Família Homofobia

Como podemos lidar com conversas difíceis à mesa de Natal?

Cena do filme Happiest Season, com Kristen Stewart.

A temporada de férias natalícias é uma altura de ansiedade para muitas pessoas e por diversas razões. Este ano, quando temos que lidar com estes encontros em contexto de pandemia, o stress, tal como os sentimentos de isolamento, podem surgir amplificados. E, claro, há também a aflição de termos que lidar com familiares cujas ideologias nos são ofensivas e prejudiciais, algo que acontece noutros anos, mas, devido ao clima político atual, pode tornar as pessoas LGBTI à mesa especialmente frágeis.

A abordagem neste Natal de 2020 passa pela segurança e pelo distanciamento social, mas pode haver situações em que isso não depende inteiramente de nós e um elemento problemático pode efetivamente fazer parte do nosso núcleo familiar. É por isso uma boa ideia encontrarmos estratégias para um tipo diferente de risco: observações problemáticas sobre questões relacionadas com a temática LGBTI, bem como outros temas que sofrem, por sistema, algum tipo de ódio e discriminação.

Este é um guia simples e direto, realizado por Victoria Forrester, professora no programa Masters in Educational Leadership no Mills College, em como podemos lidar com isso. Pensemos nestes passos como um fluxograma em que, se a resposta for “não” a qualquer momento, podemos simplesmente parar.

Passo 1: Sentimo-nos em segurança?

Digamos que alguém disse algo que achamos problemático ou ofensivo. Pode até não ser conscientemente homofóbico ou transfóbico e talvez seja apenas absurdo. De qualquer forma, antes de reagirmos, devemos primeiro reservar um momento para avaliar a nossa segurança, quer em termos físicos como emocionais. Como nos sentimos é um foco aqui, porque é tão importante como a realidade objetiva da situação. Mesmo que não estejamos em perigo real, se nos sentirmos em insegurança, não teremos obrigação de fazer nada que possa agravar essa ansiedade.

Aqui estão duas maneiras concretas de avaliar a nossa segurança:

  1. Examinar o espaço. Existe alguma pessoa aliada presente—alguém que poderia vir em nosso auxílio ou, pelo menos, fornecer uma saída caso nos sintamos frágeis?
  2. Sintonizar o nosso corpo. Reservar um momento para respirar e nos concentrarmos na forma como o nosso corpo se sente. Podemos sentir irritação, tensão, ou até mesmo raiva ou nervosismo — tudo isso é normal. Se os sentimentos forem muito intensos, no entanto, pode ser melhor aguardarmos e não reagir a quente, podemos afastar-nos momentaneamente para respirar antes de reagirmos de alguma forma que possa piorar estes sentimentos. É provável que sintamos sempre algum desconforto emocional, como tal sintonizar o nosso corpo e respirar fundo é sempre uma boa ideia que nos ajudará a relaxar.

Se depois desta análise decidirmos que não estamos em segurança, não há necessidade de continuar com o próximo passo e a nossa prioridade deverá focar-se em reencontrarmos essa segurança. Isso pode significar não dizermos nada e jantarmos silenciosamente, ou pode significar sair da sala por alguns minutos, ou pode ainda significar dar uma desculpa e voltar para o quarto o resto da noite.

Passo 2: Avaliar a importância da pessoa difícil nas nossas vidas

O passo 2, na verdade, consiste em duas subetapas. A primeira é avaliar o quão importante é aquela pessoa difícil nas nossas vidas. Mesmo que nos sintamos em segurança, talvez não valha a pena uma reação. Talvez interações passadas nos indiquem que aquela pessoa invariavelmente reagirá com raiva ou entrará na defensiva. Ou talvez o ano de 2020 simplesmente nos tenha deixado com menor capacidade de escutar alguns discursos. O juízo sobre esta decisão será sempre o nosso e mesmo que nos orgulhemos de falar sobre essas questões, não temos a obrigação de ser sempre porta-vozes delas.

Se decidirmos responder, a segunda sub-etapa é avaliar se desejamos usar o diálogo construtivo ou não. O diálogo construtivo centra-se em preservar e salvar relacionamentos, e é sobre ouvir e ser ouvido ou ouvida. Pode não mudar as posições da pessoa em questão, mas geralmente tem uma melhor chance de, pelo menos, abrir as suas mentes do que uma abordagem de confronto. É certo que muitas vezes é difícil e requer trabalho emocional que nem sempre temos disponível, porque talvez apenas queiramos dizer àquela pessoa que ela tem que parar com aquele discurso ofensivo senão sairemos da mesa. E isso é totalmente compreensível.

Passo 3: Interromper os comentários problemáticos

Se escolhermos um diálogo construtivo, poderemos reforçar o discurso com frases como: “Estou a ouvir-te” ou “Tenho uma perspectiva diferente, mas podes continuar.” Deixemos a pessoa falar – e evitemos interrompe-la – até que seja a nossa vez de responder. Se quisermos, podemos até nos inclinarmos para a pessoa e usarmos linguagem corporal aberta como uma maneira de mostrarmos sinceridade. Quando ela terminar de falar, podemos convidá-la a ouvir-nos: “Queres ouvir a minha perspectiva?”

Novamente, enquanto durar esta interação, importa ouvirmos o nosso corpo. Com a abordagem de tópicos sensíveis, pode ser fácil perdermos rapidamente o controlo da conversa. Mantermo-nos ciente dos nossos sentimentos pode ajudar-nos a evitá-lo. Fazermos uma pausa, ou, se a conversa começar a intensificar de tom, diminuirmos a temperatura da nossa abordagem.

Passo 4: Reparar a relação

Num certo ponto da conversa podemos sentir que chegámos a um impasse. Podemos querer dar o assunto como encerrado ou fazer uma mudança de tema de forma a cuidar e preservar a relação. Podemos dizer: “Agradeço por me ouvires. Não vamos concordar hoje, mas talvez possamos continuar a conversa noutro dia.”

Uma maneira tão aberta e apreciativa de terminar a discussão, e talvez passar para um tópico menos sensível, ajuda a preservar a relação, ao mostrar à outra pessoa que a valorizamos, mesmo que não concordemos com ela ou sintamos que algumas das suas opiniões são problemáticas.

Com tudo o que aconteceu este ano, e persistirá nos próximos meses, termos de enfrentar uma situação desafiadora de responder – ou não responder – a observações ofensivas não deve ser algo com o qual as pessoas LGBTI – ou qualquer pessoa – tenhamos que nos preocupar. Infelizmente, é justamente pelo contexto atual e pela reunião no mesmo espaço de núcleos familiares, que estas questões, ano após ano, surgem. Ao usarmos a abordagem apresentada como ferramenta de apoio podemos minimizar os danos que situações difíceis possam causar-nos nas nossas celebrações festivas. Com um pouco de sorte, espírito de união, e – quem sabe? – se não consigamos até transformar um momento de tensão noutro que possa levar a uma nova compreensão e empatia entre todas as pessoas à mesa?


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