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Está prestes a arrancar o Queer Lisboa 22

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Foram hoje desvendados os último pormenores da programação do Queer Lisboa 22, que vai decorrer nos Cinemas São Jorge entre 14 e 22 de Setembro. Como já noticiámos, a  sessão de abertura verá a exibição do filme Diamantino de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt e a de encerramento será a cabo de Bixa Travesty de Claudia Priscilla e Kiko Goifman.

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Bright Eyes (1986) de Stuart Marshall

O foco temático principal será o VIH e, numa altura em que muitas camadas mais jovens desacreditam a problemática atual do vírus e os casos continuam a aumentar, é importante dar a conhecer as agruras passadas no anos 80 e 90 em que o diagnóstico era também uma sentença de morte. Por isso o Queer Lisboa apresenta um ciclo, que se alarga à Cinemateca Portuguesa, com filmes que trilham a história do VIH e que incluem Kids de Larry Clark e Bright Eyes de Stuart Marshall, que em 1986 foi o primeiro documentário a retratar o tema da SIDA.

Outro foco temático serão também as migrações, com filmes a retratar a vida e os embates culturais daqueles que saem dos seus países de origem para sobreviver e que repercussões tem essa mudança na edificação das suas personalidades enquanto pessoas queer. Terão lugar também destaques à moda e as habituais secções Panorama – destaque para Disobedience de Sebastián Lello com Rachel Weisz Rachel McAdams, Hard Nights – com o regresso do cineasta Bruce LaBruce, Queer Pop – com destaque dado a Janelle Monáe e à Eurovisão, bem como uma série de debates, workshops e claro, festas espalhadas pela cidade de Lisboa. Por isso consultem a programação completa em QueerLisboa.Pt

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Disobedience (2017) de Sebastián Lello

 

 

Press release completo:

O Queer Lisboa – Festival Internacional de Cinema Queer realiza-se de 14 a 22 de setembro no Cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa, com um total de 100 filmes de 32 países

 

A 22.ª edição do Queer Lisboa é porventura uma das mais comprometidas socialmente, politicamente, mas também culturalmente, da sua história. O momento que atravessa a cultura queer, de um crescente experimentalismo, de um repensar da sua identidade e das suas fronteiras de intervenção, parecem significar um novo fôlego na procura de novos conceitos e expressões, mais próximos das reais vivências dos indivíduos e comunidades queer, hoje. É sob esse compromisso que este ano o festival assume as problemáticas associadas ao VIH/sida como um dos temas centrais da sua programação, dando a conhecer o importante cinema que respondeu à epidemia nas suas origens, através do ciclo “O vírus-cinema: cinema queer e VIH/sida”, que dá nome também a um livro que reúne um conjunto de ensaios de diversos autores, assim como uma exposição de novíssimos artistas, de nome “O vírus”. Por outro lado, e transversal à programação das várias secções do Queer Lisboa 22, as complexas questões ligadas às migrações dominam uma parte importante da cinematografia aqui presente.
 
Dos 32 países presentes, os EUA são o mais representado, com 27 filmes, presentes sobretudo no programa “O vírus-cinema: cinema queer e VIH/sida”. Segue-se o Brasil, com uma expressiva presença de 15 filmes; a França com 14 e o Reino Unido com 10 filmes. Um total de 8 filmes compõem a presença portuguesa no Festival. O Queer Lisboa 22 é financiado pela Câmara Municipal de Lisboa / EGEAC, pelo ICA – Instituto do Cinema e do Audiovisual, e um conjunto de outros apoios públicos e privados, de entre os quais a ViiV Healthcare e a Absolut. O Queer Lisboa 22 conta com um financiamento direto na ordem dos 115.000€ e receitas estimadas na ordem dos 20.000€, perfazendo um total de 135.000€ orçamentados para o Queer Lisboa 22.
 
Na presente edição, temas como as migrações, drogas, diferentes expressões religiosas, o pós-porno, ou problemáticas específicas ligadas aos indivíduos intersexo, transgéneros, ou as novas realidades virtuais, dominam as competições do Queer Lisboa 22, a par dos temas sempre clássicos da descoberta da sexualidade, do feminismo ou das revisitações de figuras e acontecimentos históricos da cultura queer.
 

