#8 Nøun: “Sair do armário deu-me um grande ano de aprendizagem e superação”

Em vésperas da sua participação no primeiro Funchal Pride, voltámos à conversa com Nøun, um jovem artista oriundo da Madeira que, para além do lançamento também do seu primeiro EP, Blue Boy, nos contou o quão mudou a sua vida, pessoal e artística, nos últimos meses desde a última vez que com ele conversámos. Vale a pena ler:

Estivemos à conversa no início do ano aquando do lançamento da tua demo Skin. O que aconteceu neste intervalo de tempo? Em que mudou o Nøun nestes meses?

Estes meses têm sido de um grande crescimento pessoal e profissional. Após o lançamento da demo de Skin em Dezembro do ano passado, decidi que o cerne do meu trabalho não podia ficar por aí. Então comecei a planear o que seria a minha próxima meta até ao final deste ano – lançar um EP. Desde então tenho vindo a aprofundar os meus conhecimentos em produção (que ainda são muito limitados, diga-se de passagem) e escrevi duas letras – Just Friends e In This Universe – que mais tarde vim a juntar a três outras faixas que já tinha escrito anteriormente – Blue, The Stars e Skin – para dar início ao que viria a ser Blue Boy, o meu primeiro EP.

Ao ouvir-se Blue Boy – e acompanhando o teu percurso desde há uns anos no Youtube – nota-se uma clara evolução quer em termos de letras quer de temática. Esse crescimento profissional de que falas será reflexo de um artista – de um rapaz – que se apresenta agora mais livremente perante as pessoas?

Sem dúvida. A pessoa que era há quatro anos não é a mesma que sou hoje. A essência mantém-se, mas o à-vontade para cantar e escrever sobre aquilo que quero é totalmente diferente. Este ano, em particular, tem sido um grande ano de aprendizagem e superação, e ter saído do armário para a minha família, há dois meses, foi um dos acontecimentos que me permitiu progredir nesse sentido.

Esse momento marca qualquer pessoa e lutamos para que a sociedade evolua de forma a que todas as pessoas se possam assumir sem as represálias do passado. Como foi esse teu passo em termos de expectativa, para ti e em relação às restantes pessoas?

Foi um peso que me saiu de cima dos ombros, e a reação das pessoas no geral foi bastante positiva. E o melhor disto tudo, é que agora posso cantar sobre aquilo que quero sem ter de me preocupar se dou a entender isto ou aquilo.

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Algum episódio que possas partilhar?

Uma das mensagens que mais me tocou, em particular, foi a mensagem que o meu pai me deixou na manhã após o meu coming out. Foi bom saber que podia contar com o seu apoio e amor incondicionais ainda que estas revelações levem o seu tempo até serem digeridas por completo.

Agora que és pessoal e artisticamente livre, qual a tua prioridade para os próximos meses? Algum projeto em mente?

A minha prioridade neste momento é continuar a promover o álbum, o que inclui o possível lançamento de um remix e algumas atuações ao vivo. Mas quero levar as coisas com calma, e só tenciono apresentar-me perante uma gravadora quando tiver atingido alguns dos meus objetivos. Então vou aproveitar os próximos meses para continuar a escrever, melhorar as minhas skills de produção e piano, e quem sabe tentar enviar algumas demos a alguns dos artistas que admiro – *cough* Troye Sivan *cough* – na esperança de quererem beneficiar disso.

Precisamente o Troye Sivan é um dos artistas que mais marcaram esta nova geração de artistas pop que se assumem Queer e alcançam públicos mundiais. Esta é uma porta nova ou uma que se volta a abrir? Pergunto, no fundo, se vês diferenças entre os ícones Queer do passado e os do presente…

Não acho que existam grandes discrepâncias entre os artistas Queer do presente e os artistas Queer do passado. Acho que a maior diferença está nos métodos que os artistas de hoje utilizam para passarem as suas mensagens. Mas tem sido assim desde que as redes sociais passaram a ter um papel significativo na transmissão de conteúdos e até mesmo no que toca aos coming out. Ainda me lembro, quando era mais novo, de procurar por artistas Queer (assumidos) no mundo da música, e contavam-se pelos dedos os resultados (Elton John, George Michael, Boy George, Ricky Martin, e pouco mais). Hoje em dia essa lista é muito maior (Troye Sivan, Olly Alexander, Sam Smith, Adam Lambert, Perfume Genius, Tegan and Sara, Greyson Chance, Frank Ocean, Mary Lambert, etc.), então acho que se tornou mais fácil para os jovens +LGBT encontrarem um artista com o qual se identifiquem e também defenda a causa.

Esta nova visibilidade ajuda cada pessoa a encontrar a sua própria identidade. Em estilo de desafio, que procuras dizer e mostrar às pessoas que te leiam e escutem?

Acima de tudo procuro que as pessoas se identifiquem e reflictam sobre as emoções e os sentimentos que pretendo transmitir com o meu trabalho. Em Blue Boy, por exemplo, não há nenhuma música que não possua uma mensagem. Então existem alguns “temas” que já considero comuns e recorrentes nas músicas que escrevo, e neste EP em particular: o amor/desamor, as esperanças/falsas esperanças, os desejos, as obsessões, e as expectativas que se criam quando se está apaixonado.

Alguma canção exemplo disso que nos querias falar?

O melhor presente que posso dar a alguém é a minha música. Então não gosto que a desvalorizem. Mas infelizmente, foi isso que aconteceu com Just Friends. Escrevi essa canção quando estava a atravessar uma fase difícil e apesar de a considerar uma música positiva (por terminar em aberto, com o pedido de uma última oportunidade) é uma canção que ainda mexe muito comigo. Just Friends está longe de ser a minha música favorita do álbum, mas o que a torna tão especial é a honestidade e a fragilidade que nela estão embutidas. É uma carta de amor. É uma carta de amor em aberto para a qual nunca obtive resposta, e é isso que me deixa triste, saber que a pessoa que me inspirou a escrevê-la nem se deu ao trabalho de voltar a falar comigo.

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Foi recentemente anunciado que participarás no primeiro Funchal Pride, como vives a ligação à tua terra-natal? Que significa para ti este Pride em concreto?

A minha participação neste Pride tem um significado muito especial porque será a primeira vez que vou atuar em público após o hiato de um ano. O facto deste evento se realizar na Madeira, só torna a ocasião ainda mais especial, porque acredito que este será um marco histórico no combate à homofobia na ilha. Os níveis de intolerância e discriminação na Madeira ainda são muito altos para uma ilha tão pequena, daí achar de extrema importância a participação de todos nesta iniciativa. Quanto à minha atuação, vou tentar me focar no que realmente importa, celebrar a diversidade e cantar à minha maneira, de uma forma simples, prática e descontraída.

E em modos de despedida, queres fazer um convite ou desafio a quem nos lê?

Sim. Como último pedido gostava de vos convidar a todos a ouvirem o meu EP e a deixarem o vosso feedback nas minhas redes sociais para que eu possa saber a vossa opinião em relação às minhas músicas. E queria também aproveitar para agradecer à equipa do esQrever e aos vossos leitores por continuarem a “apostar” em mim e a serem sempre tão atenciosos. Vocês são uma das razões pela qual continuo a trabalhar e a persistir nos meus sonhos. Obrigado!

 

 

Nota: Obrigado ao Nøun pelo contacto 🙂

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