A transgressão do desejo e da paixão em Call Me By Your Name

“Os nossos corações e os nossos corpos são-nos dados apenas uma vez. A maioria de nós não consegue evitar viver como se duas vidas se tratassem. Uma a maqueta, outra a versão final, com todas as outras versões pelo meio. Mas há apenas uma e, antes que nos apercebamos, o coração fica exausto. E o corpo chega a um ponto em que ninguém olha para ele, quanto mais querer dele se aproximar… Neste momento há tristeza. Não invejo a dor. Mas invejo-te a dor”

Este discurso parte de um pai para um filho, num momento em que o último está de coração inequivocamente partido. A dura melancolia do momento entra em suave mas assombrosa colisão com a tremenda sensação de que viver, plenamente, é isso mesmo. Deixar sentir. Deixar amar. Deixar sofrer.

Aquelas são algumas das poucas palavras que habitam “Call Me By Your Name“, o novo filme de Luca Guadagnino que está a fazer ondas pelo mundo inteiro, um sucesso tremendo junto da crítica e que ameaça ser um dos mais falados durante a época de galardões de cinema que se aproxima. Baseada no romance homónimo de André Aciman e transposto para o ecrã pelo lendário James Ivory, tem lugar numa villa italiana na Lombardia durante o verão de 1983. Nela vivem os Pearlman, família encabeçada por um professor americano e investigador de história de arte e a um académica italiana do mundo da literatura. O protagonista é o filho de 17 anos do casal, Elio, um jovem músico pródigo que vê a paz do calor do verão ameaçada pela chegada de um aluno do seu pai, o americano Oliver, que desperta nele sentimentos conflituosos.

A premissa leva a crer que se trata de mais uma história de coming of age, uma chegada abrupta à vida adulta por situações antagónicas que desafiam a continuidade da inocência. Mas, no seu âmago, é um manifesto quase utópico sobre viver sem limitações, sejam elas impostas por forças internas ou externas. E nesse poético manifesto surge uma das mais honestas e belas histórias de enamoramento inebriante que o cinema moderno tem visto.

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No cinema de emoções de cores saturadas de Luca Guadagnino a imagem e a sua composição são predominantes a tudo. E ele usa-a de forma a seduzir o espectador a morar nela em lugar de vislumbrá-la. E nunca o desejo foi tão palpável como aqui. A perfeição onírica dos corpos suados, prostrados ao calor dos longos dias de verão em que apenas se ouvem insectos e o respingar fugaz da água que deles cai, evoca um museu em que as esculturas estão lá para ser tocadas. E sentidas. E nesse ato interiorizar a experiência de uma forma tão inebriante como as imagens evocadas. Nada aqui é explícito. Não por contenção mas porque a luxúria reside no sentir a relva quente nos pés nus, no colocar de uns óculos de sol que escorregam imediatamente no nariz húmido, no tocar desafiador de uma peça de Bach, no quebrar lânguido de um ovo mal cozido. Estes momentos são tão carregados de erotismo quanto as cenas de sexo propriamente ditas.

É neste mundo intoxicante de hipersensibilidade que Elio vai descobrindo Oliver. Inicialmente despreza-o. Aquela forma americana despreocupada de se despedir com um rude “Later!” que sai de um Adónis que não parece ver nada nele senão o filho do seu chefe. Continua a alimentar a curiosidade sexual da sua amiga de infância enquanto vê Oliver dividir o interesse entre ele e uma outra rapariga da aldeia. Um jogo de atracção que ele lidera e muitas vezes impõe num homem sete anos mais velho e cujas intenções para com ele são envoltas numa aura de mistério, repulsa e sedução. E enquanto a sua confiança se desenvolve, também se torna eminente o seu desejo por Oliver. Que, apesar do medo – da situação e do armário – reciproca.

À medida que Elio e Oliver se perdem um no outro, sem racionalidade nem antagonismo, percebemos que não se trata de apenas mais uma história de amor que, por acaso, acontece entre pessoas do mesmo sexo. Há algo de verdadeiramente transgressor na forma como a paixão é aqui representada, simultaneamente com a aparência da intangibilidade e o assombro da realidade. Não me consigo recordar de outro filme que transmita desta forma o arrebatamento de um primeiro verdadeiro amor, aquele que acabar por definir quem vamos ser a seguir, e isso é já dizer algo.

Timothée Chalamet é claramente a revelação do ano. O seu retrato de Elio é completo e inebriante. Desde os momentos de descoberta do seu eu e do seu corpo incitados pela idolatração da figura de Oliver aos em que a sua bravura da inocência é minada por uma tristeza açambarcadora, a experiência pelos seus olhos é total e transformadora. Atrevo-me a dizer que os últimos minutos do filme são dos mais poderosos momentos interpretativos por qualquer ator em cinema. Mas sem Armie Hammer tal arrebatamento não existia e, naquela que é facilmente a sua melhor interpretação, navega da arrogância altiva para um deslubramento desarmante sem jamais parecer forçado. Faz parte da viagem. É a viagem. O nome do filme vem daí, do encontrar de nós próprios no outro e nele querer viver.

Regresso ao início deste texto para falar novamente da cena que – aparte da do pêssego – provavelmente mais rios de tinta fará correr. É protagonizada por Michael Stuhlbarg de forma magistral e é talvez a que mais vai penetrar a sensibilidade dos espectadores, especialmente das pessoas LGBT. O armário, seja ele qual for, é a desvirtuação da vida que não tivemos a força para viver como nossa. Na utopia desconcertante deste desarme de um pai para com um filho surge uma verdade que se torna universal e palpável. Da iminência de viver. Sem armadura ou carapaça. Sentir sem duvidar. Amar sem medo. Do êxtase. E de o perder. Porque a derrota só vive na oposição. “Call Me By Your Name” não é só o filme de 2017. É um filme das nossas vidas.

Em antestreia no LEFFEST e com estreia marcada em Portugal a 18 de Janeiro de 2018

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