A utilidade da extrema-direita portuguesa

É uma curiosidade que me deixa tão perplexo como aliviado. Imagino que à própria surja, no seu íntimo, a mesmíssima sensação. Perplexidade certamente que sim, alívio, no entanto e dependendo da ambição e da inteligência, talvez não seja assim tão certo. Para que serve, afinal, a extrema-direita portuguesa?

Nos últimos anos vimo-la reduzida a memes virais, à chacota generalizada, à descredibilização total de um movimento, tão recente como na corrente semana, que nas últimas décadas se viu reduzido, e bem, a zé-ninguéns. E porquê? Porque no passado próximo foi uma força que assassinou pela cor da pele. Mas hoje em dia tenta pegar nos alegados tópicos difíceis e, vendo bem as coisas, ninguém ou quase ninguém lhe dá tusto. Insulta a população LGBTI, promete negar-lhe os direitos conquistados e por conquistar; nega a identidade das pessoas Trans e, ironia das ironias, tentando pegar em exemplos estrangeiros, o direito dessas pessoas usarem a casa de banho devida. Pega também na moda da alegada ideologia de género, tão em voga pela opinião mais conservadora publicada em Portugal, mas, não, nem isso lhe dá a força e o jeito para quebrar o mainstream.

Bem sei que esta é uma linha de pensamento de contornos ténues e potencialmente perigosos, que raio nos aconteceria se assim não fosse? Que fique claro que isto não é uma provocação. Já levei com algumas ameaças, umas mais subtis, outras nem tanto, mas todas elas alimentadas por discursos homofóbicos. Fizeram-me pensar sobre a minha própria segurança e ponderar os riscos de dar a cara. Aqui estou. Porque, ainda assim, a realidade é que, apesar de algumas subidas em países estratégicos pela europa fora, tal como nas américas, a extrema-direita portuguesa continua mirrada. Quando a desvalorização de quem somos é ainda um sentimento tão português, certamente não por acaso de décadas de ditadura e das suas também políticas extremas, até parece que em Portugal temos ainda o bom-senso de perceber as artimanhas de quem apenas deseja ferir, desconstruir e inevitavelmente matar. De alguma forma, o nosso subconsciente não tem dado espaço para que se eleve mais do que a cara do chão. E as suas palavras e os seus ralhos não passem de rastejantes murmúrios.

Quão tamanha será a sua frustração terem parte do mundo a escalar naquilo que apregoam e não conseguirem qualquer sombra de resultado por terras lusas? Qual não será o seu espanto quando acordam e percebem que, décadas passadas do seu desmantelamento e de inúmeras campanhas por si entretanto desenhadas, permanecem não mais que um grupo medíocre?

A utilidade da extrema-direita portuguesa pode passar precisamente por aí: dar-nos a plena consciência de que Portugal, na sua imensa diversidade, é tão melhor do que ela e daquilo que representa. E é para continuar, sim? É que embora alguma direita – não toda -, quiçá desesperada por poder, tenha começado a colar perigosamente o seu discurso a algumas ideias da extrema-direita, seria uma ótima lição democrática que a utilidade da extrema-direita não passasse disso: uma tremenda banana.

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