Sofia Vala Rocha à força

Sofia Vala Rocha, jurista, mostrou-se indignada quando Fernando Medina, Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, celebrou um acordo para o Arraial Lisboa Pride. A razão? O nome do evento: “É pimba e ofensivo. É o quê uma atração para turistas?!

O problema, aparentemente, era o uso da palavra Pride: “É ridículo, idêntico ao cartaz do Websummit com inglês das docas.” Mas quando lhe pediram que esclarecesse a posição, especialmente quando o Arraial Lisboa Pride vai este ano para a 21ª edição, a Sofia desviou a sua retórica para o conceito do próprio evento, dado que considera “ofensivo para qualquer gay que não goste de ver a sua vida atrelada a um “Arraial”, dado que, segundo ela, “muitos gay não gostam do acantonamento”. Mas dada a insistência de quem seguia a conversa, a colunista informou que iria escrever um artigo sobre o tema, para ver se se “explica melhor”. Vamos então ver com o que Sofia Vala Rocha nos brindou?

O título deixa desde logo adivinhar que Sofia apostou forte num esclarecimento claro sobre o que queria dizer: “Gays à força”. Este título remeterá para a ideia que as pessoas são forçadas a serem gays, ou que a sua identidade lhes é forçada. Mas se calhar é simplesmente um mau título, importa pois olhar com mais atenção para o corpo do texto.

Os primeiros dois parágrafos começam por nada dizer, são vazios e limitam-se a generalizações sobre partidos políticos, acusando alguns deles de tomarem “conta do assunto”, notando que se “alguém do PSD [partido em que a Sofia é militante], do CDS ou de parte do PS ousa abrir a boca para fazer uma pergunta, é logo apelidado de ‘homofóbico’”. Mas é apresentado algum dado em concreto? Não, claro que não. Estas generalizações servem apenas para lançar a desconfiança e abrir caminho para o que a Sofia quer realmente dizer. Mas isso é o quê mesmo?

Gays e heterossexuais são iguais. São pessoas”, explica-nos, dando depois vários exemplos de traços de personalidade que as pessoas podem ter (“histriónicas, reservadas, exibicionistas, caladas, faladoras”). Estamos, portanto, no campo das banalidades. Sim, gays são pessoas. Sim, pessoas exibem variados traços de personalidade. Mas a Sofia continua: “Podem gostar de mostrar a sua vida ou de nunca a partilhar com ninguém – e estão no seu direito.” É aqui que começa a ficar um pouco mais claro onde quer chegar com este artigo. Sim, as pessoas têm direito à privacidade, mas também têm o direito que essa escolha não lhes seja imposta por outrem.

A Sofia segue o seu artigo falando dos clichés, explicando que durante décadas “eles e elas eram isto e aquilo. Com base nessa diferença perseguia-se e excluía-se” e que hoje em dia ainda se “alimenta o cliché de que todos os homossexuais são histriónicos, exibicionistas e folclóricos.” É pois de louvar que a Sofia distinga o cliché da realidade. Por assim se julgarem os homossexuais, estes e estas, continua, “iam desatar a casar no dia em que o casamento entre pessoas do mesmo sexo fosse possível e que, para além da aliança, ainda usariam um pin na lapela ou um autocolante na testa a anunciar ao mundo a sua nova condição.” Estranhamente, isto não me soa excessivamente diferente de um qualquer casamento entre pessoas de sexo diferente em que o excesso e o ridículo andam de mãos dadas. Mas não vejo problema com isso, é um dia de excessos para a maioria das pessoas que casa. E daí? Importa que se celebre a união de duas pessoas da forma como elas acharem mais conveniente. Com ou sem autocolantes na testa.

Portanto e resumindo, até agora Sofia Vala Rocha não escreveu nada de realmente elucidativo sobre o seu problema com o Inglês no nome Arraial Lisboa Pride, nem do conceito de arraial. Há suspeitas, mas nada de concreto. Continuemos à procura de respostas que sejam mais claras.

O Estado pode e deve dar as condições de igualdade. Mas ninguém pode obrigar as pessoas a gritarem urbi et orbi o que são ou de quem gostam. Ninguém as pode obrigar a serem gays à força.”

Afinal bastava ler o parágrafo seguinte. Primeiro ponto, porquê a alusão ao “gritar”? Esta é uma clara tentativa de condicionar a imagem de quem lê sobre o que é assumirmo-nos LGB. Gritar urbi et orbi é dar um beijo ao meu namorado? Gritar urbi et orbi é dar-lhe a mão? Gritar urbi et orbi é reservar um quarto de hotel com cama de casal? O que é, na realidade, gritar urbi et orbi para a Sofia?

