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Miss Drag Lisboa 2018 – Entrevista com Miss Moço e Miguel Rita: “Muitas drag queens não revelam à família o que fazem”

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Em plena Baixa Pombalina, sentámo-nos com Miss Moço e Miguel Rita, responsáveis pelo concurso Miss Drag Lisboa que vai ter a sua segunda edição já no próximo sábado, dia 15 de setembro, nos Estúdios TimeOut/Mercado da Ribeira. Falou-se de drag, costumes Portugueses e o futuro desta arte performativa no nosso país. E claro do espetáculo em si, que terá Miss Moço como anfitriã, performance de Sylvia Koonz, vencedora do ano anterior, Nevada Popozuda a abrir as hostilidades; e um painel de jurados e juradas composto por Stefani Duvet, Sofia Aparício, Belle Dommage, Manuel Moreira e, surpresa de última hora, Stephan Elliott, realizador australiano do clássico Priscilla, Rainha do Deserto.

Como surgiu a ideia de criar um pageant como o Miss Drag Lisboa em Portugal?

Miss Moço: Mudei-me para aqui em dezembro de 2016, não estava muito por dentro da cena drag portuguesa, mas queria começar algo por aqui. Os screenings do RuPaul’s Drag Race, surgiram várias oportunidades de criar algo aqui e comecei a encontrar-me com as queens da cidade. Queria criar algo não só para mim, como também para elas. Eu e o Miguel estávamos já a trabalhar juntos, ele a fazer DJ nights, eu a fazer performances e, como não falo muito português, foi a união perfeita! Fizemos a primeira edição, esgotámos as entradas e agora estamos ainda maiores!

Miguel Rita: No ano passado muitas pessoas tentaram arranjar bilhetes no próprio dia sem sucesso, por isso foi um ótimo sinal para que este ano avançássemos em grande. E a cena drag tem evoluído imenso em apenas um ano.

MM: Sim, estive fora 5 meses e a mudança sente-se. Este ano quisemos que fosse ao mesmo tempo do Queer Lisboa, pois faz-nos sentido com tanta gente a visitar a cidade de outros países crescermos com esse público.

Como surgiu o formato do Miss Drag Lisboa?

Sendo de Toronto, estes eventos acontecem imensas vezes por lá, por isso retirei dessas experiências a inspiração para trazer o formato cá, ao estilo da Miss Mundo ou do filme Miss Detetive com a Sandra Bullock onde elas exibem os seus talentos e os seus discursos e os seus bikinis que, embora tenhamos feito na edição passada, este ano não haverá bikinis!

Que diferenças haverá em relação à edição do ano passado, que surpresas podemos esperar?

MM: O espaço em si já é uma enorme diferença, a projeção é maior.

MR: Vamos ter um opening act, duas drag queens que serão a Nevada Popozuda que foi a runnerup do ano passado e uma queen originária do Brasil mas que tem estado a trabalhar nos últimos anos em Dublin, a Chantelle Perez.

MM: Não haverá bikinis, mas haverá outra coisa, a nudez é opcional, mas posso dizer-vos que haverá muita pele à mostra nas performances.

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Miguel Rita

Sentem algum conflito entre o drag mais tradicional e o novo drag aqui em Lisboa e em Portugal?

MM: Quando me mudei para cá havia uma separação entre o antigo e o novo mas está a mudar. Especialmente desde que uma das nossas juradas, a Stefani Duvet, tornou-se residente no Finalmente, casa que já existe há mais de 40 anos. Com isso há mesmo uma mistura das sensibilidades. Se eu penso que o drag mais antigo está a evoluir? Acho que estão a manter-se no mesmo estilo, o que é perfeitamente aceitável.

MR: Há muitos estilos de drag a aparecer. Mesmo nas drag queens mais jovens há umas que têm uma abordagem mais clássica e outras que fazem algo mais alternativo. Se considerarmos a Belle Dommage, outra das nossas juradas, como parte da nova geração, ela faz algo completamente diferente do típico glamour, mais freak.

MM: A realidade é que há espaço para todas. E as pessoas apreciam diferentes tipos de drag. O pior que podemos fazer a nós próprios enquanto comunidade é colocarmo-nos dentro de uma caixa.

Acham que o drag ainda tem (ou deve ter) a mesma carga e responsabilidade políticas que tinha no início do movimento LGBTI?

