Tiago Braga em ‘Dois a Perder’: “Existe a ideia de que quem mais sofre é também mais fraco”

Há três anos falámos pela primeira vez com Tiago Braga, músico portuense, aquando do lançamento do seu primeiro single em português “Amor (Já cá não mora)”, mas dois anos passados tudo mudou na vida do artista com o seu coming out, seria tudo uma “Ilusão”?

Entretanto passou um novo ano e com ele surgiu agora também um novo single e vídeo, “Dois a perder“. Um ano que trouxe novos desafios ao Tiago Braga e que se tornou no culminar de uma libertação pessoal e artística após uma relação tóxica. Entre imagens de bastidores exclusivas, pelo Gonçalo Sabença e pelo André Dantas, vale a pena ler o próprio na primeira pessoa:

Um ano depois de “Ilusão”, a canção do teu coming out, como tens vivido esta libertação?

Eu achava que a diferença não ia ser muita, porque já me tinha assumido para familiares e amigos há imenso tempo. E não escondia propriamente o facto de ser gay, muito pelo contrário. Mas, para minha surpresa, senti que 2018 foi o ano em que eu me senti, pela primeira vez, 100% à vontade com o facto de ser gay. Existe uma diferença enorme entre sermos assumidos para o nosso círculo de pessoas próximas e sermos assumidos para o mundo inteiro. E curiosamente só depois de fazer o coming out com o “Ilusão” é que me apercebi disso.

Onde te encontramos agora com este “Dois a Perder”?

Apesar de só o ter lançado agora, o “Dois A Perder” foi escrito pouco tempo depois do “Ilusão”, em 2017. Por isso o Tiago que interpreta a música ainda é um Tiago super sofrido e cheio de mágoa. O ano de 2017 foi muito complicado para mim, porque saí de uma relação completamente destrutiva. Foi a relação mais importante que tive e a que mais me ensinou, mas também a que mais me destruiu e fez sofrer. E tenho uma quantidade absurda de canções que escrevi durante esse período. O “Dois A Perder” fala sobre um período em que eu e o meu ex estávamos a competir um com o outro para ver quem é que sofria menos.

Acho que todos nós tentamos sempre ser a pessoa que sofre menos numa relação, porque existe uma ideia de que quem sofre mais é mais fraco. O cabrão sem sentimentos sai sempre a ganhar. Mas a verdade é que as coisas não são bem assim, porque quando uma relação acaba sofrem sempre os dois. Um mais do que outro, mas sofrem sempre os dois. E isso acontecia sempre que eu e o meu ex acabávamos e recomeçávamos: no final do dia, ficávamos sempre os dois a sofrer, éramos ambos perdedores. Foi isto que deu origem ao título da música, “Dois A Perder”.

O novo single fala de “uma relação tóxica”, no entanto, perceber que ambas as partes “se destroem uma à outra” exige um afastamento e um crescimento sobre a mesma. Qual o truque para lá chegarmos?

Eu acho que existem dois ingredientes para esse “truque”. O primeiro é sofrer e perder imenso, para daí poder retirar lições e crescer com elas. Olhando para trás na minha vida, as alturas em que mais cresci foram as alturas em que mais sofri. Porque o clichê é verdade: ninguém cresce na zona de conforto. E a dor psicológica é o maior desconforto que um ser humano pode sentir. O segundo ingrediente é o tempo. Outro clichê que é verdade é que o tempo cura tudo, porque o tempo permite-nos ter um afastamento sobre as coisas e vê-las de uma perspetiva que não conseguimos ter quando estamos a sofrer e ainda é tudo recente.

Tens partilhado vídeos e textos, no teu Instagram, por exemplo, em que falas com fãs sobre as suas questões de teor LGBTI dando-lhes conselhos, orgulho e força. Como tem sido essa experiência?

Confesso que era um resultado do meu coming out que eu não estava à espera. Nunca quis vestir a camisola de “ativista” porque acho que há pessoas que fazem um trabalho muito mais significativo do que eu nesse campo. Mas quero fazer com que a minha carreira sirva para algo mais do que apenas partilhar as minhas canções. Foi por isso que me assumi no “Ilusão”, porque quero lutar pela representação LGBT na indústria da música portuguesa. Mas não estava à espera que isso fizesse com que as pessoas me vissem como um porto de abrigo.

É muito gratificante sentir que estou a fazer a diferença, mas ao mesmo tempo é uma grande pressão porque muitas vezes sinto-me impotente. Porque a verdade é que alguns dos pedidos de ajuda que me chegam precisavam de mais do que palavras de conforto. Mas é uma experiência positiva porque tenho a confirmação de que o meu coming out serviu para alguma coisa. E de que o facto de continuar a ser abertamente gay nas redes sociais e na minha carreira está a servir para mais alguma coisa do que ter mais uns likes no Instagram. Porque no final do dia, acho que isto é que é verdadeiramente influenciar, apesar de não me considerar propriamente um “influencer” e brincar recorrentemente com o termo.

Qual foi a maior vitória com o lançamento de “Dois a Perder”, do que mais te orgulhas, que maior gozo te deu?

Eu acho que a maior vitória que tive com o “Dois A Perder” foi pessoal. Não me imaginava ser capaz de fazer um videoclipe onde eu fosse o ator principal, muito menos a interpretar cenas mais atrevidas. Sempre me quis afastar da representação porque achava que não tinha muito jeito. Mas o “Ilusão” deu-me tanta pica que no videoclipe do “Dois A Perder” quis que o spotlight estivesse em mim. Apesar de saber que precisava de contracenar com um ator muito bom para disfaçar o facto de não o ser, houve cenas que estavam previstas no guião que eu achava que ia acabar por não conseguir gravar. Nomeadamente as cenas mais atrevidas, em que estou aos beijos e em tronco nu na cama com o Nuno (o ator que contracena comigo).

Nunca fui muito de aparecer sem camisola nas fotografias porque não me sinto suficientemente à vontade com o meu corpo. Para além de não querer ser daqueles músicos que só têm seguidores porque tiram a camisola. Nada contra rapazes sem camisola, muito pelo contrário, mas faz-me sempre comichão quando os abdominais são o foco da carreira de alguém que se apresenta como artista discográfico. Mas neste videoclipe acabei por me despir, literal e metaforicamente, de todos esses meus receios e conseguir gravar várias cenas em que tinha que estar em tronco nu à frente de uma câmara e meia duzia de pessoas sem que isso fosse um grande problema.

Só falta agora ver, ouvir e apreciar o vídeo, não percam!


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