O Júri da Competição de Longas-Metragens é composto pela atriz Leonor Silveira, pelo ensaísta francês Didier Roth-Bettoni e pelo autor e comediante Hugo van der Ding. Um total de oito filmes fazem parte desta competição: And Breathe Normally, de Ísold Uggadóttir, narra-nos o encontro entre uma refugiada africana, retida na Islândia quando tentava ir para o Canadá, e uma mãe com um misterioso passado; com estreia europeia na passada edição do Festival de Cinema de Roterdão, Azougue Nazaré, de Tiago Melo, transporta-nos ao interior pernambucano e ao fascinante universo do Maracatu Cambinda Brasileira, o mais antigo maracatu rural do Brasil; Blue my Mind, de Lisa Brühlmann é uma inusitada história de uma adolescente, cujas alterações no corpo não são bem iguais às das outras raparigas; com ação passada na cidade-fronteira de Tijuana, Los Días Más Oscuros de Nosotras, de Astrid Rondero, é uma negra ficção sobre o regresso de Ana, arquiteta, à sua cidade-natal; Girl, de Lukas Dhont, trata-se de um impressionante retrato de uma rapariga trans, Lara, que tem de conjugar as mudanças do seu corpo devido à redesignação sexual, com as exigências físicas do treino para bailarina profissional; com estreia na passada edição da Berlinale, Marilyn, de Martín Rodríguez Redondo – que estará em Lisboa para apresentar o seu filme -, é um mergulho numa fechada comunidade rural argentina, dominada pela violência física e psicológica, onde um rapaz procura ainda assim viver a sua identidade de género; filme-sensação do último Festival de Cannes, Sauvage é a estreia na longa-metragem de Camille Vidal-Naquet, magnificamente protagonizada por Félix Maritaud, que interpreta Léo, um trabalhador do sexo, toxicodependente; e por fim, está de regresso ao Queer Lisboa o cinema da dupla brasileira Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, com o seu mais recente Tinta Bruta, sobre o estranho choque entre a realidade virtual e a vida real, difícil de gerir pelo seu protagonista, Pedro, que faz dinheiro através de espetáculos na webcam. A competição atribui um prémio monetário no valor de 1.000€ ao melhor filme, assim como um prémio de menção à melhor atriz e ao melhor ator.

O Júri da Competição de Documentários é este ano composto pela programadora turca Esra Özban, pela realizadora Margarida Leitão, e por Rui Filipe Oliveira, produtor da RTP. Fazem parte da competição oito títulos: depois de terem arrecadado o prémio do público o ano passado no Queer Lisboa, com Entre os Homens de Bem, Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros estreiam agora Cartas para um Ladrão de Livros, onde acompanhamos a vida de Laéssio, uma figura marginal que fez do roubo de obras de arte a sua vida; Entre Deux Sexes, de Régine Abadia é um despudorado e irreverente documentário sobre dois indivíduos intersexo, que de forma imaginativa fala sobre as diferentes problemáticas que enfrentam; contemplativo e visualmente poderoso, Los Leones, de André Lage, passa-se na ilha argentina de Três Bocas onde o realizador acompanha Raúl e Mariana, uma mulher trans, absorvidos na sua reclusão; Lunàdigas – ovvero delle Donne senza Figli, realizado por Nicoletta Nesler e Marilisa Piga – e que conta com a presença de Nesler em Lisboa -, é uma lúdica mas séria abordagem ao tema das mulheres que não querem ter filhos e nas implicações que essa decisão muitas vezes acarreta; outro realizador cuja obra o Queer Lisboa tem acompanhado de perto é Martín Farina, do qual apresentamos Mujer Nómade, uma magnífica encenação sobre a vida e obra da polémica filósofa argentina Esther Díaz, que serviu de inspiração ao movimento pós-porno; Room for a Man é um documentário na primeira pessoa do realizador libanês Anthony Chidiac, que aborda questões de identidade e migrações, reflexões construídas entre as quatro paredes do seu quarto num imaginativo dispositivo; um mergulho nas eletrizantes festas homónimas na Los Angeles dos anos 1980, Shakedown, de Leilah Weinraub reúne um impressionante acervo visual que reconstitui este universo underground da comunidade afro-americana e lésbica; por fim, o realizador nova-iorquino Jordan Schiele estará em Lisboa para apresentar o seu The Silk and the Flame, um belíssimo retrato a preto e branco de Yao, um jovem chinês, gay, que vai visitar a família durante o Ano Novo Chinês. O prémio de melhor documentário no valor de 3.000€ é atribuído pela RTP2, pela compra dos direitos de exibição do filme.

