#8 Carluz Belo: “Sinto Que Al Berto Me Embala No Desencanto”

Carluz Belo é um artista pop nascido na Vila de Fão, em Esposende, que aos 18 anos decidiu aprender a arte do piano e criar melodias que assim acompanharam as letras que o próprio escreveu. Por entre viagens e regressos – porque regressamos sempre ao sítio que nos estende os braços – é convidado anos mais tarde a participar no Festival da Canção. Este não foi o único festival em que participou, longe disso, destacando-se também no Festival de Música Moderna de Amares. Mas é este ano que traz um novo single e pela primeira vez deixa-se acompanhar pelas palavras do poeta Al Berto. Falámos sobre esta viagem que aqui nos trouxe, assim:

 

“O Mundo Que Nos Foge” é o culminar de um percurso musical de busca e encontro, como surgiu este primeiro interesse pela criação de canções?

Este meu primeiro single é de facto um primeiro culminar dum grande processo de descoberta interior e desejo de o partilhar com o mundo. Curiosamente, sempre me interessei por música desde miúdo, gravando de fitas VHS para cassetes áudio tudo o que eram jingles de anúncios, genéricos televisivos, músicas de desenhos animados, novelas, Eurovisão… Enfim, tive uma infância e adolescência sempre muito musical, mesmo que por vezes eu nem me apercebesse que a música estava sempre lá. Até quando visitava a casa do meu avô paterno Mário Belo, que tinha sempre a guitarra portuguesa nos seus braços. Mas o momento específico em que comecei a compor, foi aos 18, quando soube que não tinha entrado por umas décimas, no conservatório de teatro (ESTC) para estudar representação. Nesse momento parece que desbloqueei uma veia de criação musical, que nem sabia que existia.

Carluz Belo Portugal Pop

E como foram esses primeiros passos, mais focados, dentro da exploração musical? Como surgiu essa criação de ligar palavras a melodias?

Os meus primeiros passos na música estiveram quase sempre ligados ao desenvolvimento de canções originais nos vários grupos pelos quais passei; desde banda de garagem, coro de igreja, até um coro Gospel, quando fiz Erasmus em Inglaterra. A música foi curiosamente aquilo que mais me deu força, durante esse tempo em que estudei Belas Artes no Porto, num curso de design que não era efetivamente a minha vocação. Foi um percurso um pouco conturbado mas no qual a música nunca deixou de me “Luzir” ao fundo do túnel. E desde sempre que compor tem sido um processo muito natural e até terapêutico para mim. E o mais engraçado é que letra e música quase sempre me surgem em simultâneo. Claro que nem sempre acontece e muitas vezes ficam espaços em branco nas canções, que precisam de ser mais trabalhados. Na verdade, o próprio processo de composição também vai evoluindo dentro de mim e cada nova canção é sempre um novo desafio.

Um dos momentos mais emblemáticos deste percurso terá sido a participação no Festival da Canção em 2008, como aconteceu essa experiência?

Durante vários anos a RTP não teve o concurso aberto ao público e esse tempo coincidiu precisamente com a fase da minha vida em que mais vontade eu tinha de realizar esse sonho de miúdo. Por isso, naquele Outono de 2007, fartei-me de telefonar para a RTP para tentar saber como funcionava o Festival, saber se eu poderia enviar uma canção de forma espontânea, meses antes do certame, mesmo sem certezas de existir um concurso aberto a todos. E assim fiz. Meses mais tarde, quando recebi o telefonema da RTP a fazer o convite, eu nem queria acreditar! Foi uma grande surpresa, pois já tinham sido revelados nomes de produtores e intérpretes bastante conhecidos da nossa praça.

Toda a experiência foi ótima, apesar de eu me sentir um miúdo no meio de gente grande, o que de facto era verdade! Mas houve sempre bom ambiente e muito profissionalismo. Talvez se essa experiência me tivesse acontecido mais recentemente, eu a pudesse ter saboreado com outra maturidade, mas surgiu tudo no tempo certo. A grande mais valia, além duma primeira exposição pública do meu trabalho em grande escala, foi realmente o grande incentivo simbólico que essa participação teve, na minha vontade de continuar a perseguir um caminho musical com verdade.

E esse incentivo extra que a participação no Festival da Canção te deu levou-te onde musicalmente nos últimos anos?

A minha participação no Festival da Canção 2008 incentivou-me diretamente a inscrever-me numa escola de jazz, logo de seguida. Toda essa fase coincidiu com os 5 anos em que vivi em Lisboa, o que me ajudou a avançar com a ideia, também pela oferta que havia na cidade. Tornou-se claro para mim que não bastava gostar de música, ou escrever canções bonitas de forma autodidata. Era preciso estudar alguma teoria musical e ter formação musical. Mas uma formação musical que fugisse um pouco às restrições mais “clássicas” da maior parte das escolas de música. E apesar de eu não me considerar um músico de jazz, reconheço nesse tipo de escola uma maior liberdade, principalmente na forma de aprender a crescer musicalmente.

