
Há um ano, participar na Marcha do Orgulho de Budapeste significava desafiar uma proibição estatal, arriscar multas e até sistemas de reconhecimento facial. Hoje, milhares de pessoas voltam às ruas da capital húngara numa realidade política profundamente diferente: pela primeira vez em 16 anos, a marcha realiza-se sem Viktor Orbán no poder.
Mas ninguém espera que um novo Governo apague, de um dia para o outro, mais de uma década de políticas que colocaram as pessoas LGBTI+ no centro da guerra cultural promovida pelo antigo executivo.
A Marcha do Orgulho deste sábado é, por isso, menos uma celebração de uma vitória e mais um teste ao futuro da Hungria.
Como resumiu Petra Buzás ao The Guardian, da organização da Budapest Pride, esta edição representa simultaneamente “esperança, prudência e perseverança“. Esperança de que as pessoas LGBTI+ deixem de ser tratadas como alvos políticos. Prudência porque muitas continuam a viver com medo. E perseverança porque a igualdade continua longe de estar garantida.
“Ainda não podemos falar de uma mudança significativa e amplamente percetível na vida quotidiana das pessoas LGBTQ.”
O fim de um Governo não elimina o seu legado
Durante os 16 anos de governação de Orbán, a Hungria tornou-se um dos principais exemplos europeus de retrocesso democrático em matéria de direitos LGBTI+.
Foram aprovadas leis que impediram o reconhecimento legal das pessoas trans, restringiram a adoção por casais do mesmo sexo e proibiram a presença de conteúdos relacionados com diversidade sexual e de género em escolas, meios de comunicação e livrarias. Em 2025, foi ainda criada uma base legal para proibir marchas Pride, uma medida inédita na história recente da União Europeia.
Apesar da proibição, mais de 200 mil pessoas participaram na Marcha do Orgulho do ano passado, transformando-a numa das maiores manifestações da história recente da Hungria e num símbolo de resistência democrática.
Meses depois, o partido Fidesz perdeu as eleições para o partido Tisza, liderado por Péter Magyar.
A mudança política ainda não chegou à lei
O novo Governo adotou um discurso menos hostil e prometeu uma mudança de regime político.
Na noite da vitória eleitoral, Magyar afirmou querer uma Hungria onde “ninguém seja estigmatizado por pensar ou amar de forma diferente da maioria“. Mais recentemente, apelou ao Fidesz para que “saia dos quartos dos húngaros“.
Contudo, as principais leis anti-LGBTI+ permanecem em vigor. Até ao momento, o Governo não revogou a legislação utilizada para proibir a Pride nem eliminou outras restrições impostas durante a era Orbán. Organizações da sociedade civil têm insistido que os direitos fundamentais não podem depender apenas de um tom político mais moderado ou de gestos simbólicos.
É precisamente essa a principal preocupação da organização da marcha.
Segundo Buzás, esta aparente abertura “dá-nos razão para ter esperança, mas a nossa confiança está ligada não a palavras ou gestos, mas a passos legislativos e institucionais concretos.”
O medo não desaparece com uma eleição
A realidade quotidiana também muda mais lentamente do que os resultados eleitorais. Muitas pessoas LGBTI+ continuam receosas de falar abertamente sobre quem são, das suas relações ou das suas famílias. O estigma alimentado durante anos por campanhas governamentais continua presente na sociedade.
É precisamente por isso que a Marcha do Orgulho deste ano tem um significado particular. Ao contrário de muitas Pride realizadas em contextos relativamente estáveis, Budapeste marcha num momento de transição, quando a direção política mudou mas as estruturas legais e sociais construídas ao longo de mais de uma década permanecem quase intactas.
“A história da comunidade LGBTQ húngara nos últimos anos também mostrou que a repressão nem sempre atinge seu objetivo”, refletiu Buzás. “Aqueles no poder podem tentar criar medo, restringir uma comunidade através de leis e estigmatizá-la através da propaganda, mas isso também pode sair pela culatra: para muitas pessoas, deixa claro que defender os direitos da comunidade é, de facto, sobre a liberdade de todas as pessoas.”
Subscreve à nossa Newsletter Semanal Maravilha Aqui! 🙂
Todos os sábados de manhã receberás um resumo de todos os artigos publicados durante a semana. Sem stress, sem spam, a nossa orgulhosa Newsletter Semanal pode ser cancelada a qualquer momento! 🏳️🌈

Deixa uma resposta