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Visíveis À Mesa De Natal

A época natalícia, sejamos crentes ou não, é uma altura de encontros e reencontros familiares. Fazemos questão de estar com aquelas pessoas que, de alguma forma, nos são mais próximas. É uma altura de comunhão e de partilha. Mas nem sempre assim é. Quantas vezes colocamos máscaras, omitimos ou mentimos para ‘não estragar o ambiente’ do jantar de consoada? Quantas vezes nos vemos obrigados a tornarmo-nos invisíveis num jantar de Natal?

Quer seja num jantar de colegas, quer seja num jantar familiar, quantas vezes cedemos nós à regra implícita que, especialmente na quadra natalícia, há tópicos que não podem ser tocados? E assim deixamos os nossos namorados e namoradas para mais tarde, porque, ao contrário do bolo rei ou rainha, não ficavam bem naquela mesa. Comemos e bebemos rodeados de pessoas que nem sempre têm a consciência plena do que está na realidade a acontecer. A nós e a elas. Estamos ali mas não por inteiro. Com elas, mas só um pedaço. Temos o pensamento fixado noutra pessoa que ali não está. E devia. “Será que nos odeia?”; “Será que está a pensar em mim neste momento?”; “Será que sente falta de mim como eu sinto falta dela?” Mais uma garfada no bacalhau ou no polvo e seguimos noite fora. O telemóvel por perto, qual fio condutor invisível que nos mantém por perto.

Seguem-se as rabanadas e os borrachos e, dentada a dentada, saboreamos tudo e mais alguma coisa num excesso de comida que apenas tenta compensar a ausência. A tua. A conversa de circunstância soa a calvário, não pela conversa em si, mas precisamente pela circunstância a que nos impõem ou – quantas vezes assim não é? – nos impomos a nós mesmas. Porque é tradição, porque não temos forças suficientes para combater o folclore que assistimos desde crianças.

Levamos o tempo a tentar perceber se a nossa melhor opção é abandonar o barco – neste caso a mesa – ou mudar as coisas por dentro. Se conseguimos sequer fazer uma ou outra, escapar-lhe ou moldá-la. E se lhe escapamos, fugimos para onde?

Nesta época festiva, não nos deixemos escapar, pois, de ser. Livres e orgulhosas. Não nos deixemos escapar de rodear e sermos rodeados por quem nos ama. Por inteiro. Porque o Amor só é vivido na plenitude quando partilhado de forma visível. E, sim, livre e orgulhosa.

Boas Festas.

Fonte: Imagem.

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2 Comments »

  1. Talvez faça parte do nosso crescimento individual entender as situações que exigem compromissos (com os outros, com o que existe); e aceder aos compromissos exige (quase sempre) uma restrição (auto-restrição) à nossa liberdade. Talvez seja utópico (também para heterossexuais) acreditar que possamos ser “livres” (em absoluto). Mas cada caso é um caso; e cada um em cada sua família há-de viver e gerir (mal ou bem) o seu caso. [Para não ser demasiado abstracto: aconteceu-me, em uma fase da vida em que não tinha a minha família perto, passar o Natal em casa da família do meu namorado. Mas já lá vai bem uma dezena de anos.] Bom Natal e Bom Ano de 2018.

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