O Júri da Competição Queer Art, composto pelo ator Ricardo Teixeira, pela jornalista espanhola Paula Arantzazu Ruiz e por Victor dos Reis, Presidente da Faculdade de Belas Artes de Lisboa, terá a seu cargo premiar um dos oito filmes que compõem este programa, dedicado a linguagens mais experimentais: Escape from Rented Island: the Lost Paradise of Jack Smith é um “não-documentário” assinado por Jerry Tartaglia, que homenageia a obra e o pensamento de uma das mais importantes figuras do underground norte-americano; passado quase inteiramente no interior do bar do mesmo nome, Inferninho, de Guto Parente e Pedro Diogenes – presentes no festival -, explora o sentido de comunidade ameaçado pela gentrificação, sobre um fundo teatral; os Jogos Olímpicos de Inverno de 2010, em Vancouver, são o cenário para Luk’Luk’I, de Wayne Wapeemukwa, um retrato desencantado e poético sobre aqueles que se viram ainda mais marginalizados pela realização do evento; Martyr, de Mazen Khaled, é uma muito original alegoria homoerótica sobre o tema da morte, rodado na cidade de Beirute; a atriz e realizadora de culto brasileira, ligada ao movimento do Cinema Marginal, Helena Ignez estará em Lisboa para apresentar o seu mais recente filme, A Moça do Calendário, uma fragmentada crítica social ao Brasil dos dias de hoje; com cenário no bairro do Pina, no Recife, mais uma presença do cinema brasileiro no Queer Lisboa 22 é Superpina, de Jean Santos, um livre e arrojado filme sobre a procura do “amor primordial”; ensaio-visual feito de fragmentos de filmes australianos, crítica colonial e sátira política de eco-terror, Terror Nullius, dos Soda_Jerk é sem dúvida uma das grandes surpresas da edição deste ano do festival; por fim, num delicado registo intimista, Mònica Rovira revisita a sua relação com Sarai, em Ver a una Mujer. A presença de Mònica Rovira em Lisboa, assim como a de Paula Arantzazu Ruiz e a exibição dos filmes Ver a Una Mujer e das curtas Galatée a l’infini e Nexos, foram possíveis graças ao apoio do Programa de Internacionalización de la Cultura Española (PICE) da Acción Cultural Española (AC/E) na sua modalidade de “Movilidad”. O prémio de melhor filme do Queer Art, no valor de 1.000€, é atribuído pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa.

A Competição de Curtas-Metragens tem este ano como Júri a atriz Maria Leite, o realizador britânico Rob Eagle e o artista plástico Thomas Mendonça. Ao todo, 22 filmes compõem a competição, onde se destacam obras como Et in Arcadia Ego, de Sam Ashby, um ensaio sobre locais de engate londrinos, entretanto fechados; Evidentiary Bodies, a mais recente curta da consagrada realizadora experimental norte-americana, Barbara Hammer; Os Motivos de Reinaldo, onde Ricardo Vieira Lisboa constrói um ensaio a partir de imagens de dois filmes de 1927 do realizador português Reinaldo Ferreira; ou Weed Killer, de Patrick Staff, uma reflexão existencial sobre os efeitos da quimioterapia. Já premiada no Queer Lisboa, a realizadora brasileira Carolina Markowicz, estará no festival para apresentar O Órfão, recentemente estreado em Cannes, assim como o realizador sueco Jerry Carlsson, para apresentar Shadow Animals. O prémio de melhor curta-metragem, no valor de 1.500€, é atribuído pela RTP2, pela compra dos direitos de exibição do filme.

O Júri da Competição “In My Shorts” de filmes de escolas de cinema europeias é composto pela atriz Ágata Pinho, por Fernando Galrito, diretor da Monstra, e por Marta Fernandes, distribuidora da Midas Filmes. Concorrem 10 títulos a esta competição, de escolas tão diversas como a London Film School, a Escola de Cinema e TV da Academia de Artes Performáticas de Praga, a Universidade Autónoma de Barcelona, ou a Le Fresnoy. O júri realizará ainda uma masterclass para estudantes de cinema e público em geral. O prémio de melhor filme é atribuído pela Much Underwear, no valor de 400€ em equipamento vídeo.

