Quando a Língua Portuguesa é traiçoeira … e não inclusiva

Há dois dias foi divulgado o estudo “Mobilidade Social em Portugal”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, coordenado pela investigadora Teresa Bago D’Uva, da Universidade Erasmus, em Roterdão. Este estudo foi tema de um debate televisivo, na RTP3, no programa Fronteiras XXI. Ontem, um artigo do Público, escrito pela jornalista Natália Faria fazia um resumo deste estudo.

A principal conclusão deste (importante) estudo, isto é, a de que o elevador social sobe mais devagar em Portugal face ao resto dos países da União Europeia, e para menos gente, e ainda de que os três fatores mais importantes são “apelido familiar e a escolaridade e a profissão dos pais”, é uma conclusão que não era difícil de antever (quero dizer, suspeitava-se disto), infelizmente, dadas as conhecidas desigualdades muito acentuadas entre os mais ricos e os mais pobres (mais acentuadas do que nesses outros países) e dado o elevado provincianismo da nossa portuguesinha sociedade.

Não é, contudo, este o tema sobre o qual escrevo hoje.

O que me chamou mais a atenção nesta leitura foi a forma como está escrito o texto do artigo do Público e a confusão que faz (ou não desfaz) sobre o género do sujeito, ou da sujeita. E ainda a ironia da confusão criada pela linguagem não inclusiva.

Vejamos a frase: “Dito de outro modo, em Portugal quanto maior é a escolaridade do pai maior é o rendimento familiar do filho”.

Ao início pensei que fosse meramente ignorância da jornalista face à linguagem inclusiva. (Bem sei que isto é mais uma acha para a demanda do anti politicamente correto. Seja.) Aliás, sabemos que para muitos e muitas é normal, e desejável, que o conjunto do pai e da mãe sejam ‘os pais’ e que descendente de ‘os pais’ seja ‘o filho’, seja um homem ou uma mulher.

Depois … prosseguindo a leitura, fui-me interrogando sobre se o estudo não seria mesmo baseado na profissão de apenas ‘o pai’ homem, desvalorizando assim a profissão, apelido e escolaridade de ‘o pai’ mulher (quanta ironia nisto!). Aliás, vejamos bem que é sabido que a maioria das mulheres não tinham profissões fora de casa até há algumas décadas e tinham níveis de escolaridade muito inferiores ao dos homens. Efetivamente, parece ser esse o caso, se considerarmos uma (pequena) parte do texto, lá para o final (antepenúltimo parágrafo), que menciona a relação das qualificações académicas das mulheres com a qualificação académica dos seus “progenitores masculinos”.

Chego ao fim do artigo e a dúvida persiste.

Por não estar ainda disponível para download (compra) o referido estudo, acabo por ter que me refugiar no campo das hipóteses e conjeturas.

Indeciso, então, entre duas hipóteses: (A) o estudo debruçou-se exclusivamente na relação entre a posição social dos filhos e das filhas, em relação à posição social do pai, homem e (B) o estudo debruçou-se na relação entre a posição social dos filhos e das filhas, em relação a alguma-coisa-inferida da posição social do conjunto do pai e da mãe, isto é, do agregado familiar.

Há, obviamente, algumas hipóteses alternativas, mas que em nada alteram o que pretendo mostrar.

Vejamos a hipótese A. O estudo assume como premissa que a posição social dos filhos e das filhas depende muito mais da posição social do pai do que da posição social da mãe, cujos graus académicos, profissão e apelido em nada, ou quase nada, influenciam os mecanismos de elevador social daquelas e daqueles. A ser verdade esta hipótese, creio que o estudo (de motivação importante, repito) induz uma visão sexista da sociedade, reforçando o estereótipo de que o homem é o elemento dominante de um agregado familiar e escamoteando o facto de que desde sempre o estatuto social da mãe nem sempre é, ou foi, inferior ao do pai, o mesmo se passando para as restantes variáveis. Não estou a dizer que é irrelevante a diferença entre a escolaridade, profissão e apelido do pai em relação à escolaridade, profissão e apelido da mãe. Seria necessário que o estudo o mencionasse, estudasse e que o artigo do Público se referisse a esta questão, esclarecendo a leitora e o leitor.

Vejamos agora a hipótese B. Neste caso, a posição social do agregado familiar é inferida, ou estimada, a partir dos dados do pai e da mãe, ou das duas mães e dos dois pais, ou de outros e outras, estudando os mecanismos de mobilidade social das pessoas com base na posição social do seu núcleo familiar (constituído, reforço, por pai e mãe, ou dois pais ou duas mães, ou um pai, ou uma mãe, ou uma de várias combinações que incluem avós ou familiares diversos). A ser este o caso, então o artigo simplesmente ignora todas as outras pessoas, além de ‘o pai’, homem.

É aqui que tropeço com outro artigo do Público, do mesmo dia, escrito pela mesma jornalista, sobre a relação de mobilidade social das filhas em relação ao seu pai, homem. Este segundo artigo está aqui. E esclarece, então, o que ficou difuso no primeiro artigo:

“O estudo não comparou níveis entre mães e filhas, admitindo os seus autores que, e dado que as mulheres chegaram mais tarde à escola, a mobilidade ascendente das filhas seria aqui ainda mais vincada. Na comparação com a Europa, as portuguesas nascidas na década de 1970 que atingiram um nível académico superior ao dos seus pais ficam apenas dois pontos percentuais abaixo das restantes europeias: 48% versus 50%.”

Está, pois, esclarecida a questão de “pais”, neste caso, se referir exclusivamente aos “progenitores masculinos”.

Pergunto-me. Faz sentido esta distinção entre pai e mãe, por exemplo, no apelido? Então se há mulheres que casam com homens de famílias socialmente mais importantes (se é que isto existe) … não haverá também o contrário? Ou, talvez a maioria dos casos, o apelido de ambos ter o mesmo “estatuto social”? E mesmo nas outras variáveis, faz sentido um estudo partir de uma premissa destas?

Em suma, isto é mais uma situação que mostra o muito que ainda há por fazer no que toca à igualdade de género e à utilização de uma linguagem inclusiva que, não só, combata a desigualdade entre homem e mulher, mas também, contribua para que os homens e as mulheres deste mundo se tornem mais pensantes e críticos. O mesmo aplica-se também aos estudos e à metodologia “científica” a utilizar. Dá mais trabalho, mas compensa.

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