Cultura Prosa

Lucas, por Pedro Leitão

Depois de Levitating e de Orgullo, hoje voltamos a publicar um conto da autoria de Pedro Leitão que começa pelo vislumbre num café de uma rapariga chorosa quando o seu namorado lhe fora roubado por um homem e do seu amigo que a protege e incentiva a desfrutar daquela tarde. Esta é uma história de olhares e de revelações e, mais uma vez, vale a pena relaxar, deixar uma música de fundo como banda-sonora e ler esta história de desamor:

Ela deve ter pensado coisas terríveis sobre mim, pelo tempo que estive descaradamente a observá-la. Mas aquela cara era-me tão familiar que me obcecava não saber de onde a conhecia. Imaginei-me nos cenários habituais (isto é, no que era habitual há três meses, antes do mundo desabar) na esperança de que, enquadrando-a, a sua identidade se revelasse. Pensei em amigos de vários grupos, colegas de trabalho, conhecidos da faculdade, nos meus familiares, nas caras familiares de todos os dias, em vizinhos, empregados de café, encontros de esplanadas, companheiros de confinamento… E então fui transportado para aquela noite. A derradeira festa no Lusitano. A última vez em que dançámos por prazer e não por necessidade ou instinto de sobrevivência, antes de entrarmos numa nova realidade em que a noite se tornaria apenas e só no intervalo lúgubre do sono.

Nessa última noite a minha atenção estava presa a um rapaz de caracóis negros. Era por essa característica que o procurava na multidão. Muito moreno, apesar de estarmos no final do Inverno. Perguntei-me se seria brasileiro. Talvez Erasmus? Enfim, estas ideias feitas nunca resultavam certas e no final só ficava a vergonha de a elas ter recorrido. O rapaz era, isso sim, de uma essência silvestre e à luz da qual a nacionalidade se convertia num adereço de etiqueta. Os caracóis cosiam-se com aquele sorriso sempre aberto e radiante. De perfil notava-se o ligeiro pino do nariz, salientado pelos lábios finos sempre estriados numa gargalhada quente. Durante toda a noite quis provar aqueles lábios. 

Uma rapariga de aspecto bisonho e ânimo descomposto escondia-se sob a sua asa. Olhava quase sempre para o chão e parecia chorar quando lhe falavam. Ele tentava resgatá-la daquele estado sorumbático e trazê-la para a maré de música e alegria da pista. A rapariga não despegava da sua ladainha nem do seu flanco, como uma rémora chorosa. Ele então desistia por uns instantes, suportando o seu fardo com resignação. Já todos sabíamos que não voltaríamos àquele lugar nos próximos tempos, mas não adivinhávamos (nem sequer suspeitávamos) o interminável encarceramento de tédio em que ficaríamos suspensos. Ainda assim, ele não desistia de integrar a amiga naquele ambiente tão contrária ao seu espírito.

Quando o vi dirigir-se para o bar, num instante de tranquilidade em que a pobre alma recolhera à casa de banho para retocar a maquilhagem que o choro talhara, decidi tentar a minha sorte. Debrucei-me sobre o balcão e pedi um gin. Ele estava à minha direita e já então reparara em mim. Ao meu Olá surdo ele engatou um Oi melodiosamente tropical (por aquela vez, sim, acertara). Dei-lhe o meu nome e estava prestes a ouvir o seu quando a cabeça loira da amiga se entrepôs na distância, por mim obsessivamente medida e calculada, que separava a minha boca da dele. Imediatamente o puxou e com ele dali se foi, rebocando-o para a porta do bar. Dos seus brados lamentosos pude, ainda assim, capturar um nome. Gabriel.

Na mesa em frente à minha na esplanada estava agora a rapariga que me tinha negado um beijo nesse momento final. Como se lesse aquilo em que pensava, voltou-se para mim com uma expressão hostil.

─ Boa tarde, posso ajudá-lo? 

Não pude evitar a sinceridade.

─ Desculpa, não quis incomodar-te. A tua cara parecia-me familiar e entretanto lembrei──

─ Oh, por favor. Essa é tão velha!