Depois de falar, e bem, em clichés, lamento que esta sua visão seja isso mesmo, um enorme cliché que não consegue perceber para lá do que é mais estridente. E, repito-me, ser estridente não é, por si só, um problema. E este é – imagine-se! – também um traço de personalidade transversal em heterossexuais. E os heterossexuais, Sofia, são pessoas.

Penso sobretudo nas pessoas de mais idade”, continua, “casais que vejo, às vezes vizinhos, ou em espetáculos, em hospitais, em cafés, em restaurantes, em viagens, unidos por uma vida em comum de 30 ou 40 anos que a última coisa que querem é anunciar ao mundo que aquela amizade afinal é outra coisa”. Pergunto-me se a Sofia tem a noção do que é viver uma vida em comum de 30 ou 40 anos e camuflá-la diariamente como outra coisa. Pergunto-me se a Sofia se apercebe da crueldade que é viver-se, dia após dia, uma vida de negação, de máscaras e mentiras. Sim, é certo que as gerações anteriores viram-se obrigadas a viver de uma outra forma, pelo medo da perseguição e criaram formas de viver em segredo. Fosse casando-se com uma pessoa de sexo diferente e negar vida inteira qualquer impulso que denunciasse a pessoa que, na realidade e todos os dias, é; ou mesmo cedendo à sua natureza, traindo casamentos e famílias e toda a pressão psicológica que, quer num caso, quer noutro, se impõe forçosamente no indivíduo.

E têm todo o direito à sua opção de vida, têm todo o direito de jurarem que é uma simples e casta amizade.” Obviamente que sim, mas mais do que dizer que existe esse direito é perceber por que entrarão estas pessoas em negação que, estando-lhes no direito, dificilmente não lhes trará desconforto e mágoa. É preciso ganharmos consciência que muitas destas pessoas, mesmo que em condições muito difíceis, lutaram para que as gerações futuras de pessoas LGBTI não passassem pelo que tiveram eles e elas de passar. Mas isso não significa que não tenham elas ficado retidas, aprisionadas pelo tempo em que nasceram, quando, por exemplo, ser-se homossexual era crime. “Ninguém as pode tirar do armário à força”, remata a cronista. Pois claro que não, essa é uma decisão que deve ser tomada em consciência e segurança e de uma forma pessoal. Mas qualquer pessoa pode fazer o esforço por deixar à vontade alguém para o fazer. Pergunto então, em que é que ajuda um artigo como o da Sofia?

Ainda assim, a Sofia não se fica por aqui, acusa alguns – nomeadamente o atual Governo e a Câmara de Lisboa – de se acharem “os donos da verdade, os guardiões do politicamente correto”. Mais, a militante do PSD acha que “qualquer pessoa moderada de bom senso que ouse abrir a boca ou fazer uma pergunta é imediatamente acusada e achincalhada”. Gostava de saber onde é que Sofia foi achincalhada, porque, pelo menos na conversa que despoletou o artigo, apenas vi um grupo de pessoas a pedir clarificação sobre o que escreveu, o tal problema, claramente já esquecido, do uso do Inglês para o Arraial Lisboa Pride e o conceito de festa.

Conclui que “o resultado é um só: as pessoas perdem a vontade de falar”, mas aqui quem perde a vontade de falar claramente não perde a vontade de escrever e a Sofia acusa, mais uma vez generalizando, pessoas daquilo que na prática não aconteceu. Talvez um tique ou uma presunção, nada mais que um cliché, aquele em que ativistas são pessoas ruidosas e que insultam quem se lhes coloque pela frente. E termina afirmando que “os partidos que deviam representar as pessoas moderadas também recuam” e eu fico com a ideia que alguns destes partidos mal deram um passo em frente, por vezes chutando, inclusivé, os avanços legislativos que Portugal tem conseguido concretizar nos últimos anos.

Convido, pois, a Sofia Vala Rocha – e qualquer pessoa que queira perceber na primeira pessoa sobre o que é isto do Orgulho LGBTI – a visitar no próximo dia 24 de junho o Arraial Lisboa Pride. Será, como já disse, a 21ª edição, mais do que suficientes para alguém que esteja realmente interessada em perceber o fenómeno do “maior evento Lésbico, Gay, Bissexual, Trans e, pela primeira vez oficialmente, Intersexo de Portugal“. Perceberá facilmente que a diversidade reina naquele recinto e celebramos com pessoas histriónicas, exibicionistas e folclóricas, celebramos com pessoas tímidas, introvertidas e – pasme-se! – mal vestidas. Celebramos com crianças, jovens, adultas e séniores. Celebramos com pimbalhada e alternativa. Celebramos até e certamente com pessoas armariadas. Mas o que talvez importa a Sofia saber é que celebramos até com heterossexuais, já imaginou?

Fonte: Imagem.

Anúncios