Os movimentos migratórios e o que eles implicam em termos identitários, os diferentes olhares entre ocidente e oriente, diferentes conceitos do que é ser-se queer, alimentam e encontram lugar de reflexão em muito do cinema de anos recentes. Esta edição do Queer Lisboa reúne um conjunto desses títulos, que permitem uma reflexão sobre estes temas. Além de filmes como And Breathe Normally, Room for a Man, ou Martyr, que integram as competições, o Panorama Special Focus complementa esta presença com filmes como Burka Songs 2.0, de Hanna Högstedt, um ensaio autorreflexivo sobre as leis francesas de restrição do uso da burka; ou Apricot Groves, filme arménio de Pouria Heidary Oureh, que dará lugar a um Debate a seguir à sessão, com a presença da programadora Esra Özban. Fazem também parte deste programa um conjunto de curtas-metragens, de entre as quais Sewing Borders, de Mohamad Hafeda, uma imaginativa abordagem de alguns residentes de Beirute a noções de fronteiras espaciais, temporais e históricas. Ainda, em colaboração com o festival Olhares do Mediterrâneo, a ter lugar de 27 a 30 de setembro no Cinema São Jorge, terá lugar uma sessão conjunta no dia 29 de setembro, às 16h30, na Sala 3, do documentário Mr. Gay Syria, da realizadora Ayse Toprak.

A par da exibição da já anunciada ficção lésbica Disobedience, realizada por Sebastián Lelio e protagonizada por Rachel Weisz, Rachel McAdams e Alessandro Nivola, a secção Panorama deste ano acolhe ainda L’Amour Debout, de Michaël Dacheux, sobre o reencontro de dois jovens que agora vivem em Paris e tentam cada um perceber o seu caminho, depois da separação. Em sessão especial, o Queer Lisboa reúne três das mais importantes curtas-metragens queer portuguesas numa única sessão: Anjo, de Miguel Nunes; Flores, de Jorge Jácome; e Self Destructive Boys, de André Santos e Marco Leão.

O Queer Pop apresentará na sua primeira sessão um programa dedicado a Janelle Monáe, que, depois de ter explorado em “The ArchAndroid” e “The Electric Lady” momentos de um ciclo maior ao qual chamou “Metropolis”, e de ter experimentado vários projetos de cinema e TV, apresentou em 2018 o álbum “Dirty Computer”, cujas canções serviram o seu projeto audiovisual mais ambicioso. Já a segunda sessão será dedicada à Eurovisão, um Festival que, nascido em 1956, tem hoje uma história que, entre canções, gentes e factos, traduz, de certa forma a evolução política, social e musical da Europa. O camp habita há muito a história eurovisiva, mas depois da vitória de Dana International em 1998 a cultura queer definiu ali um espaço que conquistou então outra visibilidade e novos significados. Em complemento a esta sessão, será ainda exibido o documentário Punk Voyage, de Jukka Kärkkäinen e J-P Passi, sobre a banda finlandesa Pertti Kurikan Nimipäivät (PKN).

Nas Hard Nights, o regresso do cinema de dois realizadores, já anteriormente convidados do festival e cuja obra temos acompanhado: Bruce LaBruce, com o seu It is not the Pornographer that is Perverse…, um conjunto de quatro vinhetas interligadas, maioritariamente passadas em Madrid e protagonizadas por Colby Keller; e Émilie Jouvet, com My Body my Rules, um filme-performance que pretende dar voz e imagens a pessoas cujo corpo ou sexualidade são vistos como incomuns.

Produtor e realizador de documentários, áudio e realidade virtual, Rob Eagle dará um Workshop com o título Vidas queer no contar de histórias interativo. O Workshop, gratuito e aberto a todos os interessados, oferece uma perspetiva alargada das ferramentas à nossa disposição para contar histórias de vidas queer nos media interativos para além do cinema tradicional e sobre o que podemos construir sozinhos e com os recursos disponíveis em Lisboa.

De regresso ao Queer Lisboa está o dramaturgo e encenador André Murraças, para a apresentação e lançamento do livro Queerquivo – arquivo LGBT português, um novo arquivo LGBT português que nasceu da falta de registo de vidas conhecidas ou anónimas, e ligadas ao universo LGBT do nosso país. São quase cinquenta os textos escritos por diversas personalidades sobre aquelas pessoas que nos inspiraram, moldaram e transformaram.