─ …lembrei-me de onde te conhecia.

Olhava-me em desafio, esperando uma justificação.

─ Foi numa noite no Lusitano. Estavas com um amigo brasileiro. Gabriel, julgo que se chamava.

Devolvi-lhe o estremecimento inicial. 

─ Sim, o Gabriel. Desculpa. Pensei… Nada.

Demorou-se na pausa, recuperando o pé à conversa.

─ Já me lembro dessa noite. Foi a última vez que saí para dançar.

─ Também eu. Parece que foi há anos!

Senti que ainda não estava totalmente segura de si. Tentei tranquilizá-la.

─ Desculpa se te deixei desconfortável. Estava perdido na lua a tentar perceber de onde te conhecia.

─ Não, não foi isso. Falaste dessa noite e ocorreram-me várias coisas que já estavam esquecidas.

Intuí que fossem as mesmas coisas que a perturbavam quando então a vi. Sentia-me mal, cheio de culpa, por a ter sujeitado àquela tristeza antiga. 

Mas seguiu-se um golpe inusitado.

─ Vocês gays dizem-se muito amigos de nós, mulheres, mas na verdade são traiçoeiros. 

Não sabia de onde vinha aquilo. Ela continuou.

─ Um de vocês roubou-me o namorado! Eu não sou preconceituosa. O Gabriel é como um irmão para mim. Mas há aquela coisa de respeito. Uma mana não pega o homem da outra! 

Aquela conversa pedia uma confiança que eu não tinha concedido. A minha expressão deve ter reflectido o incómodo que sentia e a que, felizmente, ela foi sensível. Deteve-se e após um instante,

─ Chamo-me Inês. Não queria ter começado assim…

Ofereci-lhe o meu nome e depois ficámos em silêncio.

Ela olhava a mesa, absorta em memórias que eu ignorava. Com a colher ia traçando uma linha escura desde o pires manchado de café até à orla da chávena. Uma gota era içada até ao ponto mais alto e depois deixada em queda livre pelo caminho já marcado. Eu mantinha o olhar preso nas palmas das mãos sem saber o que fazer. Era uma tarde de início de Verão. Tinha escolhido aquele lugar para terminar um relatório de trabalho que devia entregar no dia seguinte. Achara boa ideia despachar a tarefa numa esplanada da Baixa, aproveitando o calor e o afã musical da rua. Mal chegara, deparei-me com aquele espectro familiar. O portátil, esse, continuava adormecido na mochila.

Ela pousou a colher no pires, pegou no copo e na garrafa de água e veio sentar-se à minha mesa. O cansaço e a insónia maceravam-lhe o rosto mas não tornavam opaca a beleza das sardas semeadas sob os olhos azuis, acariciadas pelo cabelo que faiscava com o sol da tarde. Pousou as mãos no colo. Sem descolar o olhar do copo vazio, começou a contar-me a sua história.

─ Conheci o Gabriel numa festa de aniversário e desde esse momento percebi que era alguém especial. Já tinha tido amigos gay mas nunca com a proximidade que tenho com ele. Nessa altura, eu namorava com um rapaz. Chamava-se Lucas. Tínhamos uma relação como tantas outras, com os seus altos e baixos, mas éramos felizes. Fiquei radiante quando percebi que o meu novo amigo e o meu namorado se davam tão bem…. O Gabriel é uma pessoa muito generosa e quis que conhecêssemos o seu mundo: os amigos, as festas, as marchas, as divas, as músicas, os segredos. Tudo! Eu achava aquilo muito divertido. Para o Lucas parecia ser mais ou menos indiferente. Ele ria-se das piadas, às vezes sem compreender totalmente o sentido, por aquele pormenor ou referência que lhe escapavam. Mas alinhava nas brincadeiras, mesmo quando éramos os únicos “heteros” na grupeta do Gabriel, como eles faziam questão de nos lembrar. Eu ria-me como uma perdida e o Lucas, ao início desconfortável, aprendeu a ripostar com ironia. Os meninos achavam muito sedutora aquela subtileza desarmante. O Gabriel chegou a dizer-me que o Lucas tinha aprendido a entrar na brincadeira da melhor maneira, com o nível e a segurança de um homem bem resolvido e sem complexos. Fiquei orgulhosa. Gostava de exibir um namorado que se correspondia tão bem com os meus amigos. Passámos a ir às festas no Lusitano. Ao início o Lucas pressentia os olhares todos cravados nele, não por ser alvo do desejo mas por se ver como invasor de um terreno que não lhe pertencia. Uma vez disse-me que se sentia como um cordeirinho numa jaula de leões. Mas eu e ele seguíamos as instruções do Gabriel e nunca houve situações desconfortáveis nem mal entendidos. Com o tempo, aquele tornou-se um sítio habitual nas nossas saídas de fim-de-semana.

