Como Vítimas Responsáveis

Anthony Rapp quebrou, por fim, o silêncio desde que acusou Kevin Spacey de abuso sexual e fê-lo para denunciar a pressão de inúmeros comentários que tem recebido nas últimas semanas. Ele explica que a maioria deles são positivos e de apoio, mas há outros que o responsabilizam pelo precoce fim da série House Of Cards. O que nos leva à questão, é Rapp uma vítima responsável?

A sexta temporada de House of Cards foi suspendida. Pessoas reais estão a ser afectadas por esta acusação de há 3 décadas. O elenco e staff têm agora que encontrar novos empregos para alimentar as suas famílias e pagar as suas contas. Imagino que seja isto que o Sr. Rapp deseja.

Obrigado por teres cancelado a minha série favorita, espero que ao menos o Spacey tenha enfiado um dedo no teu cu, falhado!

Entre insultos e culpabilizações pelo fim de uma série ou de ter estragado a imagem de um reputado ator, existe aqui uma perversa inversão da responsabilidade e esse é o busílis da questão. A confirmarem-se as acusações, é sobre Spacey que cabe a responsabilidade pelo fim precipitado da série e não sobre a alegada vítima por esta ter feito a denúncia.

Esta acusação é da mais pura irresponsabilidade perante uma pessoa em situação delicada e fragilizada. Ou, quanto muito, um simples gesto de puro egoísmo. Estão a exigir que uma série de televisão prossiga, independentemente dos actos cometidos por quem nela trabalha.

Nalgumas estas acusações o assédio foi vivido inclusive em ambiente laboral. É também precisamente o caso de Jeffrey Tambor, o aclamado ator que interpreta – brilhantemente, diga-se – Maura Pfefferman, uma mulher trans em Transparent. Depois de acusado de assédio por duas atrizes, Trace Lysette e Van Barnes – duas atrizes trans, note-se – Tambor decidiu sair da série.

Trace Lysette transparent trans abuso assédio sexual vítima
Alexandra Billings e Trace Lysette

E o mesmo tipo de acusações, tais como as de acima representadas, se fizeram notar. Coitado de Tambor, no papel da sua vida agora obrigado a afastar-se por causa das acusações que sofreu também nas últimas semanas. Não, Tambor viu-se obrigado a afastar-se – e bem – por causa dos atos – negados – que fez sobre duas pessoas, duas colegas e confirmado um dos episódios por uma terceira atriz, Alexandra Billings. Todo este quadro assume contornos macabros pelas vítimas serem precisamente mulheres trans, tal como a personagem que desempenhou e deu vida em várias temporadas de Transparent.

Ainda que estas situações dificilmente se provarão, será sobre ele e Spacey que cai a responsabilidade de não vermos mais personagens como Ali Pfefferman (Gaby Hoffmann) ou Claire Underwood (Robin Wright) no pequeno ecrã, não – nunca – sobre quem é efetivamente vítima de assédio, abuso ou violação e decidiu denunciá-la.

Sim, a presunção de inocência é um pilar da democracia e estes são de complicada punição em tribunal, quase sempre sendo um caso de a palavra de alguém contra a de outrem, sendo que uma delas estará, mais um vez, em posição de poder. E quem decide quebrar o silêncio tem plena consciência dessa desproporcionalidade. Quem decide quebrar o silêncio tem plena consciência que, por princípio, será questionada a sua história, será desvalorizada, odiada, humilhada, negada. E, no entanto, fê-lo. E esse é um factor-chave.

Existe aqui uma linha ténue e um equilíbrio entre a voz da presumida vítima e a presunção de inocência de outra pessoa, mesmo que a maioria dos casos não tenha consequências nos tribunais. Porque, dado o estigma social, a esmagadora maioria das vítimas levam anos – décadas até – a denunciar o que lhes aconteceu. E, no entanto, aquelas que decidem denunciar o abuso que sofreram no passado fazem-no numa posição de consciência. Porque sabem que vão duvidar delas, porque sabem que não têm um caso para levar a tribunal, porque sabem que a sensação de justiça dificilmente será atingida na plenitude.

Não entrando, pois, numa lógica de caça e vingança, importa perceber se as acusações são credíveis. Isso poderá passar por entender o que move a denúncia ou se há alguma confirmação de outra pessoa – como, aliás, no caso de Tambor. E aí, sim, tomar as devidas decisões que protejam a vítima e potenciais novas vítimas. Se isso passar por cancelar uma série de sucesso por falta de condições para a realização da mesma, que seja. Para que a exigência do silêncio não alimente o estigma e não nos faça passar, ao fim de contas, por cúmplices.

 

Nota: Nem a propósito, a Time Magazine acabou de divulgar a sua capa de Pessoa Do Ano:

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