As notícias relativas às redes sociais não são novas, mas parte de mim, na verdade, gostava que fossem. Talvez como forma de justificar a falta de ação real por parte de entidades reguladoras. Mas, depois de filmes, livros, relatórios e estudos, parece que, de alguma forma, tudo continua na mesma. Talvez resida aqui a grande reticência que tive em abordar este tema fora das minhas recomendações habituais. Ainda assim, é impossível ignorar o peso crescente — e, verdade seja dita, assustador — que esta realidade tem vindo a assumir.
Porque, perante todos os dados disponíveis, se a ação de empresas como a Meta, a X ou o YouTube já foi, em diversas esferas, lenta na proteção dos utilizadores, o crescimento da desinformação, agora amplificado pelos avanços da inteligência artificial, faz parecer que, afinal, pouco ou nada mudou.
O que nos têm contado os livros?
Os últimos anos têm sido particularmente prolíficos no que toca a obras traduzidas que nos chegam com relatos internos destas empresas. Fruto de coragem e resiliência jornalística, vários livros expõem aquilo que durante muito tempo permaneceu escondido.
Em obras como Manipulados, das jornalistas Sheera Frenkel e Cecilia Kang, ficamos a conhecer um retrato inquietante: na ânsia de crescer, valores e responsabilidades sociais foram frequentemente relegados para segundo plano. A necessidade humana de comunicação foi transformada num negócio altamente lucrativo, alimentado por interações que, quanto mais intensas — e muitas vezes negativas —, melhor. O que estes relatos mostram é que o crescimento das plataformas está profundamente ligado à capacidade de gerar reação: indignação, conflito, polarização.
Tudo isto sustentado por algoritmos sofisticados, desenhados para nos conhecer ao detalhe e servir-nos exatamente aquilo que nos mantém ligados, mesmo que isso signifique reforçar emoções negativas e promover a desinformação. Com práticas corporativas intrusivas, tanto ao nível interno como no impacto externo, e uma busca constante por poder que levou à desvalorização das consequências sociais, incluindo a influência em processos eleitorais, a forma como olho hoje para as redes sociais é marcada por um equilíbrio desconfortável entre uma ténue esperança e um medo real.
Não apenas pela desresponsabilização das empresas, mas também pela aparente incapacidade de quem nos governa em acompanhar — e regular — estas realidades. Basta olhar para audições públicas nos Estados Unidos para perceber o desfasamento entre quem questiona e aquilo que está verdadeiramente em causa.
Ainda assim, pequenas vitórias têm surgido. Em alguns casos recentes, tribunais começaram a reconhecer o papel dos algoritmos na promoção de comportamentos aditivos. Mas, num mundo onde se discute simultaneamente a revogação de direitos sociais e a ausência de obrigações claras para combater a desinformação, a sensação é de que caminhamos numa direção perigosa.
Escrever sobre isto não é assumir que quem lê desconhece o problema. É, antes, um exercício de memória, um lembrete de uma verdade inconveniente: com todos os benefícios que as redes sociais nos trouxeram, a sua capacidade de fragilizar democracias é, hoje, impossível de ignorar.
Usar ou não usar: uma questão?
Vou ser honesto: já ponderei, várias vezes, abandonar as redes sociais.
Mas a realidade, sobretudo pela minha ligação ao mercado editorial, acaba por me prender. Plataformas como o TikTok e o Instagram transformaram quase todos os utilizadores em criadores de conteúdo. E, embora isso possa ser visto como uma oportunidade, também contribuiu para um afastamento progressivo da realidade social.
Vivemos num espaço onde o ruído se sobrepõe frequentemente ao conteúdo. Comentários desprovidos de cuidado, muitas vezes sem qualquer preocupação com a linguagem ou com o outro, tornam-se veículos de um ódio fácil, imediato e pouco fundamentado.
Ainda assim, abandonar não parece, para já, uma opção realista.
Num mercado cada vez mais global e dependente da visibilidade digital, a autopromoção deixou de ser um extra para se tornar uma necessidade. E foi precisamente nesse conflito que me encontrei no ano passado, quando, aquando da tomada de posse de Donald Trump, a Meta anunciou o fim de várias iniciativas ligadas à promoção da igualdade e proteção de minorias.
Fez-me sentir hipócrita: estou a escrever livros queer e a usar estas redes?
Mas foi também nesse momento que percebi algo essencial: independentemente das decisões das plataformas, os utilizadores continuam a ter poder. E continuam a usá-lo. Para amplificar mensagens de inclusão, respeito e mudança.
Talvez seja aí que reside a tal esperança. Pequena, mas ainda presente.
Vamos a livros?
Perdoem-me a reflexão negativa. Mas, sendo tão assustadora, quis usar o peso das palavras para aliviar esta cabeça pulsante em receios que, parecendo distópicos, se têm tornado cada vez mais reais. Isto leva-me a, nesta publicação, e contrariamente às anteriores, a recomendar livros bem diferentes.


Vou começar com Manipulados (2022), de Sheera Frenkel e Cecilia Kang, uma obra que expõe, com detalhe e base jornalística sólida, os bastidores de uma das maiores plataformas do mundo e a forma como decisões internas moldaram o que hoje consumimos diariamente.
Segue-se A Verdade Sobre o Facebook (2024), uma leitura que ganha ainda mais peso quando cruzada com as revelações da whistleblower Frances Haugen. Ao divulgar milhares de documentos internos conhecidos como Facebook Papers, Haugen expôs uma realidade difícil de ignorar: a empresa tinha conhecimento claro dos impactos negativos das suas plataformas, desde a promoção de conteúdos polarizadores até aos efeitos na saúde mental de adolescentes, mas optou, repetidamente, por priorizar o crescimento e o lucro. Curiosamente, e como sinal de que este tema continua longe de estar encerrado, está previsto para este ano o lançamento de um novo filme inspirado nestes acontecimentos, funcionando como uma espécie de continuação temática de A Rede Social, voltando a explorar o lado mais sombrio do crescimento das redes sociais. O filme The Social Reckoning é da Sony Pictures e estreia a 9 de outubro.

Por fim, Gente Pouco Recomendável: Uma história real sobre poder, ganância e idealismo perdido (2026) alarga o olhar para além de uma única empresa, revelando como o idealismo inicial do mundo tecnológico foi, em muitos casos, sendo substituído por lógicas de poder, influência e lucro.
Não são leituras leves. Mas talvez sejam, hoje, leituras necessárias.
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