Uma pausa breve. Notei que a sua expressão se tornava mais carregada.

─ Numa dessas noites fomos tomar um copo com o Gabriel e os amigos. Daquela vez eu não os acompanharia. Tinha combinado com umas colegas de trabalho uma noite só de meninas. Faria ali o aquecimento e depois juntar-me-ia a elas num bar das Galerias. Quando me preparava para sair, o Lucas avisou-me que decidira ficar com os rapazes em vez de ir para casa. Perguntei-lhe se tinha a certeza. Disse-me que sim. Se algo acontecesse, brincou, o amigo protegia-o. Ele acompanhou-os até ao Lusitano, onde estiveram até às três da manhã. Nessa altura, ainda antes da hora de fecho, o Gabriel e os amigos decidiram ir para o Zoom. O Lucas disse-lhes que estava a curtir a música e que ficava ali mais um pouco. Perguntaram-lhe se ele tinha a certeza de ficar ali sozinho. Ele disse-lhes que sim.

A chávena do café que eu tomara, e que Inês se entretinha a manusear nervosamente enquanto falava, tombou na mesa. Com uma mão incerta, endireitou-a no seu lugar.

─ Vi-o pela última vez nessa noite. Um conhecido do Gabriel contou-nos o que aconteceu depois de terem deixado o Lusitano. O Lucas ficou a dançar no mesmo sítio de toda a noite. Já não havia muita gente na pista nessa altura, pelo que era fácil distinguir quem lá estava. Nas últimas músicas começou a rondá-lo um rapaz alto e encorpado. Ele não parecia resistir aos seus avanços. Pelo contrário, mostrava curiosidade no jogo de sedução do outro. Ele foi-se aproximando…

A minha imaginação soltou-se do relato da Inês para o ecrã privado da minha mente. Imaginei a cena. O outro aproximando-se perigosamente, encostando-o à parede. Uma mão avança e prende-se firmemente ao flanco do Lucas, puxando-o para si. A mesma mão vai subindo pelo dorso, dedilhando o relevo das costas. A outra mão aterra leve no peito, no arco do músculo, suavemente acariciando o mamilo. Os dedos percorrem a espádua, fixando-se na base do pescoço. Naquele ponto de absoluto domínio, faz vibrar um sinal infalível: o rosto inclina-se com uma lentidão que sufoca as hesitações que ainda restem, preparando o encontro das bocas…

O choro de Inês veio tirar-me da matinée lúbrica em estava embrenhado. 

─ Ele seduziu-o e levou-o. Perdi o Lucas para outro homem.

Estava exausta. Servi-lhe alguma da água que ainda havia na garrafa. Foi o melhor que me lembrei para a consolar. Depois disse-lhe, sem confiança,

─ Lamento que as coisas tenham corrido assim. Percebo agora porque estavas tão em baixo naquela noite…

Ela levantou os olhos.

─ Tinha passado umas semanas difíceis… O Gabriel queria que eu voltasse a sorrir. Tentou que me envolvesse na música, que bebesse para esquecer, que dançasse para sacudir a lembrança dele. Mas eu olhava em volta e parecia que o encontrava em todos os pares que se beijavam nessa noite.

