Dezasseis anos depois de Inception, Elliot Page regressa ao cinema de Christopher Nolan em A Odisseia

Dezasseis anos depois de Inception, Elliot Page regressa ao cinema de Christopher Nolan em A Odisseia

Quando A Odisseia chegar aos cinemas esta semana, Christopher Nolan voltará a reunir alguns dos nomes que têm atravessado a sua filmografia. Entre eles está Elliot Page, 16 anos depois de ambos terem trabalhado juntos em Inception.

Em 2010, Page interpretou Ariadne, a jovem arquiteta recrutada para construir os labirintos de sonhos de Inception. Agora, regressa ao universo de Nolan num dos filmes mais aguardados do ano e naquele que será um dos seus maiores papéis numa produção de Hollywood desde que assumiu publicamente ser um homem trans, em 2020.

Em A Odisseia, Page interpreta Sinon, um soldado grego ligado a um dos episódios mais famosos da Guerra de Troia: o estratagema do cavalo de madeira que permitiu aos gregos entrar na cidade.

As imagens promocionais já deram um breve vislumbre da personagem. Num dos momentos revelados, Sinon surge imobilizado, com uma espada encostada ao queixo, enquanto encara quem o ameaça.

“Foi uma alegria regressar”

Para Elliot Page, voltar a trabalhar com Christopher Nolan teve também uma dimensão pessoal.

Ao falar sobre o reencontro com o realizador, o ator recordou a experiência de Inception e explicou como a sua própria relação consigo mudou nos anos que separam os dois filmes.

Foi uma enorme alegria regressar”, afirmou Page. “Como podem imaginar, estar mais confortável connosco torna este tipo de projetos mais agradável.

Page acrescentou que adorou trabalhar com Nolan em Inception e fazer parte daquele filme, descrevendo o regresso como uma experiência “incrível”.

Nolan parece partilhar o entusiasmo.

Foi muito divertido. Elliot é simplesmente fantástico e achei que este era um papel excelente para ele”, afirmou o realizador numa entrevista ao programa australiano The Morning Show. “Divertimo-nos imenso há anos em Inception. É bom reencontrar pessoas.”

O regresso acontece num momento muito diferente da vida e carreira de Page. Depois de se assumir publicamente como trans em dezembro de 2020, o ator tem falado abertamente sobre identidade, saúde e a pressão vivida durante anos numa indústria que procurava controlar a sua imagem.

Em The Umbrella Academy, a transição do próprio ator acabou também por ser integrada na história da sua personagem, Viktor Hargreeves. No cinema, porém, Odisseia representa uma entrada particularmente visível numa produção de enorme escala e destinada ao grande público.

E Page interpreta simplesmente um homem.

A indignação chegou antes do filme

A escolha de Elliot Page para o elenco não passou despercebida nos espaços conservadores e de extrema-direita das redes sociais.

Durante meses, e antes mesmo de ser conhecido o papel do ator, circularam rumores de que Page poderia interpretar Aquiles. A especulação foi suficiente para desencadear uma vaga de comentários transfóbicos e acusações de que Nolan estaria a sacrificar a suposta “precisão histórica” em nome de uma agenda “woke”.

A ironia é difícil de ignorar: Aquiles é uma figura mitológica.

Quando surgiram informações de que Page interpretaria afinal Sinon, a campanha de indignação já estava em curso. O ator tornou-se um dos alvos de críticas mais amplas ao elenco de Odisseia, que atingiram também Lupita Nyong’o e outros nomes do filme.

Christopher Nolan não parece particularmente interessado em alimentar a polémica.

Faz parte do território”, respondeu, quando questionado pelo The Telegraph sobre as reações. “Mas estas conversas que acontecem antes de as pessoas verem o filme são sempre irrelevantes, porque ninguém que participa nelas sabe ainda o que o filme realmente é.”

Quando se trata de Odisseia, tudo o que posso fazer é realizar o melhor filme possível da forma mais sincera”, concluiu Nolan. “É muito diferente da forma como qualquer outra pessoa o faria, mas é isso que é uma adaptação.”

Elliot Page não precisa de interpretar uma personagem trans

Talvez seja precisamente aqui que a presença de Elliot Page em Odisseia se torna mais interessante.

Não porque Sinon seja uma personagem trans. Não é.

Nem porque Nolan tenha construído uma narrativa pública em torno da identidade do ator. Pelo contrário, o realizador fala sobre Page da forma mais simples possível: como um intérprete com quem gostou de trabalhar e que considerou certo para o papel.

Num momento em que atores e atrizes trans continuam frequentemente a representar histórias centradas exclusivamente na identidade de género, ver Elliot Page integrado num dos maiores elencos de Hollywood tem um significado próprio.

A representação também pode acontecer assim. Um ator trans pode ser um soldado grego. Pode participar num épico mitológico filmado em IMAX. Pode fazer parte de uma história com milhares de anos sem que a sua identidade tenha de ser explicada, justificada ou transformada no centro da personagem.

Dezasseis anos depois de Inception, Elliot Page regressa ao cinema de Christopher Nolan num lugar diferente da sua vida.

Mais confortável consigo próprio, como o próprio descreve. E novamente escolhido por um realizador que parece ter uma explicação bastante menos complicada para o reencontro.

Elliot Page é “fantástico”. E o papel é excelente para ele. Talvez não seja preciso inventar uma polémica maior do que isso.

A Odisseia estreia a 16 de julho.


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