Graça Fonseca: “Há duas razões para achar importante dizer que sou homossexual”

A Secretária de Estado da Modernização Administrativa, Graça Fonseca, deu hoje uma importante entrevista, conduzida pela jornalista Fernanda Câncio, onde se assume como homossexual numa afirmação que considera “absolutamente política“. E para justificar a importância do coming out dentro do mundo político – e não só – dá duas razões para hoje o fazer.

Focando-se primeira na questão da empatia, explicou: “a questão de haver poucos deputados ou membros do governo de um determinado grupo tem muito a ver com como é que olho para essas pessoas, como me relaciono com esse outro“. E, não se limitando à política, deu vários exemplos: “acho que se as pessoas começarem a olhar para políticos, pessoas do cinema, desportistas, sabendo-os homossexuais, como é o meu caso, isso pode fazer que a próxima vez que sai uma notícia sobre pessoas serem mortas por serem homossexuais pensem em alguém por quem até têm simpatia“. Concluindo que “se as pessoas perceberem que há um seu semelhante, que não odeiam, que é homossexual, isso pode fazer que a forma como olham para isso seja por um lado menos não querer saber se essas pessoas são perseguidas, por outro lado até defender que assim não seja. Mas mesmo que seja só deixar de não querer saber já é um ganho.”

A secretária de Estado explicou ainda a diferença entre privacidade e identidade, conceitos que por vezes são confundidos, começando por dizer que, na sua visão, “a privacidade é absolutamente fundamental. A vida privada é sagrada“, mas que na verdade este seu coming out “não é uma questão da privacidade“, mas sim “uma questão de identidade“. Para explicitar o que quis dizer deu um exemplo simples: “eu sou morena e tenho olhos verdes e sou isto. Aquilo que se faz com ser morena e de olhos verdes é que é uma questão da tua vida privada“. E é a existência desta troca de conceitos que gera muito do ódio sentido pelas pessoas LGBTI, porque, continua, “a partir do momento em que se percebe que há questões de identidade que ainda hoje são fundamento de ações violentas e discriminação, quando se pensa sobre o que fazer – vou abrir ligeiramente a porta porque pode ter um impacto positivo ou não vou abrir porque não é comigo – há um equilíbrio difícil“. Mas, reitera, “acho que as leis não bastam para mudar mentalidades, não bastam para mudar a forma como olho para o outro, que aquilo que muda a forma como olhamos para os fenómenos tem muito que ver com empatia“.

Como tal, se as pessoas começarem “a ver outras outras que de vez em quando aparecem na TV ou vão lá à terra, como é o meu caso, se a virem como pessoa, como ser humano, isso pode de alguma maneira, nem que seja inconscientemente, mudar a forma como veem algum tipo de fenómeno. Isto é a perspetiva otimista, que é a única coisa que me leva a pensar que vale a pena“.

É este o caminho que ainda falta percorrer e que Graça Fonseca entra assim na linha da frente de políticos e políticas que se assumem LGBTI em Portugal, mas a secretária de Estado acha, no entanto, “que ninguém tem essa obrigação“, dado que “todas as pessoas, políticas ou outra coisa qualquer, têm o direito inalienável de decidir o que fazem com a sua identidade e a sua vida“. As últimas palavras da entrevista abrem, ainda assim, o caminho a outros exemplos: “Mas, mais do que gostar que houvesse outras pessoas a fazer o mesmo, acho que seria importante“. Venham pois eles!

Fontes: DN e Imagem.

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