Extrema-direita com vitória histórica na Alemanha: e Portugal não está imune…

Ainda não passaram três meses desde que a Alemanha finalmente aprovou em Parlamento, o Bundestag, o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Uma medida há muito discutida, sempre com o travão das políticas conservadoras da CDU, que Angela Merkel decidiu levantar e permitir ao Bundestag aprovar por maioria. A chanceler alemã teve também um papel preponderante nos passados anos no acolhimento de refugiados na Alemanha, numa altura em que a Europa se degladiava com o que fazer no meio desta crise.

Ontem, em plenas eleições legislativas, Merkel sofreu claramente destas políticas de inclusão e integração sociais e perdeu quase 10% dos votos em relação às eleições anteriores, levando-a a um governo minoritário cuja possibilidade real de coligações com partidos mais para a esquerda é uma incógnita, visto que estes também perderam uma fatia considerável dos seus votos. Os vencedores? O partido de extrema-direita, a Alternativa para Alemanha (AfD), que vai entrar pela primeira vez no Bundestag com mais de 80 (!) representantes e uma votação que quase atingiu os 13%, mais três pontos percentuais do que as previsões apontavam.

Esta AfD ganhou força como reacção às mesmas políticas de Merkel de proteção dos refugiados, querendo reclamar o país para os “seus” e prevenir a entrada de migrantes pelo uso da força, se necessário. Uma das figuras principais do partido, Björn Höcke, afirmou inclusivamente que a Alemanha devia deixar de pedir desculpa pelo seu passado nazi, enquanto chamava o monumento de Memória do Holocausto em Berlim, uma vergonha nacional.

Alice Weidel, co-líder da AfD (Alternativa para a Alemanha)

No entanto as atenções recaem para os líderes do partido, Alexander Gauland e Alice Weidel. Esta última, abertamente lésbica e com duas crianças adoptadas com a sua companheira, foi conivente com as políticas do partido e condenou a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adopção por parte das mesmas. Uma hipocrisia justificada com um ultra-nacionalismo bacoco que agora tem vindo a ganhar relevo por todo o mundo com a ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos e de Marine Le Pen em França. Protestos anti-AfD já tiveram lugar ontem em Berlim e, não coincidentemente, uma das maiores vencedoras de ontem,

Vivemos tempos verdadeiramente perigosos e alarmantes. A conquista de direitos sociais na última década, em particular por parte da população LGBT, tem avançado com uma celeridade que não é acompanhada pela mudança de mentalidades da população em geral. E este avanço aterrador da extrema-direita um pouco por todo o mundo visa exactamente a uniformização da população maioritária e uma discriminação autorizada das minorias. Todas as minorias. Todas e todos os que ameaçam a normatividade pelo direito à diferença.

No rescaldo destas eleições na Alemanha, está-se já a apontar a abstenção como uma das culpadas maiores da ascensão da AfD. Cenário que, a confirmar-se, se junta à França e Estados Unidos e confirma-se como a maior ameaça actual à democracia. O afastamento das pessoas da política não pode ser celebrado e usado como justificação para não comparecimento aquando do dever cívico porque os resultados estão aqui, à vista desarmada de todas e todos. Por cada vez que desistimos de um dos nossos votos, os extremismos ganham força, sempre com a promessa de nos retirar os direitos adquiridos ao longo das décadas pelo sangue e lágrimas daqueles que nos precederam.

No nosso país de brandos costumes, a extrema-direita, simbolizada pelo Partido Nacional Republicano (PNR), tem até agora, felizmente, mais mediatismo que expressão aquando do voto. Mas não nos deixemos iludir: existem já hoje, em plenas eleições autárquicas, sinais claros de teste das políticas de direita conservadora e nacionalista. Quando vemos slogans de campanha a defender “a nossa Lisboa”, temos de perceber efectivamente a mensagem ali vinculada. Não se trata apenas de pura demagogia na condenação do monopólio do turismo na cidade, mas também claramente uma tentativa (pouco) subtil de minorizar e colocar de lado a população de emigrantes da qual a cidade beneficia de forma evidente e à qual deve parte do seu crescimento. Um discurso nacionalista vindo, ironicamente, de alguém nascido em Angola. Como tal dia 1 de Outubro somos chamados às mesas de voto e devemos, mais que nunca, a elas nos dirigir. Não fosse suficiente termos um papel ativo na escolha dos nossos representantes locais é também igualmente importante afirmar a nossa democracia na defesa dos direitos sociais que fomos tão dolorosamente conquistando. Porque a apatia e a displicência no ato eleitoral estão a ter repercussões claras na manutenção desses direitos. É tempo de acordar porque corremos o risco de perecer durante um sono profundo.

Fontes: 1, 2, 3

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