Ficámos em silêncio alguns minutos. Inexplicavelmente, sentia-me culpado. Desafiava a razão mas ao vê-la assim enrolada sobre o seu próprio colo, tentando afagar o peito e preencher o vazio, não conseguia evitar a vergonha. Éramos assim tão escravos do desejo ao ponto de desprezar a dor dos outros? Parecia evidente, se ainda há instantes eu próprio lhe sucumbira, no despudor da minha imaginação. Como ela, fixei o olhar na superfície da mesa. Um pequeno círculo de água castanha marcava o lugar onde a chávena ficara pousada durante aquele tempo. Com o dedo ia cuidadosamente deformando esse vestígio, evitando encará-la.

─ Que estranho, apenas tinha falado disto com o Gabriel e alguns amigos mais próximos… Obrigado por me teres ouvido. Sinto-me melhor, como se até agora carregasse um peso no peito que não me deixava respirar. Às vezes sabe bem falar quem não nos conhece.

Com um lenço enxugou os fragmentos de lágrimas do rosto. Sorriu e levantou-se para ir à casa de banho. Disse-lhe, sem dar conta da repetição,

─ Lamento que as coisas tenham corrido assim…

A tarde amadurecia no céu. As esplanadas da praça enchiam-se de gente. Às mesas acrescentavam-se cadeiras para os amigos que iam aparecendo e que se cumprimentavam com o ósculo de cotovelos. As máscaras eram retiradas para o alívio de um fino ou de um copo de vinho. O meu portátil permanecera todo aquele tempo aconchegado na mochila. Teria de terminar o relatório em casa.

Quando ela voltou, disse-lhe que não podia ficar muito mais tempo, mas queria certificar-me de que ficava bem. 

─ Obrigada, és um querido. Não me queres fazer companhia até à paragem do autocarro? São só mais uns minutos… Não te preocupes, já está pago. 

Enquanto descíamos a rua falávamos de coisas sem importância, de uma má experiência neste restaurante, de um amigo que trabalha naquela loja de roupa, de visitas durante a infância àquela livraria que entretanto fechara. Ainda há instantes, sem aviso prévio, vertera torrencialmente toda a sua mágoa interior para os braços atrapalhados de um desconhecido. Agora exibia uma boa disposição meridiana, o que me distraiu da observação de um rapaz, poucas dezenas de metros à minha frente, que queimava a espera nos passos perdidos do telemóvel. Da sua testa inclinada sobre o ecrã pendia uma mecha de cabelo negro encaracolado que dançava com a brisa. 

Inês abraçou Gabriel e eu fui apresentado. Ele lembrava-se de mim! Apontou para o outro lado da rua e percebi a ironia daquele encontro: as cortinas negras enquadradas pela moldura de ferro forjado característica dos antigos armazéns do Porto — estávamos à porta do Lusitano. Ele sorriu e instantaneamente tive vontade de terminar a acção que ficara em suspenso naquela noite. Inês despediu-se e assegurou-me que não precisava que a acompanhasse a partir dali. Voltou a agradecer-me o tempo que estivera a escutá-la. Cruzou a rua e, como aquela tarde tinha sido uma fabulosa sucessão de acontecimentos, não me teria surpreendido se a porta do bar, fechada desde aquela última vez em Março, se tivesse aberto para a deixar entrar.

─ E aí, para onde você vai? 

Gabriel olhava-me com expectativa. Menti, dizendo-lhe que não tinha planos e devolvi-lhe a pergunta. Ele estava a caminho de casa, no final da rua de Cedofeita. Respondi que também morava ali perto. Mais uma mentira inofensiva para pôr em marcha uma conversa e uma hipótese. Seguimos juntos na mesma direcção, cruzando lojas que encerravam portas após mais um dia de trabalho.

Quebrei um momento de silêncio dizendo-lhe que tinha pena por a Inês ter sofrido tanto, e perguntei-lhe se ele ainda mantinha contacto com o Lucas.

─ Quem é o Lucas?

O ex-namorado dela, claro, que a traiu com um rapaz no Lusitano. Uma nuvem de perplexidade passou pelo olhar de Gabriel mas imediatamente se dissolveu e o seu rosto encheu-se de melancolia.

─ Desculpa-me por ter tocado no assunto. Apenas quis perceber… Espero que a Inês fique bem. 