Com alguns anos de formação em Jazz e com o curso de produção musical que eu já tinha feito (antes da minha participação no Festival RTP), senti que já tinha bases mínimas para “rasgar” com muitas dessas convenções do ensino e… criar, com fidelidade ao meu eu interior. Investi a sério nas minhas “demos & maquetas” e fiz a jogada clássica: Comecei a “bater à porta” de todas as editoras e ouvi o redondo e expectável “Não” de todas elas. Doeu, mas fez parte. Estávamos em 2010 e já existiam algumas das novas pequenas editoras portuguesas, que ainda hoje estão de boa saúde. Mas também fiquei com a sensação que a minha sonoridade pop não era suficientemente alternativa para esse sector.

Este percurso mais ou menos solitário foi-me fazendo acreditar que há sempre uma razão para que as coisas aconteçam como acontecem. Por isso, o meu regresso ao Minho e à minha “Praia do Coração” (Ofir), numa atitude de fuga da cidade, fez-me recentrar-me e reencontrar-me, a seu tempo. Estávamos em 2012 eu tinha que voltar a aprender a viver no campo, banhado pelo Litoral Norte. Continuei a compor e a gravar nos anos seguintes, até sentir que era hora de voltar a abordar profissionais da área. Foi nessa demanda que conheci o produtor Pedro Saraiva, no Verão de 2016, com quem tenho estado no Porto, em “Laboratório Musical”.

E já existe algum resultado desse laboratório musical portuense que, presumo, tem acontecido no último ano?

Sim. Começámos a trabalhar no Outono de 2016 e já foi lançado aquele a que eu chamo de “meu primeiro segredo musical”. Trata-se do meu primeiro single que foi lançado em Maio, com o respetivo teledisco. Chama-se “O Mundo Que Nos Foge” e tem palavras adaptadas do poeta Al Berto, do seu livro de prosa poética “Lunário“.

 

É uma estreia para ti o uso de palavras de outra pessoa? Como surgiu a ideia de um tributo – chamemos-lhe assim – ao poeta?

Sim, é uma estreia para mim na utilização de palavras de outros artistas. A poesia do Al Berto acabou por me influenciar e mostrar novos caminhos numa fase da minha vida em que me senti perdido. Eu estava na faculdade (num curso de Belas Artes que não era a minha principal vocação) e passava o primeiro Inverno na cidade do Porto. Nessa mesma época, li o livro “Lunário” e tive as primeiras aulas de piano da minha vida. Foi uma coisa bonita e inevitável de acontecer: no momento em que acabei de ler o livro, automaticamente dei por mim a musicar estes últimos parágrafos do poeta, que são na verdade uma carta de despedida, desamor e desencanto.

Essa canção ficou “na gaveta” e nunca mais peguei nela. Até que voltei a olhar para esse mesmo tema (que foi um dos primeiros que escrevi) quase 14 anos depois! Nesse momento, depois de tantas peripécias vividas, senti que tinha que partilhar aquele meu segredo ainda meio adolescente com toda a gente! Esforcei-me por gravá-la bem, produzi-a em conjunto com o Pedro Saraiva, obtive a autorização para utilizar as palavras do poeta e gravei o respetivo teledisco em Lisboa! Não poderia estar mais feliz com o resultado final! Não só por ser o meu primeiro “segredo revelado” dum trabalho maior que aí se avizinha, mas também por poder homenagear um poeta e artista que considero genial e bastante esquecido.

Carluz Belo

Nem a propósito, estreará em breve um filme sobre o poeta. Poderemos estar a entrar numa fase de merecido reconhecimento nacional a Al Berto, o “poeta maldito”?

Estou muito curioso acerca do filme que aí vem, principalmente por revelar um lado mais luminoso do poeta: algo que talvez só os que privaram com ele, tenham conhecido. Vai com certeza fazer com que mais pessoas possam despertar para a sua magnífica obra e o possam reconhecer como o grande poeta contemporâneo que continua a ser. Apesar de eu conhecer apenas uma parte da sua escrita, sinto sempre que o Al Berto me “embala no desencanto” e isso preenche-me a alma. Foi-me também muito gratificante receber as carinhosas palavras da irmã mais nova do Al Berto. Depois de ter assistido ao teledisco deste meu single “O Mundo Que Nos Foge”, a Cristina revelou-me que se sentia alegre e que nunca tinha pensado ter vontade de dançar as palavras melancólicas do seu irmão Al Berto.

Que podemos então esperar nos próximos meses sobre o teu projecto? Onde podem as pessoas encontrar-te?

Depois de ter feito uma breve apresentação na Casa da Juventude de Esposende este Verão, volto agora em força ao estúdio do Pedro Saraiva no Porto, onde vou continuar durante alguns meses. Apesar de ser um período de trabalho muito “secreto” – ou um casulo, como eu gosto de afirmar – haverá um novo single ainda este Outono e depois teremos mais novidades para 2018. Para já, podem acompanhar a minha música aqui, os meus vídeos aqui, as minhas fotos aqui e os meus escritos aqui. Além claro, do meu Facebook, onde tenho sempre um bocadinho de tudo! Muito Obrigado & um grande abraço aos leitores e à equipa do esQrever! Luz*

 

 

Nota: Obrigado ao Carluz pelo contacto 🙂

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