MM: Acho que foi o RuPaul que disse que somente um homem colocar uma peruca é um ato politico. Especialmente quando há muitos países onde se vai para a prisão só por o fazer. Como forma de arte as queens podem escolher não fazer nada com conteúdo político, é só entretenimento no final de contas. Se eu gosto de performances com carga política? Claro, eu própria as faço. Gosto também de fazer performances bubbly e simplesmente divertidas. É reconhecer o público e o tempo e o espaço para fazer essas performances. Se estás no Pride, rodeada de pessoas que estão ali pela mesma razão e a lutar pelos seus direitos, esses momentos podem ser muito poderosos. Quero fazer esses números numa festa de aniversário? Se calhar não.

Como é que vêem a inclusão de mulheres – cis ou trans – no mundo do drag?

MR: Totalmente a favor. Temos uma concorrente feminina este ano, a Zazu LaCroix, e estamos muito felizes de a ter. Ela é incrível. E claro que não nos opomos de todo a ter concorrentes trans também.

MM: Em Toronto temos bio queens (drag queens que são mulheres cis) e queens que são mulheres trans. Não posso falar por elas, mas tenho amigas que eram drag queens antes da transição e o drag continua a fazer parte delas e outras que decidiram deixar essa parte para trás. Mas só por serem mulheres não quer dizer que não possam fazer drag. Já os drag kings por exemplo, não têm tanta atenção.

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Miss Moço

Acham que é por ser mais aceitável para as mulheres se vestirem como homens do que o contrário?

MM: Acho que quando homens se vestem como mulheres a realidade é que se pode fazer mais com isso, tanto a nível de indumentária como da performance em si.

MR: Talvez porque as mulheres no seu dia-a-dia já vestem roupas que foram originalmente consideradas masculinas talvez as pessoas não vejam tanto o salto aí. Mas é algo que poderia crescer sem dúvida cá, os espectáculos de drag king. E em relação a bio queens acho que não tinha visto ainda uma antes da Zazu.

MM: As coisas estão a crescer e a crescer por cá. Vamos ver mais e mais performers únicas.

MR: Há uns anos se querias ver drag tinhas um sítio. Agora para além do Finalmente tens as noites na 49 ZDB, o Trumps, o Posh, há muito mais opções.

Falta alguma coisa ao drag em Portugal para dar o salto e tornar-se mais visível?

MM: Acho que o RuPaul’s Drag Race acendeu a chama aqui. O que falta? Em Toronto temos uma espécie de gay Village com três ou quatro bares onde há drag a toda a hora. Penso que talvez faltem mais oportunidades. Quando me mudei para Lisboa e abordava donos de bares para fazer drag eles nem compreendiam como é que isso poderia funcionar. Havia uma falta de entendimento sobre o que as drag queens eram e o que poderiam fazer pela comunidade, talvez um bocadinho presos no passado.

MR: Exacto. Acho que talvez exista ainda uma ideia fixa do que uma drag queen pode fazer e isso pode ser algo relativo a queens de há 20 ou 30 anos. Não vêem as diferenças e a diversidade de drag queens que existe.

MM: E depois há o catolicismo. Temos estes rapazes jovens que querem fazer drag mas este fundo católico com a família muitas vezes a não aceitá-los pode ser uma razão para o pararem de fazer. Muitas queens aqui não revelam à família o que fazem. Como é que podem crescer e tornar-se maiores e melhores com medo que a família descubra? Isso é muito castrador. Mas toda a gente tem diferentes experiências. Lisboa está a mudar muitos desde os últimos anos e acredito que as oportunidades vão aumentar.

Algo mais que possam dizer sobre o Miss Drag Lisboa deste ano e o espetáculo no Sábado dia 15?

MR: Podemos dizer? Spoilers? (risos)

MM: Bem, antes disso vou fazer uma performance na festa de abertura do Queer Lisboa e vamos dar um bilhete para o Miss Drag Lisboa. O Queer tem sido um patrocinador valoroso. No dia, as portas do Estúdio TimeOut abrem pelas 11h da noite e o espetáculo começa pelas 11h30.

MR: Podemos dizer os prémios: a vencedora vai ganhar uma coroa/fascinator criado pela Sara Whittle, uma das nossas designers, uma consultoria com o atelier Oficina para criar um vestido e uma sessão com a WigByChoice para estilizar uma peruca e também um carregamento de cosméticos Nyx.

MM: E também lugares na fila da frente do desfile do estilista Andrew Coimbra no Moda Lisboa. E claro, a coroa e o título de Miss Drag Lisboa, o prémio mais importante de todos.

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Miss Drag Lisboa 2018 terá lugar nos Estúdios TimeOut, Sábado dia 15 de Setembro às 23h30. Bilhetes disponíveis na Ticketline.

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