Paralelamente ao festival, uma vez mais um conjunto de Festas vão marcar as datas do Queer Lisboa 22. A propósito da estreia de Diamantino, de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, no dia 14 de setembro, o Titanic Sur Mer recebe a Festa de Abertura, com a presença da equipa do filme, ao som dos Candy Fur e de Ricardo Varela. Na noite seguinte, no sábado dia 15, é a vez de o Estúdio Time Out receber a segunda edição do concurso Miss Drag Lisboa apresentado pela drag queen luso-canadiana Miss Moço. A seguir ao pageant, há DJ set com AstroBoy & LeMig. No decorrer da semana haverá uma festa no bar Corvo e um Queer Rendez Vous no Bar Tr3s, culminando na Festa de Encerramento no Titanic Sur Mer, com a festa especial Homodrop: uma das raves queer mais celebradas de Londres. Junto ao host da noite (Florian Dovillez aka Cheriii), uma das melhores embaixadoras da cena pop lisboeta – Vanda Noronha aka Call Me Mother -, e um esperadíssimo concerto de MIKEY., um cantor e performer australiano radicado em Berlim que, pela sua música e icónicas roupagens noturnas, tem ganho um lugar no coração de multidões de fãs.

Já anunciado no passado mês de junho, um dos grandes destaques da presente edição do Queer Lisboa é um programa multidisciplinar à volta da temática do VIH/sida, com o título “O vírus-cinema: cinema queer e VIH/sida”, que congrega um ciclo de cinema, uma exposição e o lançamento de um livro de ensaios.

Desde os anos 80 que a epidemia do VIH/sida viu nas expressões artísticas um importante veículo para a representação das vidas e problemáticas daqueles direta e indiretamente afetados pelo vírus, e para a criação de metáforas à volta dessas mesmas problemáticas. Hoje, é reconhecida a importância, não apenas social, mas cultural do cinema que abordou esta temática, na medida em que muitas das obras que focaram a epidemia trouxeram inovações estéticas e narrativas à história do cinema. O ciclo a ter lugar na Cinemateca Portuguesa e no Cinema São Jorge pretende dar a conhecer os realizadores do vídeo-ativismo do VIH/sida, colocando estas obras de emergência em diálogo com algumas das longas-metragens mais emblemáticas sobre este tema. De entre as longas-metragens programadas, dão-se destaque a algumas obras como La Pudeur ou l’impudeur (1992), o vídeo-diarístico na primeira pessoa de Hervé Guibert; Zero Patience (1993), de John Greyson, um musical que parodia a tentativa de descoberta do “paciente zero”; Kids (1995), de Larry Clark, um dos expoentes do cinema indie norte-americano, ou Bright Eyes (1986), de Stuart Marshall, um dos primeiríssimos documentários sobre a sida. De entre os filmes ligados ao movimento do vídeo-ativismo, destaque para as obras de realizadores como Gregg Bordowitz, Mike Kuchar, Matthias Müller, os Gran Fury, Jerry Tartaglia ou Mike Hoolboom. Na Cinemateca, terá lugar também um Debate à volta deste programa com a presença do ensaísta francês Didier Roth-Bettoni, autor do livro Les années sida à l’écran, Maria José Campos, médica, e João Pedro Vale, artista plástico.

No dia 15 de setembro, data do início do ciclo de cinema na Cinemateca Portuguesa, é lançado o livro “O vírus-cinema: cinema queer e VIH/sida”, uma edição da Associação Cultural Janela Indiscreta, organizadora do Festival, com coordenação de António Fernando Cascais e João Ferreira, que reúne um total de 25 ensaios, onde 24 diferentes autores – de médicos a ativistas, de programadores a críticos de cinema -, escrevem cada um sobre um filme que aborda esta temática, oferecendo-se assim diferentes perspetivas sobre os desafios que a epidemia representou para o cinema. O livro, financiado pela EGEAC / Cinema São Jorge, conta com ensaios de Alexandra Juhasz, António Fernando Cascais, Bruno Maia, Cristian Rodríguez, Daniel Pinheiro, Didier Roth-Bettoni, Franck Finance-Madureira, James Mackay, Jan Le Bris De Kerne, Jean-Sébastien Chauvin, Jerry Tartaglia, João Ferreira, João Lopes, Jorge Mourinha, Maria José Campos, Mathias Klitgård Sørensen, Matthias Müller, Mike Hoolboom, Nuno Galopim, Pedro Marum, Pedro Silvério Marques, Ricardo Vieira Lisboa, Theodore Kerr e Tom Kalin.

