Família Homofobia

Como podemos lidar com conversas difíceis à mesa de Natal?

Cena do filme Happiest Season, com Kristen Stewart.

A temporada de férias natalícias é uma altura de ansiedade para muitas pessoas e por diversas razões. Este ano, quando temos que lidar com estes encontros em contexto de pandemia, o stress, tal como os sentimentos de isolamento, podem surgir amplificados. E, claro, há também a aflição de termos que lidar com familiares cujas ideologias nos são ofensivas e prejudiciais, algo que acontece noutros anos, mas, devido ao clima político atual, pode tornar as pessoas LGBTI à mesa especialmente frágeis.

A abordagem neste Natal passa pela segurança e pelo distanciamento social, mas pode haver situações em que isso não depende inteiramente de nós e um elemento problemático pode efetivamente fazer parte do nosso núcleo familiar. É por isso uma boa ideia encontrarmos estratégias para um tipo diferente de risco: observações problemáticas sobre questões relacionadas com a temática LGBTI, bem como outros temas que sofrem, por sistema, algum tipo de ódio e discriminação.

Este é um guia simples e direto, realizado por Victoria Forrester, professora no programa Masters in Educational Leadership no Mills College, em como podemos lidar com isso. Pensemos nestes passos como um fluxograma em que, se a resposta for “não” a qualquer momento, podemos simplesmente parar.

Passo 1: Sentimo-nos em segurança?

Digamos que alguém disse algo que achamos problemático ou ofensivo. Pode até não ser conscientemente homofóbico ou transfóbico e talvez seja apenas absurdo. De qualquer forma, antes de reagirmos, devemos primeiro reservar um momento para avaliar a nossa segurança, quer em termos físicos como emocionais. Como nos sentimos é um foco aqui, porque é tão importante como a realidade objetiva da situação. Mesmo que não estejamos em perigo real, se nos sentirmos em insegurança, não teremos obrigação de fazer nada que possa agravar essa ansiedade.

Aqui estão duas maneiras concretas de avaliar a nossa segurança:

  1. Examinar o espaço. Existe alguma pessoa aliada presente—alguém que poderia vir em nosso auxílio ou, pelo menos, fornecer uma saída caso nos sintamos frágeis?
  2. Sintonizar o nosso corpo. Reservar um momento para respirar e nos concentrarmos na forma como o nosso corpo se sente. Podemos sentir irritação, tensão, ou até mesmo raiva ou nervosismo — tudo isso é normal. Se os sentimentos forem muito intensos, no entanto, pode ser melhor aguardarmos e não reagir a quente, podemos afastar-nos momentaneamente para respirar antes de reagirmos de alguma forma que possa piorar estes sentimentos. É provável que sintamos sempre algum desconforto emocional, como tal sintonizar o nosso corpo e respirar fundo é sempre uma boa ideia que nos ajudará a relaxar.

Se depois desta análise decidirmos que não estamos em segurança, não há necessidade de continuar com o próximo passo e a nossa prioridade deverá focar-se em reencontrarmos essa segurança. Isso pode significar não dizermos nada e jantarmos silenciosamente, ou pode significar sair da sala por alguns minutos, ou pode ainda significar dar uma desculpa e voltar para o quarto o resto da noite.

Passo 2: Avaliar a importância da pessoa difícil nas nossas vidas

O passo 2, na verdade, consiste em duas subetapas. A primeira é avaliar o quão importante é aquela pessoa difícil nas nossas vidas. Mesmo que nos sintamos em segurança, talvez não valha a pena uma reação. Talvez interações passadas nos indiquem que aquela pessoa invariavelmente reagirá com raiva ou entrará na defensiva. Ou talvez o ano de 2020 simplesmente nos tenha deixado com menor capacidade de escutar alguns discursos. O juízo sobre esta decisão será sempre o nosso e mesmo que nos orgulhemos de falar sobre essas questões, não temos a obrigação de ser sempre porta-vozes delas.

Se decidirmos responder, a segunda sub-etapa é avaliar se desejamos usar o diálogo construtivo ou não. O diálogo construtivo centra-se em preservar e salvar relacionamentos, e é sobre ouvir e ser ouvido ou ouvida. Pode não mudar as posições da pessoa em questão, mas geralmente tem uma melhor chance de, pelo menos, abrir as suas mentes do que uma abordagem de confronto. É certo que muitas vezes é difícil e requer trabalho emocional que nem sempre temos disponível, porque talvez apenas queiramos dizer àquela pessoa que ela tem que parar com aquele discurso ofensivo senão sairemos da mesa. E isso é totalmente compreensível.

Passo 3: Interromper os comentários problemáticos

Se escolhermos um diálogo construtivo, poderemos reforçar o discurso com frases como: “Estou a ouvir-te” ou “Tenho uma perspectiva diferente, mas podes continuar.” Deixemos a pessoa falar – e evitemos interrompe-la – até que seja a nossa vez de responder. Se quisermos, podemos até nos inclinarmos para a pessoa e usarmos linguagem corporal aberta como uma maneira de mostrarmos sinceridade. Quando ela terminar de falar, podemos convidá-la a ouvir-nos: “Queres ouvir a minha perspectiva?”

