#8: Stefani Duvet – “Noto muita discriminação em relação ao drag no mundo LGBT”

Esta edição do #8 dá lugar… ao drag, uma das mais populares expressões de arte junto da camadas mais jovens (e não só) da comunidade LGBT por todo o Mundo. Em Portugal o transformismo já tem longa tradição desde a conquista da Liberdade no pós-25 de Abril, pelo que não é coincidência que a Discoteca Finalmente, reputada casa de performance no coração de Lisboa, já caminha para os 41 anos de existência.

No entanto, com a ascensão recente da arte a nível mundial por efeito do modelo americano – falo da influência estrondosa de RuPaul claro – tem vindo a tornar clara a necessidade de separar o mais tradicional transformismo e o disruptivo drag em  categorias diferentes. Uma das pioneiras do novo drag em Portugal é Tiago Santos sob a chancela de Stefani Duvet, que já tem vindo a entregar cartas por todo o país com a sua abordagem fresca do drag, notoriedade que agora se consolida com a promoção a artista residente no Finalmente, onde a podemos ver diariamente.

Tiago, obrigado por esta participação na rúbrica do esQrever enquanto Stefani Duvet, uma das novas caras do drag português. Em primeiro lugar as perguntas da praxe: quando é que começou o teu interesse e paixão pelo drag? Já tinhas assistido a algum espetáculo que te tivesse desencadeado essa vontade? Quem foram para ti as tuas referências iniciais do mundo drag?

A minha paixão pelo drag começou há três anos quando me apercebi que alguns comentários na rua direccionados ao meu cabelo, que me fazia parecer uma mulher. Isso fez-me querer experimentar ser uma “de verdade”. Nunca tinha assistido a nenhum espetáculo ao vivo mas sabia o que era o drag. Inspirações iniciais, que se mantêm, Lady Gaga (sempre!), Brooke Candy, Madonna e também Adore Delano e Jinkx Monsoon, duas drag queens americanas.

Como aconteceu então o primeiro espetáculo em que participaste? Contaste às pessoas mais próximas que o ias fazer?

Disse. E foi engraçado porque foi mesmo só para as pessoas mais chegadas. Foi numa festa de aniversário minha e quem tinha de estar presente estava de facto. Preparei um espetáculo corrido de mais de meia hora para fazer sozinho, e fi-lo para sete pessoas. Utilizei sempre fontes de inspiração minhas ou canções que achei que me fossem fazer sentir poderoso em palco. Sempre referenciando Lady Gaga e Madonna, as minhas duas grandes divas.

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Como reagiram as pessoas mais próximas quando souberam que fazias drag? E como reagem também as menos próximas, já alguma vez sentiste algum preconceito?

Bem, essa é uma pergunta comum. Tenho uma parte da família que não aceita ou custou a aceitar. Tenho outra que me apoia sempre totalmente e até me dá material de trabalho. Por exemplo, não há uma vez que vá a casa da minha mãe e que ela não me dê algum tipo de produto de maquilhagem. Está-me sempre a dar muito material, apoio e até roupa. A nível de vida social, e no quotidiano, sofro muito dentro do mundo LGBT.   Não somos tão valorizados quanto outros homens só por gostarmos de “ser” a Lady Gaga durante meia hora. (Na comunidade) somos os primeiros a querer respeito e aceitação e os primeiros a desrespeitar. Tive mesmo também algum assédio efetivamente, ou insultos, como me chamarem travesti no meio da rua. Ou uma parte da família que deixou de me falar simplesmente por eu querer ser feliz. Mas são situações tão imaturas que não dou importância. “Entra a cem e sai a mil“, passa-me ao lado. Se há uma coisa de que estamos certos quando nascemos é que vamos morrer. Para contrariar essa certeza, só nos resta ser felizes.

És já uma das caras da nova geração de drag em Portugal e tens atuado frequentemente em inúmeros sítios em Lisboa e fora dela. Sentes diferenças entre públicos consoante os sítios que vais? E no Finalmente, como foi atuar naquele palco mítico e representar uma coisa diferente do que se faz lá? Como és recebido pelas queens mais antigas?