A completar o programa, o Queer Lisboa lançou o convite ao artista plástico Thomas Mendonça para que ele desafiasse um conjunto de outros jovens artistas a conceberem uma peça à volta da temática do VIH/sida e dos filmes programados, procurando assim uma perspetiva de como a epidemia é vista e interpretada por uma nova geração. A exposição, intitulada “O vírus”, tem também inauguração marcada para o dia 15 de setembro, na Galeria FOCO, onde poderão ser vistas as obras de Christophe dos Santos, Cláudia Sofia, Diego Machargo, Fernanda Feher, João Gabriel, João Viegas, Mauro Ventura, Marta Pombo, Rui Palma e Thomas Mendonça.

O Queer Lisboa 22 estabeleceu também uma parceria com a ModaLisboa e o Doclisboa, para a programação de um conjunto de documentários sobre o universo da moda. A 51.ª edição da ModaLisboa decorre de 11 a 14 de outubro, e o Queer Lisboa antecipa este evento apresentando três documentários que revelam a importância da cultura queer na moda e de como a moda tem contribuído para o esbatimento de noções heteronormativas de género. Neste programa, destaque para o filme We Margiela, da produtora holandesa mint film office, que acompanha o nascimento da emblemática casa de moda dirigida pelo enigmático Martin Margiela, responsável por uma verdadeira revolução nesta indústria e que dará também lugar a um Debate com a presença de Eduarda Abbondanza, diretora da ModaLisboa, e Rui Palma, fotógrafo de moda. Os outros destaques vão para o documentário Kevyn Aucoin – Beauty & the Beast in Me, de Lori Kaye, um impressionante retrato do maquilhador Kevyn Aucoin, já falecido, feito com base nos seus próprios registos vídeo caseiros, que capturam a sua vida pessoal e profissional. Por fim, o Queer Lisboa recebe a estreia nacional do documentário George Michael: Freedom – Director’s Cut, de George Michael e David Austin, uma exaustiva viagem pela música e vida de uma das maiores estrelas pop contemporâneas cuja carreira atravessa mais de três décadas e que teve uma estreita relação com a moda, particularmente a partir do momento em que recusou aparecer publicamente na promoção das suas canções, dando azo ao mediático processo judicial do cantor, contra a Sony. O ciclo de documentários prosseguirá no Doclisboa 18.
 

O Queer Lisboa inaugura a sua 22.ª edição com a estreia lisboeta de Diamantino (2018), de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, vencedor do Grande Prémio da 57.ª Semana da Crítica da última edição do Festival de Cannes, com a presença de toda a equipa artística e técnica do filme no palco da Sala Manoel de Oliveira. Uma abordagem delirantemente queer e metafísica ao estado do mundo, onde Carloto Cotta interpreta Diamantino, uma estrela mundial do futebol em plena crise existencial, e à mercê das suas manipuladoras e mercenárias irmãs, numa cruzada onde se confronta com expressões neofascistas, a crise dos refugiados na Europa, a modificação genética e a busca da fonte da genialidade. Uma produção da Maria & Mayer (Lisboa), da Syndrome Filmes (Rio de Janeiro) e da Films du Bélier (Paris), é com enorme orgulho que o Queer Lisboa volta a apresentar uma ficção nacional como filme de abertura do evento.

O encerramento do festival é feito com o documentário Bixa Travesty (2018), realizado por Claudia Priscilla e Kiko Goifman e vencedor do prémio de Melhor Documentário do Teddy Award da Berlinale, onde teve a sua estreia mundial, em fevereiro último. Neste mais recente trabalho da dupla de realizadores brasileiros cujo trabalho o Queer Lisboa tem programado desde as suas primeiras obras, a dupla propõe-nos um imaginativo e desafiante documentário, dominado pela presença no ecrã da eletrizante Linn da Quebrada. Autodenominada “bixa travesty” e artista multimédia, oriunda da periferia de São Paulo, Linn ganhou notoriedade nos palcos com a canção “Enviadescer”, em 2016, sendo desde então uma pertinente e ativista voz pela defesa dos direitos das minorias queer.

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