
Pelo menos 50 pessoas foram detidas no domingo durante a Marcha do Orgulho LGBTI+ de Istambul, que voltou a realizar-se apesar da proibição imposta pelas autoridades turcas. Entre as pessoas detidas encontra-se pelo menos uma jornalista, numa operação policial que incluiu fortes restrições à circulação e o encerramento de algumas das principais zonas da cidade.
A marcha decorreu a 28 de junho, Dia Internacional do Orgulho LGBTI+, num contexto de forte presença policial. As autoridades bloquearam o acesso à Praça Taksim, tradicional ponto de encontro das celebrações, instalaram barreiras metálicas e limitaram o funcionamento do metro em várias zonas de Istambul, numa tentativa de impedir qualquer concentração.
Perante o dispositivo policial, participantes reuniram-se em diferentes bairros da cidade, recorrendo a locais alternativos para manter a manifestação. Segundo a organização, uma das palavras de ordem sintetizou o espírito da iniciativa:
“Meu amor, o dia ainda não acabou. Na verdade, estamos apenas a começar. Não vamos desistir. Continuaremos a ocupar as ruas em todos os lugares onde estivermos.”
Jornalista detida durante a cobertura da marcha
Entre as pessoas detidas está a jornalista Müberra Ünsal, apesar de se ter identificado repetidamente como profissional da comunicação social.
O Sindicato dos Jornalistas da Turquia denunciou a detenção, afirmando que profissionais da imprensa voltaram a enfrentar “interferência ilegal” enquanto cobriam a Marcha do Orgulho. A organização criticou ainda a atuação das autoridades contra jornalistas que exerciam funções informativas durante o evento.
Uma década de proibições
A Marcha do Orgulho de Istambul é proibida desde 2015. Apesar disso, organizações LGBTI+ continuam todos os anos a encontrar formas de assinalar a data, muitas vezes mudando sucessivamente o local das concentrações para escapar aos bloqueios policiais.
Antes das proibições, a marcha chegou a reunir mais de 100 mil pessoas, tornando-se uma das maiores celebrações do Orgulho em países de maioria muçulmana. Desde então, a resposta das autoridades tem sido marcada por detenções, dispersão policial e restrições à liberdade de reunião.
Erdoğan intensificou o discurso anti-LGBTI+
Embora a homossexualidade nunca tenha sido criminalizada na Turquia, o país continua sem legislação que proteja as pessoas LGBTI+ da discriminação.
Nos últimos anos, o Presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, intensificou o discurso contra a comunidade. Durante a campanha presidencial de 2023, classificou as pessoas LGBTI+ como uma das “maiores ameaças à família” e associou a homossexualidade ao declínio da natalidade no país, reforçando uma retórica que tem acompanhado o endurecimento das políticas públicas sobre diversidade e direitos humanos.
As pessoas trans podem alterar legalmente o marcador de género desde 1988, mas apenas mediante cirurgia de afirmação de género, avaliações médicas e autorização judicial, requisitos que continuam a ser criticados por organizações internacionais de direitos humanos.
Entre os piores países da Europa para pessoas LGBTI+
A deterioração do contexto político reflete-se também nas avaliações internacionais.
Na edição de 2026 do Rainbow Map da ILGA-Europe, a Turquia surge entre os países europeus com menor proteção legal para pessoas LGBTI+, ocupando o 47.º lugar entre 49 países avaliados. Apenas Azerbaijão e Rússia obtiveram classificações inferiores.
As detenções deste fim de semana reforçam um padrão que se repete há mais de uma década: apesar das proibições e da repressão policial, ativistas e organizações LGBTI+ continuam a ocupar o espaço público para reivindicar visibilidade, liberdade de expressão e igualdade de direitos.
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