Ele sorriu sem desviar o olhar. Depois voltou-se para mim e disse-me que não existia ninguém chamado Lucas.

O seu nome era Ricardo. Estavam juntos há já algum tempo quando Inês conheceu Gabriel. Ao contrário da outra versão, o namorado nunca apreciou nem o amigo nem o seu grupo, e muito menos o “estilo de vida” que levavam. Aliás, era evidente nele a irritação quando Inês insistia em combinar um copo com os rapazes. Os comentários de mau gosto começaram a surgir nos momentos mais inoportunos e depressa evoluíram para uma sólida atitude homofóbica, que ela ia desculpabilizando com crescente embaraço. 

Ricardo foi ganhando o hábito de desertar para longos serões com os amigos nas noites de fim-de-semana. Sabendo-a abandonada em casa, Gabriel convenceu a amiga a acompanhá-los nas saídas para o Lusitano. Inês divertia-se mais do que qualquer um deles e nessas alturas não pensava no comportamento de Ricardo, apesar de saber que teria de lidar com as suas embirrações assim que chegasse a casa.

Numa dessas noites, depois de várias horas a dançar, Inês decidiu caminhar pelas ruas da Baixa antes de chamar um Uber que a levasse a casa. Demorou-se pelos passeios molhados, sorvendo o ar frio da madrugada. Era a hora de fecho dos bares na rua das Galerias. Já no exterior, vários grupos de pessoas iam discutindo planos alternativos ou ensaiando despedidas. Ela espreitava pelos vidros e via as luzes acenderem-se e a azáfama dos empregados em arrumações. Parou em frente a uma janela. Encostado à parede estava um casal que se beijava. Uns minutos antes e estariam submersos no escuro da sala, ocultos dos olhares de quem passasse. Mas naquele instante Inês pode ver com clareza o seu namorado envolto em braços femininos que não eram os seus.

Assim se precipitou o fim da relação. Não o quis voltar a ver. Passou muitas noites a calcular o tempo que já durava aquela traição. Encerrou-se em casa, não queria estar com ninguém. Passadas algumas semanas a remoer lembranças dolorosas, Gabriel decidiu tirá-la daquele casulo infecto. Foi nessa noite que os vi no Lusitano. Depois chegou a pandemia e durante dois meses mal viu a amiga. Inês suportou as semanas de confinamento sozinha. Ao seu lado devia ter estado um namorado atencioso, compreensivo e fiel. Mas já nem namorado tinha, quanto mais qualidades que o forrassem. Ébria de solidão, decidiu que a responsabilidade pelo desastre era inteiramente sua. Houve um dia em que Gabriel já não conseguiu reconhecer a amiga, desfigurada pela depressão. Decidiu então ficar ao seu lado todo o tempo que lhe fosse possível. Em poucos dias Inês recuperou algum ânimo e força, e cada vez se aproximava mais da pessoa alegre que fora em tempos. Gabriel ficara intrigado com a mensagem que ela lhe enviara naquele dia à tarde. «Vem ter comigo à porta do Lusitano. Quero apresentar-te alguém que não chegaste a conhecer por minha culpa». 

─ Era você.

Gabriel oferecia-me um sorriso de gratidão. Quis abraçá-lo, para o confortar, e então beijá-lo, porque não teria já determinação para travar esse impulso. Tínhamos chegado a sua casa mas eu ainda continuava preso à narrativa. Perguntei-lhe porque tinha a amiga concebido a versão alternativa que me tinha contado. Ele levou o dedo à ponta do nariz, em sinal de reflexão. Talvez para Inês, disse-me, a forma mais imediata de lidar com a dor passasse por repartir a terrível culpa que sentia. Não a podia devolver a quem maltratara (seria um caminho estéril e já tentado) mas sabia que alguém a assistiria no alívio desse tormento — Gabriel, que a apoiara sempre, e os seus amigos, que a acolheram como parte do grupo, o público do Lusitano, onde se tinha divertido tanto, e todos os homens gay, por extensão, com quem ela sentia que podia contar. 

