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COMO SE CONSTRÓI UMA IDENTIDADE SONORA? DISCUSSÃO SOBRE O VÍDEO MUSICAL NONBINARY, DE ARCA

Rubrica sobre sexualidade e género em vídeos musicais.

Um vídeo musical combina sons, imagens produzidas por computadores, registos documentais, textos escritos, e tantas outras formas de criação artística. Uma sexualidade e um género indicam comportamentos, características e formas de identidade que são construídas pelos modos de agir, pensar, falar e de viver sozinho e em comunidade. Os dois parecem diferentes, mas os dois apontam para uma realidade fundamental do nosso quotidiano: a construção social de uma identidade. No seu cruzamento surgem formas de ver o mundo que, através da arte, sedimentam, reconfiguram, criticam ou procurar subverter estereótipos que são um ataque constante à pluralidade e diversidade. Esta rubrica procura partir da questão: como se constrói uma identidade sonora? Pensamos muitas vezes que a música não tem significado. Ou então que é óbvio que um vídeo musical “é isto ou aquilo” porque as imagens e as palavras apresentam mensagens que parecem óbvias. Nem o primeiro é claro. Nem o segundo é evidente. Tudo é fluído e performativo, e a música, uma arte da performance por excelência, é um elo fundamental para a discussão da identidade.

COMO SE CONSTRÓI UMA IDENTIDADE SONORA? 
DISCUSSÃO SOBRE O VÍDEO MUSICAL NONBINARY, DE ARCA

Excerto do vídeo Nonbinary.

Arca é compositora, cantora, produtora e DJ natural da Venezuela. Lançou o seu primeiro álbum em 2014 e colaborou com várias artistas, como SOPHIE, a primeira mulher trans nomeada para um Grammy (e que infelizmente morreu no passado dia 30 de janeiro…). Arca assumiu a sua identidade não-binária em 2018, e revelou pouco depois que era uma mulher trans. Neste seu último álbum, KiCk i, Arca afasta-se do registo mais ambiental que marcou os seus primeiros trabalhos e mergulha num universo sonoro de misturas e experiências com diversos géneros eletrónicos de dança.   

Neste vídeo, Arca apresenta-nos uma música eletrónica experimental com uma simplicidade de instrumentos que permite à sua voz se destacar. Surpreendeu-me o facto de apresentar uma letra que indica a identidade não-binária como um prazer, “what a treat / it is to be/ Nonbinary”. Mas, ao mesmo tempo, as imagens mostram o corpo de Arca a ser mutilado e continuamente confrontado, numa arte muito bem produzida por computador. Vamos desconstruir estes pontos para pensar sobre a construção desta identidade sonora. 

A música divide a mensagem que Arca pretende transmitir em três momentos. No início, Arca canta com um acompanhamento simples que realça a letra, em especial pela bateria que ecoa com um timbre frio e metálico. A ideia central é que Arca não pode ser um resumo do que os outros acham ou são capazes de interpretar. Na passagem do primeiro verso para o segundo, um breve silêncio é subitamente interrompido pelo som de um gatilho e disparo de uma pistola. Isto coloca Arca no registo da força e ação. Quem será que dispara e contra quem? 

Com a entrada do refrão começa o segundo momento, indicado pela frase “Speak for your self states”. A música intensifica-se devido à distorção sonora, podemos ouvir diferentes timbres, transformações eletrónicas e multiplicam-se as vozes de Arca que soa quase um robô. Tudo isto é uma indicação de que a sua identidade não-binária está construída como a conjugação de vários elementos em interação. A última seção da música é um rap onde Arca assinala vários comportamentos que pode e escolhe ter, entre ser amigável, real, ou sexy, no que parece ser um discurso de afirmação. Nas imagens observamos Arca versus Arca. Na minha leitura, existe um confronto entre o que a sociedade exige da sua conduta, representado por uma personagem vestida de branco (e de costas), contra os gritos de libertação de outra, com roupa preta, que não se deixa intimidar.

Excerto do vídeo Nonbinary.

Todo o vídeo musical é uma expressão da identidade como construção social e, em particular, como performance. Arca apresenta-se em várias situações que, em outros contextos, estão associados à mulher: engravida e pousa no centro de uma concha, tal como a pintura O Nascimento de Vénus de Sandro Botticelli (e que tem várias interpretações como a concha ser um símbolo da vagina). É impossível não reparar na associação entre o instante do parto e um cenário de laboratório futurista, submerso numa cama de núpcias, onde um grupo de androides também participam. Desta forma a não binariedade possui uma relação com a frieza das máquinas que estão materializadas nos sons de bateria e na eletrónica. Isto implica igualmente que a construção da mulher, através do papel social de gerar uma criança, é apresentada como complexa e com um toque de grotesco. Basta considerarmos que, se Arca usasse o som melancólico e contemplativo de um piano ou de um violino, faria saltar à vista as rendas e o branco do cenário. (Comparemos com o vídeo NEVER WORN WHITE de Katy Perry onde a mulher grávida é construída de um modo bem diferente, muito mais presa à habitual pureza e idealização que os audiovisuais procuram estabelecer…)

Se ouvirmos com atenção o momento em que canta “speak for you self states”, que é tanto “fala por ti” como “fala a partir dos teus estados próprios”, a música está distorcida, confusa e até caótica. Quer isto dizer que Arca sente que é muita coisa ao mesmo tempo? E isso será positivo, a tal guloseima que canta no final, ou uma maldição que mantém a identidade não-binária presa a uma certa angústia? Não tenho respostas, apenas estímulo a reflexão e forneço pistas para que todos possamos pensar sobre a construção desta identidade sonora. 

6 comentários

  1. Adorei a análise. Sempre admirei Arca e numa crescente. Foi bem revelador entender um pouco mais da sua concepção do clipe de uma forma mais detalhada.

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