A Perigosa Aproximação Da Extrema-Direita À População LGBTI

No próximo domingo a Europa pode mudar, mais uma vez, de rumo com as eleições presidenciais francesas. Com Emmanuel Macron a enfrentar Marine Le Pen, esta última entrou nos últimos meses numa operação de cosmética que um partido de extrema-direita como a Frente Nacional precisou para conseguir os votos que deram a Le Pen a hipótese de lutar na segunda volta das eleições. Esta estratégia passou pela tentativa de angariar os votos da população LGBTI francesa com argumentos claramente islamofóbicos que, embora num outro nível – quase nulo, entenda-se – foram aproveitados igualmente pelo PNR em Portugal.

Este processo tornou-se ainda mais óbvio aquando do derradeiro debate entre Macron e Le Pen a líder da Frente Nacional volta a fazer ligação entre o terrorismo e os ideais islâmicos que “perseguem homossexuais e judeus”. Esta retórica tenta espelhar o receio alegadamente crescente em França sobre o terrorismo. “Acredito que o povo francês se sente ameaçado, acredito o mesmo em relação aos gays”, conta Sébastian Chenu, ativista LGBTI e que integrou o partido de Le Pen em 2014. Este tipo de ligações e a colagem ao ‘mainstream’ político – que passa, por exemplo, pela inclusão de homens homossexuais em cargos partidários de relevo, mais do que qualquer outro partido em França – tem elevado, como consequência irónica, as intenções de votos por entre a população LGBTI francesa na extrema-direita.

Se inicialmente as intenções de voto rondavam os 19,2% na primeira volta das eleições, segundo uma sondagem, desta vez o número subiu para 36,5%. Os valores são questionáveis, é uma sondagem feita através de uma app – a maior em França – dirigida a encontro de homens homo e bissexuais, ou seja, trata-se de uma população altamente afunilada. Mas estes números podem mostrar uma tendência que tem sido muitas vezes suportada por outros estudos. Um terço dos gays que casaram depois da implementação do casamento entre pessoas do mesmo sexo em em 2013 votou em candidaturas da Frente Nacional nas eleições regionais de 2015. Não deixa de ser notável que estes avanços à extrema direita ocorrem especialmente com homens homossexuais. Ativistas franceses não notaram semelhante mudança nas intenções de voto de lésbicas, justificando com uma provável proteção das leis de procriação medicamente assistida (PMA) defendidas pela esquerda francesa, nomeadamente por Macron.

E se Le Pen se opõe à PMA, opõe-se igualmente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo – que pretende, aliás, reverter – é, também por isso, no mínimo hipócrita aparecer na cerimónia de homenagem a Xavier Jugelé, o polícia assassinado no ataque terrorista na capital francesa em abril passado, e onde o seu viúvo lhe dedicou um emotivo discurso.

Estas não são, porém, estratégias exclusivas da Frente Nacional. O partido alemão de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) escolheu Alice Weidel, candidata assumidamente lésbica e mãe de duas crianças com a sua mulher, para as próximas eleições nacionais.

E em Portugal?

E por cá? Como reage a diminuta extrema-direita portuguesa? É certo que a subtileza do PNR na apresentação das suas ideologias estão longe da máquina de marketing dos seus congéneres europeus. Mas isso não os impede de tentar, pegando igualmente no tópico do islamismo e fazendo a ponte contra a população LGBTI: “A Chechénia, de maioria muçulmana e em que a Lei Sharia domina quase tudo, tem o primeiro campo de concentração para homossexuais, onde homens estarão alegadamente a ser torturados de várias formas, uma das quais choques eléctricos e mortos.”

Acontece que este é o mesmo PNR que afirmou ostensivamente que “80% dos pedófilos são homossexuais”. A fonte? A internet, pois claro! Esta é uma resposta que ficou para a história da televisão nacional, mas serve também de exemplo para o perigo do preconceito e do ódio quando aliados a uma enorme ignorância. É este o trabalho que todos e todas temos o dever de fazer, porque fazemos parte ou entendemos o que é fazer parte de uma minoria, especialmente de uma minoria historicamente perseguida por pessoas como Le Pen.

A aproximação à população LGBTI é, pois, um embuste que apenas se sustem pela captação dos votos desta população. Mas é aí que podemos fazer a diferença, recusando dar-lhes a nossa validação por cruz. Mais, devemos igualmente recusar dar-lhes qualquer chance de chegada ao poder com a nossa abstenção. Há pois que votar em consciência daquilo que a nossa decisão representa, para nós e para aqueles e aquelas em nosso redor. Le Pen não mora aqui.

Fonte: Imagem.

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