─ Ela viu em você um aliado, alguém em quem podia confiar. Por isso ela o acusou. 

O meu cepticismo contrastava com a segurança dele, para quem tudo aquilo parecia perfeitamente lógico e natural. Gabriel aproximou então os lábios do meu ouvido.

─ E por isso eu lhe agradeço muito…. Subimos? 

Esse sopro doce devia ter bastado para afastar de mim a lembrança da amiga. O céu era tingido por indecifráveis camadas de ouro e carmim, semelhante às que preenchem as primeiras horas do dia. Seriam também essas as cores que pintariam o céu se o nosso primeiro encontro no Lusitano não tivesse sido interrompido. Era o culminar de um longo episódio. Gabriel abriu a porta do prédio. De pulsação acelerada, fui surpreendido por uma derradeira questão que me escapou pela boca.

─ Mas porquê Lucas?

Ele já subia as escadas. Virou-se para mim, sorriu e encolheu os ombros. E com um aceno de cabeça fez-me sinal para o seguir e não pensar mais no assunto.

Él era un chico de cabellos de oro
Yo le quería casi con locura
Le fui tan fiel como a nadie he sido
Y jamás supe que le ha sucedido

Só foi preciso uma palavra daquele rapaz para as memórias inundarem a mente de Inês. Lusitano. Sentada no autocarro a caminho de casa, ia descosendo lentamente a conversa da tarde, apenas pelo conforto de reapreciar as suas reacções e respostas. Do outro lado do corredor sentou-se uma senhora carregada de compras e preocupações, sujeita a um grande esforço que lhe vincava as linhas do rosto. Inês pensou no que aquela mulher não daria por alguém que a ajudasse com aqueles fardos. Encostou-se no banco e tirou a mascara por uns segundos para limpar o suor do lábio superior. Então voltou-se para a janela, de forma a apreciar os poucos minutos de descanso em que a vida alheia passa em revista no exterior. Inês fez o mesmo mas da sua janela apenas viu a noite em que pensava.

A casa estava cheia. Os painéis de vidro branco fosco separavam as salas e faziam do bar ao centro um farol para o encontro de viajantes à deriva. Nas paredes projectavam-se imagens efémeras de ídolos inalcançáveis que enfeitiçavam os homens com os seus corpos. Um grande espelho percorria toda a parede da pista e criava um horizonte artificial e circunspecto. E a grande bola de espelhos ao alto regia as vagas daquela noite e derramava sobre todas as almas pequenas centelhas de luz mágica.

Porque una tarde desde mi ventana
Le vi abrazado a un desconocido
No sé quien era, tal vez un viejo amigo
Desde ese día nunca más le he vuelto a ver

Ela estava uma lástima e não conseguia disfarçá-lo. A maquilhagem não tinha salvação e as tentativas desesperadas na casa de banho parar a reparar de nada tinham valido. Regressou e a sala parecia-lhe ter ainda mais gente, mais risos, mais abraços. Tantas noites que se tinha divertido neste sítio, com estas pessoas. Mas hoje, para onde quer que olhasse, só lhe apetecia chorar e gritar. Precisava de toda a atenção deles. Queria que com ela partilhassem o calor da dança, a energia da música, o sabor dos lábios… Do outro lado da pista viu um rapaz que se aproximava do Gabriel. Tinha de o impedir! Atravessou aquele oceano de gente, movida por um medo avassalador. Não podia perdê-lo também. Tantos corpos à sua frente. Parecia que se afundava naquela atmosfera. A música sufocava-a e vultos indistintos afastavam-na da margem que era o balcão do bar. Por fim, agarrou o braço do amigo e lançou-se em fuga. Que febre a dominava nessa noite. Ela não merecia aquilo, pensou, mas eles também não. Saíram para a noite gelada da cidade e enquanto a porta se fechava, e ela chorava com a cabeça enterrada nos braços de Gabriel, ainda se ouvia o refrão que velara o seu naufrágio emocional.

Lucas, Lucas, Lucas,
¿Que te ha sucedido?
¿Dónde te has metido?
Nunca lo sabré!

Pedro Leitão

Imagem por Mazen Ir.

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