jogo e o Abel volta a espelhar o seu profundo preconceito perante a homossexualidade e como ela faz parte da identidade de uma pessoa, tal como as restantes orientações sexuais.

Outro dos temas que o clínico opina de forma leviana é precisamente o da identidade de género. Comentando a proposta do Partido Socialista para que “alunos e alunas trans possam usar na escola o nome que escolherem”, diz que “não só é um atentado contra as crianças mais frágeis e com problemas é também contra as outras todas. Como querem interferir na Medicina, proibindo, imagine-se, os médicos de intervir em casos de hermafroditismo”. Abel, como Psicólogo Clínico e Sexologista, mostra nestas afirmações um total desrespeito por estas pessoas utilizando um termo ofensivo e estigmatizante, que deixou de ser utilizado há largos anos e, lá está novamente, cientificamente pouco credível. Trata-se, continua, de “algo que a ciência sabe bem como tratar, porque se faz um cariótipo, teste genético para ver se é XX ou XY e retira-se o órgão sexual mais atrofiado ou o resquício deste”. Simples, não é? Não, não é, Abel. Intersexualidade é qualquer variação de caracteres sexuais incluindo cromossomas, gónadas, hormonas e/ou órgãos genitais que dificultam a identificação de um indivíduo como totalmente feminino ou masculino. Abel entra depois numa discussão com uma investigadora que o chamou à atenção da gravidade do que escrevia acusando-a de “travestir a ciência” – lá está mais uma vez a obsessão com o termo -, dado que “a ciência assenta em pressupostos de verdade e de replicação, não de agenda política ou ideologia. O feminismo e a ideologia do Género, não são ciência, são política!” Há que explicar então que o facto de estes assuntos terem, realmente, uma componente política, não significa que não possam também ser ciência. Aliás, pergunto, quanta da emancipação das mulheres e da população LGBTI não aconteceu e continua a acontecer precisamente pelos pilares científicos em que se baseia? Se não baseássemos as nossas lutas políticas nas evidências que a informação científica nos dá, estaríamos onde estamos hoje? Estaríamos melhor amanhã se, em vez de nos seguirmos por dados fidedignos, nos sujeitássemos a vendedor@s de banha da cobra? No sujeitássemos a pessoas cujo rigor é altamente questionado e as suas alegações refutadas vezes sem conta por uma comunidade científica implacável a toda a informação que não seja comprovada e fidedigna, despida de manipulações baseadas em preconceitos? Estaríamos, pergunto, melhor amanhã?

Porque a liberdade calha mal ao saudosismo, defendamos hoje o futuro. E é aqui que também entra o lado político de Abel Matos Santos, como vice-Presidente do CDS Lisboa. Pergunto também: é este o tipo de desinformação que queremos para a política de Portugal? Tanto à direita como à esquerda há pessoas francamente melhores, esta não pode ser a solução para o futuro político do país, porque seguir este movimento é regressar a um tempo em que o obscurantismo de ideias prevaleceu e, pior, se impôs a toda a população. E isso não é, não pode ser, admissível.

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