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A todas as pessoas que não votaram, um lamento

Acordei mal dormida, desassossegada, aflita. Ao meu lado, a minha namorada disse-me “não estás sozinha na luta”. E essa é a mais importante verdade que não quero esquecer: não estamos sós nesta luta. Contra a solidão, contra o silêncio, contra a indiferença, contra as trevas, a favor da empatia, da liberdade, do amor e da luz, estaremos cá, em conjunto, sem lamentos. Aparece.

Hoje acordei mal dormida, em desassossego, em ansiedade, em turbulência. Nas eleições para a presidência deste país onde vivo (e que considero meu), uma candidatura de extrema-direita ganha expressão,  uma ideologia que atenta contra todos os valores em que acredito, um discurso que ataca a minha pessoa diretamente sem pudor nem respeito. Assusto-me, há uma parte de mim que ontem acordou com a esperança que haveria uma lição de democracia em curso. Não houve. E hoje tenho de acordar.

Mas serão as quase 500 mil pessoas (!!!) que votaram na extrema-direita que me assustam mais? Entre elas, 126 na minha freguesia, quem sabe vizinhos e vizinhas? São essas pessoas aquelas que ameaçam a nossa débil democracia? Essas pessoas querem ser ouvidas e acham que encontraram alguém que as ouve – estão enganadas, muito enganadas, mas em concordância votaram. Fizeram-se ouvir, sentir, estão aqui, ao nosso lado, entre nós, e precisamos vê-las.

Houve outras pessoas (cerca de 60%) que não votaram.

A todas as pessoas que não puderam votar por estarem infetadas com covid-19, em quarentena obrigatória ou em isolamento profilático, manifesto a minha solidariedade. É uma das coisas que mais temo: não poder votar por razões alheias a mim, por impedimentos externos, por opressão. E para todas as pessoas que queriam votar e não puderam este é um lamento solidário.

A todas as pessoas que não foram votar por medo do bicho, da Covid-19, da pandemia, manifesto o meu pesar. Não há nada pior que o medo a impedir-nos de exercer a nossa liberdade. Que vivamos um tempo em que a doença, a desconfiança, a ansiedade, se sobreponham à dignidade, à confiança, à alegria, provoca um lamento triste, impaciente e saudoso.

A todas as pessoas que não votaram por inúmeras razões que desconheço, ou que engrossaram o número de abstenção invalidamente, desejava que houvesse forma que assim não fosse. Se não for para vós este lamento, compadeçam-se.

A todas as pessoas que não votaram porque assim escolheram, vem o meu maior lamento.

  • Pela indiferença que demonstram perante a sociedade e qualquer valor de comunidade, pelo “tanto faz, é tudo igual”.
  • Pelo seu silêncio, que é a maior ameaça à democracia. O silêncio é o maior amigo da escuridão.
  • Pelo desprezo do seu próprio valor e pela história.
  • Pela não-responsabilização e pelo conformismo.
  • Pelo sentido de impotência e por se sentirem enganadas.
  • Por não saberem como podem fazer a diferença.

Todas as pessoas que acham que o seu voto é indiferente fazem a diferença que nos separa do fascismo. Quero que voltem aqui, quero ouvi-las, quero saber quem são, quero reconhecê-las. Essas pessoas não são marginais, são a maioria e, quando são chamadas, não aparecem porque “não interessa nada”.

Assustam-me as quase 500 mil pessoas que votaram na extrema-direita, incluindo 126 da minha freguesia? Sim, assustam.

Mas assustam-me muito mais os milhões que não se importam que isso aconteça.

Acordei mal dormida, desassossegada, aflita. Ao meu lado, a minha namorada disse-me “não estás sozinha na luta”. E essa é a mais importante verdade que não quero esquecer: não estamos sós nesta luta. Contra a solidão, contra o silêncio, contra a indiferença, contra as trevas, a favor da empatia, da liberdade, do amor e da luz, estaremos cá, em conjunto, sem lamentos. Aparece.

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