Gosto muito muito de atuar em todas as casas, estejam compostas ou quase vazias, gosto sempre de mostrar o meu trabalho. A minha cidade preferida – até para residir – é o Porto. O público é muito receptivo e sente a energia do artista, talvez por ser um público mais atualizado em relação ao mundo do drag. Atuo muito na Margem Sul também, sempre com públicos fantásticos. Por exemplo, o Margem Sul Bar Club é uma casa de espetáculo fantástica, tem clientes fiéis que gostam de apoiar coisas novas. Mas em Lisboa, o Finalmente é sempre o melhor palco para fazer uma performance. O público é muito crítico, num sentido construtivo e positivo: tu sabes sempre como foi a tua prestação em palco com os aplausos e com a energia que eles transmitem. O que mais gosto no Finalmente talvez não seja só atuar naquele palco fantástico, mas sentir a energia daquele público, já me emocionei inúmeras vezes em palco. Há que saber separar, já agora, drag de transformismo. O mais bonito é que de facto existe uma grande diferença entre ambos. O transformismo é algo tradicional em Portugal, é extremamente bonito, basta ter visto. O drag é a nova vanguarda, inspirado o conceito americano, o que nos diferencia. Reformulando, em relação aos transformistas mais antigos, tenho os meus favoritos, obviamente. Todos os transformistas que são residentes no Finalmente foram e são sempre cinco estrelas, adoro-os de coração e são pessoas que até me têm vindo a surpreender, cada vez mais, pela positiva. Estão a abrir-me grandes portas. E isso é sinal de que são pessoas que estão seguras com o seu trabalho e sabem o valor do nome que têm. Agora há outras que não suportam este estilo de drag e só criticam. Compreendo que custe a aceitar, mas se a Madonna pode usar meias rasgadas, porque é que eu não posso ser a Madonna? O drag é o que nós quisermos, não tem que ser uma mulher bonita. A ideia do drag é quebrar barreiras.

Falando no conceito drag americano, é incontornável a influência do Ru Paul e do Drag Race, que está a atingir níveis de popularidade impensáveis há uns anos. Qual é que achas que foi o segredo para trazer o drag para o mainstream como ele o fez? Consegues fazer um paralelismo com a evolução do drag e a do movimento dos direitos LGBT?

Acho que o drag teve que aparecer no mundo, no mundo LGBT e que não houve segredo algum para o programa ser mainstream em geral. Penso que foi mais um “passa-palavra”, que foi tornando meros curiosos em novos artistas. Consigo correlacionar o drag com o mundo em geral, é como uma nova informação. No mundo LGBT, noto pessoalmente muita discriminação em relação ao drag, até mais do que na restante sociedade. É importante saber distinguir drag de transexualidade, transgender e travesti. E quem mais transformou o mundo atual do drag acho que foi mesmo a RuPaul. É ela que está a gerir a nova vanguarda drag e esse é um papel muito importante.

Curioso tocares nesse assunto porque uma das queens da última temporada, a Peppermint, foi a primeira concorrente a entrar no programa como mulher trans e disse ter sido difícil ao longo dos anos conciliar as duas coisas sem ser vítima de preconceito ou da comunidade trans ou da comunidade drag. Mas no final de contas afirmou “drag é o que eu faço, trans é quem eu sou”. Achas que este exemplo ajuda a aproximar mais estes dois grupos que se encontram ainda muito divididos?

Sim, sem dúvida. Drag é uma arte, em alguns países considerada efetivamente uma profissão. É como ser ator. A pessoa exerce essa profissão, essa arte. Não define aquilo que ela é. E mesmo se definisse, cada um tem de viver sua vida e preocupar-se com ela em vez da dos outros, tão simples quanto isso. Quem paga as minhas contas sou eu e como costumo dizer, o que é que interessa a alguém se gosto de carne ou de peixe? Quem come sou eu.

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Como vês o futuro do drag em Portugal e para ti em particular? Achas que com esta nova geração na qual tu te inseres existe uma potencialidade de crescer segundo o modelo americano e tornar-se mais visível – e com isso também a visibilidade das pessoas LGBT?

Considero. Acho que o drag em si já é muito futurista e temos que captar essa atenção na sociedade em si. Para terem pensamentos mais abertos e aceitarem que este tipo de coisas são tão normais quanto o resto. Que, no fundo, só queremos ser felizes e não incomodamos ninguém. Que ser gay, lésbica, trans seja “desetiquetado” e nos vejamos uns aos outros como pessoas, humanos, e não como isto ou aquilo.

Para terminar, algum projeto que queiras divulgar para os próximos tempos? Onde podemos ver a Stefani Duvet e em que formato?

Sugiro que fiquem atentos a minha página e ao meu instagram para mais novidades. Tenho uns projetos em mente, mas não posso revelar para já. Obrigado!

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