Ser Gay numa Bolha de Sabão

Sou privilegiado. Sou homem, caucasiano, dentro da estatura média nacional e sem problemas maiores de saúde. Vivo num dos mais típicos bairros de Lisboa na casa de família onde nasci, cresci, saí e para onde voltei para iniciar um novo capítulo com o meu namorado de há sete anos. E o cão mais medroso e carente do planeta. Sinto-me seguro onde vivo, com quem estou e com quem decido partilhar o meu quotidiano. Trabalho num local onde não tenho de me esconder. Tenho pais que me aceitam quase totalmente, amigos que celebram comigo quem sou e um companheiro que trava a constante tendência de me sentir infeliz. E um terapeuta com quem trabalho isso semanalmente. Corro à beira-rio dia-sim, dia-não e como sushi de quando em quando.

Sou privilegiado. Factualmente. Mas é algo que se pode desfazer na rapidez de uma ilusão. Um oásis protegido por uma bolha de sabão. Porque cada dia que vivo aberta e visivelmente é ainda uma afronta. E um ato consciente. Como cada vez que beijo o meu namorado na rua. Porque me apetece. Mas sem deixar de calcular meticulosamente o risco associado numas boas frações de segundo. Sob o risco da bolha rebentar. Ainda há pouco tempo refletia sobre o regresso à normalidade depois da efusividade do Pride e tive de perceber, como quem acorda de um sonho, que aqueles momentos de aceitação quase utópicos de celebração identitária também estavam eles protegidos por uma bolha de sabão. Simplesmente um pouco maior e mais inebriante.

Porque fora dessa bolha sinto-me desprotegido. Vulnerável. Cobarde. A minha necessidade de me sentir (falsamente) seguro é ainda muito mais forte do que a minha vontade (real) de denunciar em alta voz todos os atos de homofobia (e transfobia e misoginia) que vou presenciando diariamente. E sinto que se estão a tornar mais cada vez mais frequentes (ou a sua percepção e a sua denúncia). E a passar cada vez mais incólumes. Por cada crónica publicada de validação subjacente do ódio perante a população LGBTI, existe um ato criminoso de violência compactuante perante um ou vários membros dessa população à frente de um bar ou discoteca onde é suposto nos sentirmos seguros. Por isso fico irado e é-me difícil manter silêncio cada vez que um homem heterossexual branco católico brada mais uma vez do topo do seu púlpito sobre as injustiças contra a sua liberdade de expressão – vulga discriminação dissimulada – por parte da “polícia” LGBT. Quando não é sequer cómico comparar a abrangência e meios de divulgação de uns e outros. E os crimes de ódio, que assim são validados, acontecem na fronteira entre a crua realidade e do paraíso seguro da bolha, dilapidando-a para sempre. Já muitos sangraram e morreram para chegarmos a este estado de conforto caduco. E o sangue continua a correr na rua. Agora perante a indiferença de todos, sobretudo dos que se posicionam deliberadamente do outro lado da barricada. Mas também daqueles que caminham e marcham ao nosso lado. Nossa. Minha. Como se assim tivesse de ser. Porque o Mundo é assim. Basta. De lamentar sem mexer um músculo. De chorar sem atuar. De sentir medo.

Sou privilegiado. Claro, tive as mesmas restrições sociais de qualquer pessoa da minha idade no processo de descoberta e maturação identitária, totalmente silenciada durante décadas depois de perceber que as agressões, físicas e psicológicas, daí advinham. De quem eu sou. Portanto não o fui. Não o fui durante décadas. E agora, hoje, sinto que ainda não o sou. Sair do armário não resolve tudo e inconscientemente vamos construindo estas frágeis bolhas de conforto onde alimentamos uma falsa construção do que é Liberdade. Ainda não sou eu porque ainda não sou livre. Mas quero ser. Porque para mim, ao contrário de grande parte das pessoas LGBTI espalhadas por todo o mundo, sinto que isso é possível. Ser Livre. Fora da bolha.

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