Novamente, enquanto durar esta interação, importa ouvirmos o nosso corpo. Com a abordagem de tópicos sensíveis, pode ser fácil perdermos rapidamente o controlo da conversa. Mantermo-nos ciente dos nossos sentimentos pode ajudar-nos a evitá-lo. Fazermos uma pausa, ou, se a conversa começar a intensificar de tom, diminuirmos a temperatura da nossa abordagem.

Passo 4: Reparar a relação

Num certo ponto da conversa podemos sentir que chegámos a um impasse. Podemos querer dar o assunto como encerrado ou fazer uma mudança de tema de forma a cuidar e preservar a relação. Podemos dizer: “Agradeço por me ouvires. Não vamos concordar hoje, mas talvez possamos continuar a conversa noutro dia.”

Uma maneira tão aberta e apreciativa de terminar a discussão, e talvez passar para um tópico menos sensível, ajuda a preservar a relação, ao mostrar à outra pessoa que a valorizamos, mesmo que não concordemos com ela ou sintamos que algumas das suas opiniões são problemáticas.

Com tudo o que aconteceu nos últimos anos, e persistirá nos próximos meses, termos de enfrentar uma situação desafiadora de responder – ou não responder – a observações ofensivas não deve ser algo com o qual as pessoas LGBTI – ou qualquer pessoa – tenhamos que nos preocupar. Infelizmente, é justamente pelo contexto atual e pela reunião no mesmo espaço de núcleos familiares, que estas questões, ano após ano, surgem. Ao usarmos a abordagem apresentada como ferramenta de apoio podemos minimizar os danos que situações difíceis possam causar-nos nas nossas celebrações festivas. Com um pouco de sorte, espírito de união, e – quem sabe? – se não consigamos até transformar um momento de tensão noutro que possa levar a uma nova compreensão e empatia entre todas as pessoas à mesa?


Ep. 113 – Rock the Vote (com Diogo Pereira): ESPECIAL LEGISLATIVAS Dar Voz a esQrever: Pluralidade, Diversidade e Inclusão LGBTI 🎙🏳️‍🌈

O centésimo décimo terceiro episódio do Podcast Dar Voz A esQrever 🎙️🏳️‍🌈 é apresentado por nós, Pedro Carreira e Nuno Gonçalves. Não só mas também! É que esta semana temos o nosso correspondente especial em Bruxelas, o grande Diogo Pereira! Tudo a propósito do texto que ele escreveu, avaliando com arco-íris (ou não) os programas eleitorais dos partidos políticos para as legislativas, consoante as menções a medidas concretas para pessoas LGBTI. Falamos do programa de cada um dos partido democráticos e ainda fazemos o rescaldo do Rescaldo LGBTI, um debate da ILGA Portugal com representantes de todos os partidos políticos que aceitaram o convite. Ainda temos tempo para Dar Voz A… o Diogo fala da série Causa Justa da RTP e nós falamos da vitória de um Globo de Ouro pela MJ Rodriguez de Pose, a primeira pessoa trans a conquistar o galardão e ainda da disponibilização da série Golden Girls na Disney+, pouco tempo depois do falecimento da querida Betty White. Para participarem e enviar perguntas que queiram ver respondidas no podcast contactem-nos via Twitter e Instagram (@esqrever) e para o e-mail geral@esqrever.com. E nudes já agora, prometemos responder a essas com prioridade máxima. Podem deixar-nos mensagens de voz utilizando o seguinte link, aproveitem para nos fazer questões, contar-nos experiências e histórias de embalar: https://anchor.fm/esqrever/message 🗣 – Até já unicórnios 🦄 Música de Madonna; Jingle por Hélder Baptista 🎧 Este Podcast faz parte do movimento #LGBTPodcasters 🏳️‍🌈
  1. Ep. 113 – Rock the Vote (com Diogo Pereira): ESPECIAL LEGISLATIVAS
  2. Ep. 112 – Bello Embustero: Pedro Choy, Terapias de Conversão e Pseudociência
  3. Ep. 111 – Thank You For Being a Friend 2: Adeus a Betty White e Até Sempre!

O Podcast Dar Voz A esQrever 🎙🏳️‍🌈 está disponível nas seguintes plataformas:
👉 Spotify 👉 Apple Podcasts 👉 Google Podcasts 👉 Pocket Casts 👉 Anchor 👉 RadioPublic 👉 Overcast 👉 Breaker 👉 Podcast Addict 👉 PodBean 👉 Castbox 👉 Deezer

1 comentário

  1. É impressionante como, em muitas famílias, especialmente as da minha época, em que sentados à mesa, sempre vinham a tona, especialmente, aos solteiros, perguntas como: como estava o trabalho, namoro ou foco em problemas de saúde como Fobia Social (que quando minha mãe finalmente leu, sobre, disse que não sabia que eu sofria tanto)! Atualmente, nem o óbito, de um dos irmãos, inicio de janeiro/21, fez os meus outros irmãos/irmãs, buscarem a união! Mesmo, tendo mais de 50 ou 60 anos, parecem “travar”, nesse momento da vida, em que não deveria ser mais tabu, falarem de si, da sexualidade, por exemplo!

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: