A Importância De Ser Graça Fonseca

Ontem foi um dia histórico em Portugal. Graça Fonseca tornou-se na primeira pessoa política – e no ativo – a assumir-se homossexual. Graça Fonseca é lésbica e disse-o a toda a gente numa declaração “absolutamente política“.

Tenho lido nas últimas horas quem se questione sobre a necessidade desta afirmação, deste coming out. Porque “é uma questão de intimidade“, porque “é-me indiferente“, porque “não quero saber das suas preferências sexuais“, porque, dizem, “não havia necessidade“.

Acontece que a secretária de Estado da Modernização Administrativa, ao contrário de colegas seus, não assumiu até ontem livremente a sua identidade. É que, ao contrário de colegas seus, Graça Fonseca não festejou as suas vitórias políticas ao lado do cônjuge, não o abraçou, não o beijou. Graça não tinha até ao dia de ontem – e em 17 anos de carreira política – dito que era homossexual. Ontem fê-lo e, juntando-se então a colegas seus que afirmam a sua orientação sexual todos os dias, Graça não se tornou melhor ou pior que eles e elas, apenas se juntou a quem exprime a sua própria identidade de forma livre e descomplexada. Continuamos sem saber sobre a sua intimidade porque não revelou nada sobre a mesma na entrevista, porque, tal como os seus colegas, afirmar a sua identidade não é sinónimo de partilhar dados íntimos da sua vida.

Mas então que diferença faz a entrevista dada ontem pela secretária de Estado? Apesar de algumas pessoas alegarem ser absolutamente indiferente o que ela disse, lamento, mas o mundo utópico em que estas coisas são encaradas com indiferença ainda não existe. Sim, é um mundo que desejamos um dia criar, mas é hoje uma utopia e querer saltar passos na sua criação é, no mínimo, perigoso. Porque passa pela invisibilidade das pessoas em nome de uma indiferença que, claramente, não existe. Basta pensar que foram precisos 35 anos para que uma política se assumisse homossexual em Portugal. Será por indiferença? Basta pensar que há hoje pessoas perseguidas, jovens expulsos e expulsas de casa pelas próprias famílias e, se quisermos ir ao limite, mortas por serem quem são. Não é por acaso que até 1982 a homossexualidade era ilegal neste país, não é certamente por acaso que esta permanece crime em 75 outros países do mundo.

E, no entanto, ontem uma pessoa num cargo público, mulher, colocou-se na linha da frente e assumiu-se homossexual. Isto,  só por si, é explicativo da sua importância, mas esta não se fica por aqui. Porque este passo abre portas a todos aqueles e aquelas que não se assumiram por receio, por medo. E é mais do que justificado sentirmos receio ou medo, mas Graça Fonseca tornou-se assim símbolo de que é possível fazê-lo. E esta é uma mensagem impagável, pessoal e política: “Podes ser quem és, de cabeça erguida“. 
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